



















 Um amor fora-da-lei
  Once an Outlaw
  Theresa Michaels
  Desbravadores  2


   A saga de trs irmos em busca do amor e da liberdade!
   A ltima coisa da qual Logan Kincaid se lembrava era de estar cavalgando, sob identidade falsa, com um bando de foras-da-lei. No fazia a mnima idia de como
fora parar na cama de Jessie Winslow, onde se recuperava lentamente. Sabia apenas que, enfim, encontrara a mulher de seus sonhos.
   Jessie estava determinada a vencer por si mesma, at o dia em que encontrou aquele estranho, na soleira de sua porta,  beira da morte. O misterioso pistoleiro 
nem sequer confiava nela o bastante para lhe revelar o sobrenome, mas Logan fora o nico homem que descobrira a chave para seu corao solitrio!
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   CAPTULO I
   
   Fria. Frustrao. Fracasso. A mais perfeita sntese das sensaes que abalavam Logan Kincaid.
   Irnico pensar que ele estivesse ajudando a roubar o dinheiro destinado ao pagamento dos trabalhadores da Mina de Prata. Irnico, porque a mina era uma das inmeras 
propriedades pertencentes  sua famlia, no territrio do Arizona.
   O sol inclemente transformara o riacho seco num verdadeiro forno e o suor lhe escorria abundante sob o chapu. No se dera ao trabalho de cobrir o rosto com a 
bandana, pois a barba de dois dias bastava para disfarar suas feies. Nesses ltimos meses quase no tivera oportunidade de se barbear e os plos cerrados provocavam 
coceira.
   Conhecido como Lucky pelos bandidos a quem se associara, e que agora se apossavam do dinheiro destinado aos mineiros pela quarta vez em poucas semanas, de repente 
ele sentiu um frio na espinha. Diferentemente do irmo mais jovem, Tyrel, Logan nem sempre pressentia a aproximao de problemas.
   A paisagem desolada no revelava vestgios de vida, alm do pequeno grupo de homens parados junto  carroa.
   Segurando firme as rdeas de seu cavalo, inquieto por causa do calor excessivo, Logan mantinha os olhos fixos em Tallyman, ex-escravo e desertor do exrcito, 
que se ocupava em acomodar o dinheiro roubado em dois pares de alforjes. Terminado o servio, Tallyman arremessou um dos pares para Monte Wheeler, quem dava as ordens, 
e prendeu o outro na prpria sela.
   Os cinco homens contratados para fazer o transporte do dinheiro haviam sido facilmente dominados e, destitudos das armas, botas e chapus, permaneciam cercados 
por trs dos bandidos. Desconfiado, Logan observou atento Billy Jack Mulero, um tipo perigoso em cujas veias corria sangue mexicano e apache. Os olhos injetados 
deixavam claro que o mestio estivera mascando brotos de mescal outra vez.
   Blackleg,  direita de Billy Jack, notou a preocupao de Logan e fez um sinal quase imperceptvel para que ele continuasse atento aos movimentos do comparsa. 
At ento, depois de quatro assaltos, ningum fora morto. Por alguma razo, os bandidos no queriam mortes. Porm ningum se dava ao trabalho de impedir que Billy 
Jack provocasse os cinco homens, ou se aproveitasse de seu estado vulnervel. Havia muitas maneiras de deixar algum morrer lentamente.
   Tinham sido necessrios seis meses para que Logan conseguisse se infiltrar no bando e sentia-se furioso por ainda no haver descoberto quem estava por trs dos 
assaltos e dos roubos de gado, duas pragas que assolavam o imprio dos Kincaid.
   A frustrao crescente o corroa por dentro. No era apenas uma questo de perder minrio de prata, dinheiro e gado. Seu orgulho no suportava o fracasso da tentativa 
de desmascarar o inimigo da famlia.
   A voz grave de Zach Romal se uniu  de Billy Jack nos insultos aos prisioneiros. Sabendo-se observado, Logan manteve o olhar fixo no mais jovem dos guardas, visivelmente 
abalado pelas ameaas dos criminosos. Como gostaria de que Monte desse o sinal de partida.
   Cada um dos assaltos anteriores tinha transcorrido sem problemas. Apesar de nunca haver uma data certa para que o pagamento dos empregados fosse efetuado, ou 
o minrio recolhido, o bando ao qual se juntara sempre sabia a data e o local exatos onde as transaes seriam feitas. Tamanha exatido s podia ser fruto de um 
conhecimento prvio de cada um dos passos de Conner Kincaid. Portanto, o informante era algum muito prximo  famlia. Algum a quem j destinara uma bala de seu 
revlver.
   Sentindo o medo emanar dos cinco guardas no instante em que Zach brandiu o chicote, Logan pensou em dar um fim no bandido. Mas proteger aqueles homens inocentes 
seria trair sua verdadeira identidade e pr todo o plano a perder.
   Entretanto, precisava fazer algo. No assistiria, impassvel,  tortura de pessoas indefesas.
   - Ei, Monte, arrebanhe logo esses cayuses. Estou encharcado de suor sob esse sol forte e...
   - A quem diabos voc est chamando de cayuse? - Billy Jack o interpelou, rspido.
   - Voc, rapaz. - Logan sorriu, a mo apoiada de leve sobre o coldre. Cayuse designava um cavalo selvagem, nativo da regio. Pequeno e irritadio, no era nada 
confivel. Alm de imprevisvel. Uma descrio que cabia perfeitamente em Billy Jack Mulero e Zach Romal.
   Zach atirou a cabea para trs e riu, cortando o ar com o chicote.
   - Lucky est certo. Estamos perdendo tempo.
   Monte fitou o homem a quem conhecia como Lucky.
   - Alguma coisa o est incomodando?
   - Pode apostar que sim. Sinto problemas se aproximando a passos largos. J temos o que queramos, no ? O que estamos esperando? - Apesar de saber que no devia 
pressionar Monte, Logan insistiu. O instinto lhe dizia que era hora de sumir dali.
   Num movimento sbito, um dos guardas se jogou sobre a bolia da carroa. Tallyman o fuzilou sem que o pobre tivesse chance de apanhar o rifle escondido sob o 
assento.
   A viso do corpo do companheiro, inerte, libertou os outros do torpor causado pelo medo terrvel. Urrando de dio, os quatro guardas restantes se lanaram sobre 
Billy Jack. Ento o inferno desabou. Antes que Monte pudesse gritar para que debandassem, mais um dos guardas foi morto. Durante o breve conflito, Logan esteve do 
lado oposto de Blackleg, que atirava a esmo, levado pela total selvageria.
   Uma dor intensa no ombro o fez vacilar, como se o estivessem perfurando com ferro em brasa. Ele agarrou a crina do cavalo com uma das mos, para manter o equilbrio, 
e se lanou numa correria desabalada, atravessando o leito seco do riacho sem nada enxergar.
   
   - Voc acha que ele est morto, Kenny?
   - No sei. Aqueles homens levaram suas botas e armas. Se estiver morto, no vai precisar dessas coisas. - Levaram o cavalo tambm.
   -  - A voz de Kenny Styles, to mais vivido do que seus treze anos, soou cheia de pesar. - O fato  que no podemos simplesmente deix-lo aqui. Os abutres viro. 
Vamos, Marty. Vamos enterr-lo como fizemos com nossos pais.
   - Estou apavorado. Apavorado de verdade, Kenny.
   - Eu j lhe disse. Gente morta no pode lhe fazer nenhum mal. Pare de chorar e me d sua mo. - No era fcil para Kenny tomar conta de um garotinho de apenas 
sete anos. No quando ele fora o caula de sua famlia. Mas agora tinham apenas um ao outro e nunca iria admitir que ficar de mos dadas com Marty o forava a colocar 
de lado os prprios medos.
   Saindo de trs das pedras, onde haviam se escondido to logo ouviram o rudo de cavalos se aproximando, Kenny manteve o rifle firme numa das mos e o primo junto 
de si. H quatro meses viviam completamente ss.
   Ainda mantendo uma certa distncia, observaram o corpo inerte do desconhecido, a quem os companheiros tinham roubado antes de partir.
   - Ele  grande demais, Kenny. Vamos ter que cavar e cavar a noite toda para conseguir enterr-lo.
   - A terra  macia o suficiente. No vai levar muito tempo. Podemos cavar ao redor do corpo. Assim no teremos que mov-lo.
   - Kenny?
   - O que foi?
   - Ele parece perigoso... - O garotinho deu um passo  frente e se inclinou para enxergar melhor. - Gente morta sangra?
   - Como  que eu vou saber? - Usando a coronha do rifle como p, Kenny entregava-se  rdua tarefa que se impusera.
   - Voc acha que ele tem dinheiro?
   - No sei. E no me importo. No temos uso para dinheiro. No h nada o que comprar por aqui. Pare com essas tolices e venha me ajudar, Marty.
   - Eu estava s perguntando. Voc  que est nervoso. E temos uso para o dinheiro sim. - O menino endireitou os ombros e mordeu os lbios. - Podemos d-lo para 
aquela viva.
   - Nunca a prejudicamos, garoto. Sempre deixamos algo em troca do que tiramos. Na semana passada foi um peixe fresco, para compensar a galinha que voc estava 
louco para comer. Agora pare de reclamar e me ajude a cavar o buraco.
   A nica maneira de Marty cavar era ajoelhando-se, o que o colocaria muito perto do morto. Perto demais. S de pensar nessa proximidade sentia o estmago queimar. 
No queria passar mal ali. Ainda lembrava-se da ltima vez em que vomitara. Kenny ficara louco de raiva por ter sujado as roupas.
   - Voc no vai vomitar de novo, no ?
   - Como  que voc sempre sabe?
   Suspirando, Kenny interrompeu o trabalho por alguns instantes, os olhos escuros cansados alm de seus anos.
   - Voc fica plido e comea a suar. Daqui posso ver como est tremendo. Mas eu no estou com medo. E voc quer ser como eu, no ? - Notando o garotinho concordar 
com um aceno de cabea, insistiu: - Ento fique calmo e comece a trabalhar.
   Assobiando, Kenny retomou o trabalho, pondo-se a cavar perto dos ps do homem, a coronha do rifle se movendo cada vez mais rpido. E quase desmaiou de susto quando 
um dos ps do morto se mexeu. Imediatamente sentiu o corao disparar e o corpo se ensopar de suor. Vrios segundos se passaram antes de se convencer de que deveria 
ter atingido o p com o rifle.
   Abalado, Kenny inspirou fundo, sabendo que no podia fraquejar, que devia ser forte. Simplesmente no tinha o direito de fugir correndo dali, como qualquer criana 
de sua idade. Era em momentos como esses que mais se ressentia da obrigao de cuidar de Marty. Se estivesse sozinho, seria fcil desaparecer e fingir que jamais 
havia visto um cadver antes.
   Mas no estava s. No fugiria, deixando Marty entregue  prpria sorte.
   - Ken-Kenny?
   - Que foi agora?
   Porm o menino parecia incapaz de falar. Apenas balanava a cabea para frente e para trs, tremendo descontroladamente.
   Relutante, Kenny olhou na direo para onde o primo apontava. Foi o bastante.
   - Caramba! Para trs, Marty! Afaste-se dele! O homem ainda est vivo!
   Dominado pelo pavor, o garotinho no conseguia mover um msculo.
   - O que... o que ns vamos fazer?
   - Oh, droga! No sei.
   - No po-podemos deix-lo mo-morrer!
   - Diabos! - Kenny praguejou baixinho. No tinha a mnima idia de como tratar de um ferimento no ombro, que sangrava de forma abundante. O homem iria precisar 
de um mdico. Iria precisar de cuidados e remdios. Iria precisar... A viva! Isso mesmo! tima idia! Entretanto no queria ficar ali sozinho enquanto Marty fosse 
busc-la. Tampouco seria sensato deixar o primo s, na companhia de um moribundo. Droga! O que fazer?
   - Ken-Kenny? Acho que ele est gemendo!
   - Se est voltando a si  porque sente dor.
   Num movimento instintivo, Kenny ergueu o rifle e se colocou em posio de atirar, esforando-se para manter as mos firmes. Oh, Deus, estava apavorado!
   - Oua com ateno, Marty. H apenas uma coisa a fazer. Vamos lev-lo para a casa da viva. No podemos abandon-lo aqui, pois acabar morrendo. Corra at a carroa 
e pegue a colcha de minha me.
   - Mas e se ela no o quiser?
   - Apenas um cabea-mole feito voc faria uma pergunta to boba. A viva  uma mulher, no ? Meu pai sempre dizia que tudo o que uma mulher deseja  ter um homem 
que tome conta dela. E a viva est sem homem h quase um ano. Pode acreditar em mim. Ela ficar to feliz que se esquecer de que a temos roubado. Vamos, Marty, 
mexa-se. V buscar a colcha e traga Pee Wee tambm.
   
   Jessie Winslow sabia ser, pura perda de tempo abrir a caixa de estanho que servia de cofre. Infelizmente o dinheiro no iria aparecer num passe de mgica. De 
qual quer maneira, ergueu a tampa assim mesmo.
   O sol forte da tarde se derramava sobre a mesa de madeira, tornando ainda mais avermelhadas suas mos calejadas pelo trabalho. Desanimada, colocou de lado a lista 
das provises essenciais de que necessitava para chegar ao fim do vero e manter a pequena fazenda.
   Dentro do cofre guardava a certido de casamento, a escritura da fazenda, que Harry fizera questo de lhe dar de presente, e uma bolsinha de veludo j bem gasta. 
A pulseira de prata com pingentes, herana da me, fora vendida, assim como os poucos objetos de valor que possura. Seu irmo, Greg, ficaria furioso quando soubesse 
que ela vendera a pulseira, alm dos dois cavalos que ele lhe dera.
   Ela olhou ao redor do pequeno chal. A cadeira de balano, junto  lareira, fora a nica coisa que trouxera consigo quando deixara a aldeia de Kripplebush. No 
que sentisse saudade dos arredores de Nova York. Nunca pudera chamar a casa da tia, onde vivera durante alguns anos, de lar. No tivera motivos para permanecer ali 
depois que a tia morrera e sua nica prima tampouco demonstrara vontade de que o fizesse. Greg e a esposa, Lvia, a receberam de braos abertos no novo territrio 
do Arizona, porm se sentira quase como uma intrusa, atrapalhando a vida do casal.
   Talvez por isso mesmo tivesse se casado com Harry. Lembrava-se de que Greg era contra o casamento, mas ela, levada pela teimosia e acreditando haver encontrado 
algum com quem partilhar os mesmos sonhos, no dera ouvidos aos argumentos do irmo. Entretanto no tardara a se desiludir. Harry logo mostrara no ter interesse 
algum em cuidar de uma fazenda e por mais que lhe implorasse para no deix-la s, tudo em que o marido conseguia pensar era na possibilidade de encontrar ouro nas 
montanhas Superstition. Sempre prometendo ser a ltima vez, Harry passava semanas inteiras nas montanhas, convencido de que um veio estava  sua espera.
   Talvez ele tivesse encontrado mesmo ouro. Jessie jamais saberia. Certo dia, o cavalo do marido o trouxera para casa, ardendo em febre. Ele morrera sem nem sequer 
perceber onde estava.
   Irritada, Jessie deu um basta nas lembranas e procurou se concentrar nos problemas atuais.
   Era uma mulher de trinta anos, dona de um pedao de terra e sem um centavo no banco. Vendera tudo o que possura de valor,  exceo do revlver de Harry.
   E da aliana de casamento.
   Num gesto cansado, ela ergueu a mo e contemplou o anel, fino e gasto, que pertencera  me de seu marido durante quase quarenta anos.
   Recordava-se de que se sentira feliz no dia em que aquela aliana fora colocada no seu dedo. Nunca mais a tirara. Porm, se fosse sincera consigo mesma, admitiria 
que ainda a usava no por uma questo de sentimento, e sim como uma maneira de se proteger de avanos indesejveis.
   Todo domingo, depois do culto religioso, do qual nunca participava, costumava receber a visita de David Trainor, vivo e nica pessoa em Apache Junction que acreditava 
no ter sido ela quem matara Harry. Os dois se sentavam num banco, do lado de fora do chal, e tomavam limonada, mantendo sempre uma distncia respeitosa. David 
jamais entrara em sua casa. Como se ela no possusse a fazenda mais isolada da regio e como se os boatos a seu respeito j no bastassem.
   No podia culpar David, contudo sua insistncia no que era apropriado, ou no, costumava irrit-la. Enquanto usasse a aliana, estava certa de que ele no teria 
coragem de cortej-la abertamente. Essas visitas duravam exatos sessenta minutos, durante os quais David consultava o relgio a intervalos regulares. No domingo 
anterior, antes de partir, comentara que ela completaria um ano de luto no final daquele ms.
   No tinha dvidas de que David a pediria em casamento ento. Tratava-se de um homem gentil e atencioso, porm no o amava. Ele havia tido dois filhos com a primeira 
esposa e mais dois com a segunda. No sentia o menor desejo de se tornar a terceira sra. Trainor.
   Todavia no podia negar que casar-se com David serviria para pr um fim nos boatos maldosos, segundo os quais matara Harry para ficar com a mina de ouro.
   Como gostaria de que Harry houvesse mesmo achado ouro. Muito ouro. E no apenas aquelas pepitas minsculas que usara para pagar o funeral do marido, o que dera 
incio ao falatrio.
   Se no estivesse numa situao to desesperadora, talvez pudesse rir ao pensar no que passaria pela cabea de Silas Beeson quando o procurava no armazm para 
trocar os ovos por alguma outra mercadoria. Ele sempre parecia estar  espera de ser pago com ouro.
   Desta vez no iria desapont-lo. Pedindo perdo a Deus, Jessie fechou os olhos e tirou a aliana do dedo.
   Se ia mesmo vend-la, deveria usar o dinheiro para comprar a passagem que a levaria de volta  casa do irmo. A melhor soluo para seus problemas.
   Mas parte de si se rebelava contra essa idia. No estava pronta para abrir mo da fazenda, para abandonar seus sonhos e o pouco que lhe pertencia de fato.
   O Senhor iria providenciar.
   - Deus h de me prover sempre - ela murmurou abrindo os olhos, lembrando-se dos pequenos presentes que costumava encontrar na soleira de sua porta. Verdade que 
tambm perdera uma ou duas galinhas, alm de vrios ovos. Porm seu benfeitor desconhecido a provera com peixe fresco, coelho e at carne de veado.
   O esprito forte, que desabrochara nessa terra rida, reviveu. De algum modo, encontraria uma soluo para seus problemas.
   De repente, um rudo estranho lhe chamou a ateno.
   Como se algum estivesse batendo numa das paredes do chal. Talvez fosse seu benfeitor, com mais um de seus presentes inesperados.
   Jessie levantou-se e caminhou at a porta, erguendo a pesada tranca. Trancar o chal se tornara um hbito depois que encontrara uma cobra venenosa dormindo sobre 
o tapete da lareira.
   Contudo, nada a preparara para tamanha surpresa.
   - Oh, meu Deus! - Ela inspirou fundo e levou a mo ao peito, os olhos percorrendo imediatamente os arredores. Se era essa a idia que seu benfeitor fazia de um 
presente, preferia no receb-lo.
   A ltima coisa de que precisava em sua vida era de um homem.
   Um homem ferido, ainda por cima!
   Escondido atrs de algumas pedras, a uma distncia segura, Kenny vibrava de satisfao.
   - Eu lhe disse, Marty. A viva ficou to emocionada, que est chorando de alegria. Agora ela arrumou um homem.
   
   
   CAPITULO II
   
   Logan no queria abrir os olhos. Abrir os olhos, mover-se, voltar  conscincia serviria apenas para escancarar a porta que conduzia  dor. Uma dor ainda mais 
intensa do que o latejar constante de cada parte do corpo. Acordar seria como pr sal na ferida.
   Porm havia certos odores que o atraam. Leves, quase imperceptveis. Perfume de flores frescas e lenis macios. Claro que devia estar delirando, pois fazia 
muito tempo que no experimentava os pequenos confortos a que estava acostumado.
   Tentado a descobrir se estava sonhando, ou no, ele abriu os olhos e tornou a fech-los imediatamente. Acertara quanto  dor. Assim, esperou alguns instantes 
antes de voltar a abri-los, desta vez com cautela. Nada de movimentos sbitos.
   Que diabos de lugar seria aquele? O instinto lhe dizia estar a salvo, pelo menos por enquanto. Fora colocado numa cama limpa, com um travesseiro sob a cabea 
dolorida.
   Com certeza no estava no paraso, ou no sentiria dor. Tampouco fora parar no inferno. Recordava-se de Santo haver jurado, entre risadas, que o diabo daria uma 
verdadeira fiesta para receb-lo, quando chegasse a hora. Assim, s podia concluir que continuava vivo. Vivo e sob os cuidados de algum.
   Mas, de quem?
   Uma pergunta que precisava ser respondida. Certamente no se encontrava na companhia do bando. Afinal, Monte era o nico que conhecia o significado da palavra 
limpeza.
   A dor e o desconforto eram tamanhos, que Logan fechou os olhos, obrigando-se a se acalmar at que parte da tenso o abandonasse. Lutar para responder as perguntas 
que o atordoavam no lhe faria o menor bem. Repouso, sim, iria ajud-lo.
   Entretanto, apesar dos esforos para relaxar, imagens do acontecido  beira do riacho seco voltavam-lhe  mente. Lembrava-se do tiro, depois, de uma pancada na 
cabea. Ento, a escurido.
   E essa mesma escurido ameaava engolf-lo novamente.
   No, no podia se entregar quele sono sem sonhos. No podia se permitir descansar, apesar da dor, apesar da necessidade de curar as feridas do corpo. Precisava 
descobrir onde estava e quem desempenhava o papel do Bom Samaritano.
   A cama macia e o perfume do quarto tinham um toque inegavelmente feminino. Mas no era possvel. Como uma mulher tivera condies de mov-lo?
   De repente, um cheiro gostoso de canja de galinha inundou o ar. Faminto, ele abriu os olhos devagar e virou a cabea para o lado, o movimento simples desencadeando 
uma verdadeira exploso no interior do crnio.
   Piscando vrias vezes, tentou erguer a mo e esfregar os olhos, para enxergar melhor. Em vo. Mover a cabea j fora esforo suficiente.
   Um raio de sol prendeu sua ateno. Porm era o raio de sol mais esquisito que jamais vira. Parecia se erguer do cho, em curvas suaves arredondadas.
   Nunca em sua vida, Logan se sentira assim. Vulnervel, desamparado. Por isso, a raiva era to grande.
   Amparando-se numa fora de vontade descomunal, procurou se sentar na cama. Atitude imprudente. A dor dilacerante na cabea se estendeu at o ombro e o quarto 
comeou a girar. Deixando escapar um gemido, tornou a apoiar a cabea no travesseiro.
   - Graas a Deus! Voc acordou!
   O raio de sol falava! Talvez tivesse mesmo morrido e ido para o cu. Agora esse anjo da misericrdia vinha confort-lo.
   Infelizmente, as palavras seguintes do anjo se encarregaram de destruir essa idia absurda.
   - Depressa, antes de desmaiar outra vez, diga-me quem voc  e de onde veio. Vou at a cidade passar um telegrama para que algum venha busc-lo.
   Diabos, nunca esperara ser bem recebido nos portes do paraso, mas tampouco imaginara ser posto para fora depois de ter chegado to longe. Que anjo aquela criatura 
estava se revelando...
   - Lo... - Ele parou, lutando contra as ondas de dor. No podia dizer a uma desconhecida quem era de fato. No podia confiar em ningum. Sentindo a boca seca, 
passou a lngua pelos lbios e fechou os lbios, vencido pela exausto.
   - Sede? Claro que sim. Fique bem a.
   Como se pudesse se mexer. Em que diabos se metera desta vez?
   Ela estava de volta em questo de segundos, trazendo um copo com gua. Depois de beber at se fartar, Logan recostou a cabea no travesseiro e fechou os olhos.
   - Melhor? - Jessie perguntou. - Pode falar agora?
   No tinha mais dvidas. No se tratava de um anjo, mas de uma megera. A imagem de raio de sol lhe ocorrera por causa dos cabelos. Partidos no meio e puxados para 
trs. Uma cascata castanha-aloirada. O vestido amarelo reforara a noo. Talvez, se a ignorasse, ela acabaria indo embora dali e dando-lhe sossego.
   - No desmaie outra vez - Jessie pediu, observando-o atentamente. A primeira impresso que tivera do desconhecido permanecia a mesma. Alto, musculoso e letal. 
Como um animal selvagem.
   - Com certeza voc  capaz de me dizer seu nome, no ? Ou de onde veio? O que lhe aconteceu? - Aborrecida porque no obtinha respostas, ela mordeu o lbio inferior, 
num gesto inconsciente.
   Devia controlar a vontade de estender a mo e arrumar a mecha de cabelos castanhos, quase negros, cada sobre a testa do estranho. Enquanto limpara a ferida, 
e ele estivera inconsciente, j o havia tocado e acariciado, embora timidamente. Fora difcil resistir ao apelo do corpo atltico e das feies viris, que sugeriam 
uma natureza implacvel.
   - No foi muito difcil adivinhar que voc esteve metido num tiroteio e num assalto. A questo  que ainda no consegui me decidir se voc foi roubado, ou se 
praticou o roubo. - As palavras haviam sido cuidadosamente escolhidas para provocar uma reao e vendo-o fit-la de frente soube que atingira o objetivo. 
   - Ah, parece que enfim consegui sua ateno!
   O homem deixou escapar um som estranho, misto de gemido e resmungo. Uma resposta sim, porm, no a que ela desejava ouvir.
   - Voc passou a noite inteira na minha cama - Jessie comentou, numa tentativa de estimular confidncias. - No quer saber quem sou? No vou machuc-lo. Fique 
tranqilo, voc no est correndo perigo.
   Observando-o atentamente, Jessie o viu relaxar as mos. Talvez o tivesse pressionado alm da conta, pensou. Uma pessoa debilitada pela perda de sangue no podia 
ter vontade de conversar. Entretanto, tudo o que queria era se livrar daquela presena indesejada.
   - Voc gostaria de tomar um pouco de canja de galinha? Est quase pronta.
   Para seu pesar, Logan descobriu, repentinamente, ter outra necessidade mais urgente. Devagar, abriu os olhos e fitou a mulher. Nem anjo, nem megera, concluiu 
afinal.
   Mas como abordar o assunto? No se tratava de algo sobre o qual se falasse com naturalidade. Que diabos! Se pudesse se levantar...
   - Alguma coisa errada? Voc est com sede outra, vez?
   Nenhuma resposta. Jessie mordeu os lbios, pensativa.
   - Precisamos descobrir um modo de voc se comunicar comigo, j que no pode falar. Ou no quer - acrescentou, envolvendo-o num olhar cheio de suspeita. 
   - Talvez pudssemos tentar dessa maneira... Abrir os olhos significa "sim", fech-los "no". Acha que ser capaz?
   Logan no fechou os olhos. A dor lacinante na cabea melhorara ligeiramente, porm o ombro continuava em fogo. Sua boa samaritana era bastante alta para uma mulher, 
o rosto dotado de uma beleza comum, sem nada de extraordinrio, as formas do corpo exuberantes.
   - Voc tem um vasilhame qualquer?
   A voz baixa e rouca pegou-a de surpresa.
   - Ah, ento voc pode falar. - Jessie, que se debruara sobre o desconhecido para ajeitar o travesseiro pela ensima vez, afastou-se. - Bem, claro que tenho um 
vasilhame. Eu no lhe disse que estava cozinhando?
   - Que esteja vazio.
   - Vazio - ela repetiu, o olhar se fixando na altura das coxas masculinas. Engolindo em seco, abaixou-se depressa e retirou o urinol de sob a cama. Ento, saiu 
correndo.
   - Volte aqui! - Agora no tinha dvidas. Estava nas mos de uma megera, determinada a tortur-lo. Como diabos iria usar o urinol sem ajuda?
   Jessie correu sem parar at o curral, o embarao inicial dando lugar a um profundo sentimento de culpa. No deveria ter fugido como uma virgem de dezesseis anos, 
envergonhada diante dos fatos simples da vida. O homem estava ferido. Oh, Deus, como pudera ser to insensvel?
   Ela se debruou sobre a cerca e escondeu o rosto nas mos. No, no era uma mulher cruel. Admitia que agira mal ao deix-lo sozinho. Se tivesse um pingo de coragem, 
marcharia de volta para o chal e enfrentaria seu hspede indesejado. Deveria se desculpar, alm de tentar achar uma explicao razovel para sua atitude. No agira 
daquela maneira movida apenas pelo receio de estar metida numa situao imprpria.
   Ao sentir focinho de sua gua toc-la de leve no brao, virou-se para acarici-la.
   - Oh, Adorabelle, que confuso! Agora serei obrigada a voltar para casa e encar-lo.
   O velho animal relinchou, como se confirmasse os temores da dona.
   - Mas essa  minha casa. No tenho nada do que me desculpar. Sou uma mulher independente e j no preciso dar satisfaes dos meus atos a ningum.
   Jessie continuou repetindo aquelas palavras, como se fossem uma ladainha, at entrar no quarto.
   Encontr-lo cado de bruos no cho aumentou seu remorso.
   Imediatamente correu para junto dele e tomou o rosto plido nas mos, implorando para que o estranho dissesse alguma coisa.
   Ele suava frio, as feies msculas contradas. A culpa se tornou ainda maior.
   - Desculpe-me. Por favor, desculpe-me. Vou ajud-lo a voltar para a cama.
    exceo do curativo no ombro, o peito do desconhecido estava inteiramente nu e Jessie sabia no ter outra alternativa a no ser tocar a pele bronzeada para 
ajud-lo a se levantar.
   - Seja forte - ela murmurou, sem saber a quem tentava acalmar.
   Por um momento, Logan pensou fingir ter desmaiado outra vez. Porm, o tom arrependido da mulher, o toque suave das mos e o fato de no ser capaz de se mover 
sozinho, foraram-no a abrir os olhos.
   - Estou vivo. Fui tocado e senti...
   - Senhor! - Jessie retirou a mo imediatamente. Logan a ignorou, mesmo tendo percebido que suas palavras haviam sido mal interpretadas. 
   - Ento voc  uma daquelas. 
   - Uma daquelas?
   - Sem muita experincia com homens.
   - Se por acaso est insinuando que sou uma solteirona mal-humorada, considere-se enganado. Sou uma senhora. - Jessie colocou a mo esquerda bem diante do rosto 
de Logan. - V? Esta aliana  o smbolo de que um homem encontrou valor suficiente em mim para querer se casar. E j que voc se encontra numa posio delicada, 
em que depende de minha boa vontade,  melhor ter cuidado com o que diz.
   - Certo, senhora. Seu marido... ah.., est por perto?
   - A resposta  bvia. No. A propsito, ter esse tipo de conversa no cho  ridculo. Hora de se levantar.
   Apesar da lngua afiada, as mos transpiravam gentileza ao ampar-lo pelos braos. Com dificuldade, Logan conseguiu se apoiar nos joelhos. Certamente. ela compreendia 
o quanto aquele simples esforo lhe custava, porque no fez meno de apress-lo, mas esperou at que se sentisse firme o suficiente para ficar de p, embora continuasse 
sustentando-o. Quando,enfim, Logan voltou a ser acomodado na cama, ambos ofegavam.
   Jessie arqueou os ombros e massageou as costas, sentindo os msculos se contrarem.
   - Conseguimos! - exclamou, pensando que, apesar da aparncia doente, o desconhecido era bem pesado.
   Sentindo-se como um peixe que ficara fora d'gua durante vrios minutos, Logan conseguiu apenas mover um dedo.
   Ao erguer as mos para ajeitar os cabelos desalinhados, Jessie notou manchas midas sob as axilas. Mortificada, embora no entendesse bem por qu, uma vez que 
o estranho estava de olhos fechados, ela abaixou os braos e falou a primeira coisa que lhe veio  mente.
   - Graas a Deus a ferida no recomeou a sangrar.  verdade que pus bastante ungento de piche e...
   - Piche? Voc colocou piche em mim? - Longan cerrou os dentes com fora, ainda sem abrir os olhos. - Lady, no sou nenhuma maldita rvore a ponto de receber enxerto. 
Sou um maldito homem. - Ser que a mulher era cega para no ver a diferena?
   - Voc, com certeza,  um maldito homem. Posso ver perfeitamente que se trata de um espcime teimoso, que no saberia reconhecer o que  bom para si mesmo nem 
se sentasse em cima e fosse mordido na... na... bem, em algum lugar! Alm de macho, est ferido. Odeio ser obrigada a lembr-lo, mas para um homem que depende dos 
meus cuidados, voc  muito apressado ao tirar concluses.  bvio para mim, como uma mulher, que voc, sendo um maldito homem, palavras suas, no minhas, no conheceria 
os muitos usos para o piche.
   Oh, Deus! Aquela criatura tinha gosto por palavras cidas. Pelos cus! Piche? De onde diabos ela surgira? Provavelmente acabaria morrendo quando deveria estar 
sendo tratado.
   - Depois que consegui arrastar seu corpo embrulhado na colcha...
   - O qu? - Logan arregalou os olhos. Apesar de seu estado vulnervel, foi tomado pela raiva e frustrao.
   - Eu... disse - Jessie fez questo de repetir vagarosamente -, que precisei arrastar seu corpo embrulhado numa colcha.
   - J ouvi essa parte, lady. - Maldio! Lembrava-se da pancada na cabea. Lembrava-se de ter recobrado a conscincia sob um sol escaldante. Mas, estava certo 
de que ningum o tinha coberto com uma colcha.
   Tratava-se de um ato de bondade. E bondade era uma palavra desconhecida para os bandidos com quem cavalgara. Bastava pensar em como o tinham abandonado ao ser 
ferido.
   Ou ser que no o tinham ferido propositadamente? Haveriam, de alguma maneira, descoberto sua verdadeira identidade?
   No. No era possvel. Se fosse o caso, se soubessem quem ele era de fato, o teriam matado de uma vez e no apenas o largado no meio do nada para morrer aos poucos.
   - Devo interpretar seu silncio como um pedido para que eu continue? - Jessie indagou impaciente, batendo os ps no cho.
   - Sim. V em frente, lady, e me conte tudo.
   Ela olhou para os cus, como se pedisse ajuda, e suspirou fundo. Uma pessoa no muito gentil, essa que cruzara seu caminho. Mas imediatamente arrependeu-se do 
pensamento pouco caridoso. Pondo-se no lugar do desconhecido, podia imaginar o quanto aquela situao toda causava ansiedade. Sem dvida tamanho mau humor devia 
ser fruto dos ferimentos e da confuso mental em que o pobre coitado se encontrava, sem ter idia de como fora parar ali.
   Como se lesse seus pensamentos, Logan perguntou:
   - Foi seu marido quem me achou?
   - No. - Uma resposta que deixava muito a desejar. Jessie estudou o teto, as paredes de madeira e at o assoalho de tbuas corridas. Ento fixou o olhar sobre 
a penteadeira, tendo o cuidado de evitar o espelho.
   Nesses poucos minutos, descobriu que seu hspede era at bastante paciente. Ele apenas aguardou.  verdade que no deixou de fit-la nem um segundo sequer, porm 
no disse uma palavra.
   Melhor medir as palavras antes de responder detalhadamente, decidiu. Mostrar a aliana de casada fora uma maneira de se proteger e tambm, admitia, de pura vaidade 
feminina. A pouca vaidade que lhe sobrara depois dos desencantos do passado. Sabia ser uma mulher de aparncia comum, sem nada de especial. Sabia tambm que suas 
formas exuberantes no correspondiam ao padro de magreza excessiva, ditado pela moda atual. Lembrava-se de que os poucos homens que a tinham cortejado, quando ainda 
morava com a tia, no se mostravam muito inclinados a elogi-la, pelo contrrio.
   Num gesto inconsciente, Jessie ergueu o queixo, como se desafiasse a tudo e a todos. No era obrigada a tolerar nada de ningum. Muito menos desse homem.
   - Ento - Logan falou, quando os olhares de ambos voltaram a se encontrar -, foi voc quem me encontrou, lady?
   - Meu nome  sra. Winslow. E j lhe disse que o achei na soleira de minha porta.
   - Ainda  um pouco cedo para o Natal:
   - Esteja certo de que no o considero um presente, senhor.
   Jessie resistiu  tentao de explicar sobre seu benfeitor annimo, mas acabou se calando. Embora o estranho no carregasse nenhuma arma consigo, sem dvida tratava-se 
de um homem de temperamento forte, algum acostumado a dar ordens. A sensatez a aconselhava a no entrar em maiores detalhes.
   Logan, que continuava a fit-la, ia ficando cada vez mais fascinado pela maneira como ela mordiscava o lbio inferior, a pele sensvel presa entre dentes pequenos 
e brancos. A sra. Winslow no era to calma quanto queria se fazer passar. Todavia, na sua posio delicada, de hspede indesejvel, no podia pression-la, exigindo 
respostas e explicaes, ou acabaria sendo posto dali para fora.
   - Ento, ah, senhora...
   - Sim?
   - Diga-me o que seu marido pensa de minha permanncia aqui.
   Por um longo instante, Jessie ficou em silncio. A vida inteira odiara mentiras e pessoas capazes de diz-las. Harry havia sido um mentiroso contumaz. Sempre 
prometendo que aquela seria a ltima vez em que gastaria dinheiro comprando mapas que se revelavam falsos. Prometendo que seria a ltima vez em que iria garimpar. 
Que sempre estaria ao lado dela para proteg-la. R! Os homens e suas mentiras!
   - Teremos que esperar para descobrir o que meu marido pensa - ela respondeu com voz insegura, pois no estava acostumada a mentir.
   Apesar de se sentir desconfortvel com sua omisso sobre a prpria identidade, ainda assim Logan no podia suportar que algum lhe mentisse.
   - Oh, lady, voc  boa nisso, mas no boa o suficiente. Teremos que esperar para descobrir o que seu marido pensa? Pois h tempos um homem no pe os ps aqui 
dentro.
   Se sua cabea no doesse tanto, Logan teria rido, vendo-a perder a fala.
   - Peguei voc, lady!
   
   
   CAPTULO III
   
   Jessie revirou-se na cama improvisada pela terceira vez. As colchas grossas, dobradas ao meio, no eram suficientes para proteg-la da aspereza do cho. Ainda 
fumegava de dio por no ter sabido lidar com a situao. Passara a falar somente quando necessrio, embora esse silncio exagerado no se revelasse eficaz. Recusara-se 
a admitir a verdade. No que isso parecesse ter importncia aos olhos de seu hspede.
   O homem a intimidava.
   Fora ridculo consider-lo indefeso, apesar de ferido. O fato  que detestava se sentir intimidada. Toda sua vida estivera sob a influncia de pessoas dominadoras. 
Agora que estava livre, ou estivera at o estranho aparecer, no aceitaria ser subjugada novamente.
   Odiava que um desconhecido lhe houvesse mostrado o quanto se enganara.
   Ele lhe dissera chamar-se Logan.
   Logo depois de ter lhe agradecido pela canja, pelos cuidados recebidos e por ela lhe ter cedido a cama.
   At parecera sincero.
   No, nada de amolecer, Jessie.
   No estou amolecendo, apenas fazendo uma observao, pensou, procurando se justificar. O estranho tinha um sorriso simptico, que iluminava as feies viris. 
Impossvel negar que se tratava de um tipo bonito, atraente...
   Era melhor dormir. Se fosse capaz.
   
   Como poderia um homem conseguir dormir com algum se remexendo no cho, na sala ao lado, a cada trinta segundos? Esse no era o nico motivo que mantinha Logan 
acordado, mas preferia se concentrar nos rudos ao redor do que na dor terrvel no ombro.
   Sua samaritana afirmara no haver nenhuma bala alojada ali. Dissera tambm que a ferida sangrara profusamente. At lhe mostrara a camisa ensangentada, que fizera 
questo de lavar e costurar. Ento ela se recolhera num silncio acintoso, quando fora pega mentindo sobre a existncia do marido.
   Ainda no compreendera por que continuava pensando na sra. Winslow, quando tinha assuntos mais urgentes necessitando de sua ateno.
   Havia algo diferente na maneira como ela enfrentava seu olhar, no modo como erguia o queixo, desafiadora.
   No lhe faltava vigor, vivacidade.
   Vigor era excelente qualidade... num cavalo. Sempre apreciara mulheres dceis, acomodadas e bem magras. Novamente sua anfitri fugia  regra. Alm de ter uma 
lngua afiada, o corpo de curvas exuberantes fugia aos padres atuais.
   Pare de pensar no corpo dela.
   Imagine o que aquela mulher de temperamento to rgido no diria se um homem se atrevesse a tomar certas liberdades.
   Ser que existira mesmo um sr. Winslow? Lembrava-se de como ela reagira quando confrontada com a verdade. Simplesmente ficara de boca aberta. Alis, uma boca 
carnuda, deliciosa, feita para sorrir. Que pensamento absurdo!
   Pelo que conseguira ver do chal, chegara facilmente  concluso de que no havia um homem morando ali h anos, se  que algum dia houvera. No existia um item 
sequer na casa, fosse de decorao, ou pea de vesturio, que lembrasse uma presena masculina.
   Pensativo, Logan passou a mo pelo rosto barbado. Sentia-se mais forte, depois dos dois pratos de canja.
   - Senhor?
   A voz dela, vinda de dentro da escurido, o surpreendeu.
   - J lhe disse para me chamar de Logan.
   - Logan, ento. Se no consegue dormir, posso lhe preparar uma excelente poo para dor de cabea.
   - Eu no percebi estar fazendo tanto barulho a ponto de acord-la.
   - Oh, e no me acordou! Estive pensando...
   Ele no gostou do tom da ltima frase.
   Jessie ignorou o silncio continuado e foi em frente.
   - Voc nunca me disse o que estava fazendo nessa regio. Nunca explicou como levou o tiro. No acha que me deve alguns esclarecimentos?
   - No tenho muita certeza de onde estou. 
   - Fique calmo e pense numa sada. Depressa.
   - Estamos nos arredores de Apache Junction.
   Ao norte da mina. Logan no se recordava de os bandidos terem ido to longe assim antes. Talvez em busca de um novo esconderijo? Ou, finalmente, chamados para 
um encontro com o homem por trs de todos os assaltos, com o verdadeiro chefe? Maldio! Ser obrigado a ficar ali deitado, feito um beb indefeso, enquanto suas 
perguntas precisavam de respostas.
   De repente, o ar tornou-se carregado de tenso.
   - Alguma coisa errada? - ele perguntou, desejando ter uma arma.
   - Voc no ouviu? 
   - O qu?
   - Os rudos l fora. Aposto que o problema  no galinheiro outra vez.
   Jessie caminhou at a porta, j segurando uma velha arma nas mos.
   - Voc vai sair?
   - No vejo ningum mais por aqui disposto a proteger minha propriedade. E preciso das galinhas. 
   - Mas...
   Porm Jessie no lhe deu ouvidos. Simplesmente abriu a porta do chal e saiu para dentro da noite.
   - Maldio! Maldio! - No conseguia parar de pensar em quem poderia estar l fora. No havia tempo a perder. Era bem possvel que Monte Wheeler houvesse voltado 
para se certificar de sua morte.
   E aquela mulher maluca sara. Sozinha.
   Cerrando os dentes, Logan levantou-se devagar e caminhou at a porta, lutando contra a dor excruciante. Porm, antes que tivesse chance de abri-la, um tiro ecoou 
no ar.
   - Maldita seja! Ela ainda vai acabar sendo morta!
   De repente, a porta foi aberta num arranco e Jessie entrou correndo. Apenas para tropear em Logan.
   Os dois caram no cho nos braos um do outro. Por um instante, Logan perdeu a respirao, a cabea a ponto de explodir. Ento, desfiou uma dezena de improprios.
   - Oh, desculpe-me. Eu no queria... - Jessie jogou a arma para o lado, o barulho estridente rompendo o silncio repentino. - Aqui, deixe-me ajud-lo.
   Na tentativa desajeitada de se mover, ela apenas tor nou mais ntima a posio em que se encontravam, as pernas coladas s do estranho, o rosto pousado sobre 
o peito forte. Oh, talvez seu peso o estivesse machucando, pressionando o ombro ferido. Com redobrado cuidado, ergueu a cabea e o trax.
   - Graas a Deus! Voc... estava me sufocando.
   Talvez ele estivesse se sentindo mais  vontade, contudo a posio de ambos, se antes parecera imprpria, agora se tornara indecente.
   - Oua, lady, voc precisa se mexer.
   - E eu no sei?! Vou me virar para a direita enquanto voc vai para a esquerda. Certo?
   - Sim.
   Jessie deslizou o trax para a direita. E se sentiu gelar. Alguma coisa muito quente havia tocado seu seio, atravs da camisola. Alguma coisa macia demais para 
ser o nariz do estranho. Ento... s podia ser a boca.
   - Cerejas maduras - Logan murmurou.
   - O qu?
   - Comece a se mexer, lady.
   - Sim.  o que estou fazendo. - Jessie moveu-se depressa, o corao batendo descompassado. Haviam sido os lbios dele, sim. Por um instante, desejou estender 
a mo e tocar onde havia sido beijada. Beijada? Devia estar imaginando coisas.
   Oh, no, no estava no! Cerejas maduras, pois sim!
   - No que voc atirou?
   - Atirei na direo do galinheiro. - Se ele a tivesse mesmo beijado...
   - Isso no faz sentido. - Logan sabia que no devia ter se aproveitado da situao. No, no se aproveitara. E que o mamilo estivera to perto. Jessie percebera 
o que acontecera, ou no teria deixado escapar aquele som rouco, quase um gemido. Como se no pudesse acreditar no que ele havia feito.
   Ser que deveria dizer algo? Jessie balanou a cabea. No podia. Simplesmente no podia dizer uma palavra.
   - Voc est bem? No se machucou l fora, no ?
   - No. - Aquilo pelo menos era verdade. Estivera to furiosa, que mal sentira as pedras pontiagudas sob os ps descalos, ou o frio cortante. Um calor repentino 
a envolveu de alto a baixo. O desconhecido se importara o suficiente para perguntar. No se recordava de ningum,  exceo do irmo e da cunhada, demonstrar preocupao 
quanto  sua segurana.
   De alguma maneira, no se surpreendeu quando Logan tomou suas mos nas dele. Sentia-se mais calma agora, os pensamentos mais claros. Ambos continuavam deitados 
de costas no cho. Devia ser sua a iniciativa de se levantar, porm era to reconfortante estar ao lado de uma pessoa, depois de tantos anos de solido. At ento 
no se dera conta do quanto ansiava pela presena de algum.
   Enquanto isso, Logan travava uma batalha silenciosa. O corpo exausto exigia repouso, mas a mente insistia na necessidade de obter respostas.
   - Isso j aconteceu antes?
   - Algumas vezes. Tudo comeou poucos meses atrs. - Havia uma outra coisa de que devia se lembrar, porm no conseguia focalizar o pensamento.
   A tenso se esvaiu como por encanto. Ento no era Monte, ou qualquer um dos outros, que voltara  sua procura. Logan desejou ter foras o bastante para se mover. 
O cho era duro e o ombro doa terrivelmente. A porta continuava aberta. E no podia se esquecer da presso daquele corpo sobre o seu...
   A escurido e o silncio da noite criavam um clima de certa intimidade, levando Jessie a fazer confisses.
   - Das outras vezes, no fiquei assustada. Mas esta noite, juro que ouvi alguma coisa rosnar para mim. Isso nunca aconteceu antes.
   - Rosnar? - Havia preocupao em sua voz.
   - Bem, no tenho certeza absoluta. Aconteceu to depressa. Quando ouo as galinhas cacarejarem, em geral vou l fora e dou um tiro para o ar.  o bastante para 
espantar quem estiver por perto. Galinhas assustadas significam falta de ovos no dia seguinte. S espero que outra galinha no tenha sumido.
   - Se voc ainda est preocupada, posso dar uma olhada nos arredores. - Logan sabia que seu oferecimento era ridculo. Se mal tinha condies de ficar de p, como 
agentaria vistoriar as cercanias?
   Jessie partilhava os mesmos pensamentos. Mas, sabiamente, guardou suas concluses para si. No havia por que apontar o bvio.
   - Acho que o melhor lugar para voc agora  a cama. Seja l o que for que tenha perturbado as galinhas, j se foi, ou estaramos ouvindo o galo.
   - Sabe, no me sinto confortvel com a idia de voc dormir no cho. Deite-se na cama e eu me ajeito no...
   - Voc no pode. Isto , no vou permitir que se arrisque a pegar um resfriado. Assim enfraquecido, acabar tendo febre.
   Pesarosa, Jessie se desvencilhou das mos que a prendiam e se levantou, rezando para que a viso noturna de Logan no fosse muito boa. Tolice se preocupar com 
isso agora, mas sua camisola j estava gasta de tanto ser lavada e sentia-se exposta. Porm no pde se furtar  obrigao de ajud-lo a se erguer.
   Logan fitou a mo estendida durante alguns segundos, desejando recusar. Jamais precisara do auxlio de mulher alguma para se levantar, entretanto recusar seria 
abusar de sua condio fsica j to debilitada.
   Ele inspirou fundo e se preparou para absorver a dor. Segurando a mo feminina, ergueu-se.
   Jessie teve que ampar-lo para que no casse, tomado por uma sbita vertigem. Enlaando-o pela cintura, levou-o at a cama.
   Apesar do ar frio da noite, o corpo masculino exudava calor. At ento, no pensara muito na sensao de tocar a pele bronzeada. Contudo, naquele momento, tudo 
em que conseguia pensar era na textura dos msculos rgidos e salientes. Com o corao aos pulos, procurou ignorar o fogo que a consumia  simples contemplao daquele 
peito nu. Harry nunca fora para a cama nu, ainda que parcialmente. Tampouco se lembrava de o marido, algum dia, t-la encorajado a toc-lo.
   O instinto lhe dizia que Logan no apenas encorajaria uma mulher a toc-lo, mas esperaria que fosse assim, nos momentos de intimidade.
   Jessie, no comece a alimentar pensamentos absurdos.
   Ele  o tipo de homem que no fixa razes e estar pronto para partir dentro de poucos dias.  melhor ter isso em mente.
   Ela afastou-se da cama e trancou a porta do chal, antes de voltar a deitar-se.
   - Voc  uma mulher corajosa, sra. Winslow - Logan falou depois de alguns minutos de silncio. 
   - Acho que, no final das contas, tive sorte.
   O ltimo comentrio do estranho no fazia o menor sentido. Assim, decidiu ignor-lo.
   - Boa noite, Logan. E meu nome  Jessie. De algum modo, sra. Winslow soa muito formal agora.
   - Jessie, ento. - Ele sorriu para si mesmo. Jessie. O nome lhe caa bem. Incrvel que estivesse se entretendo com esse tipo de pensamento, quando a dor no ombro 
alcanara nveis insuportveis.
   No podia se esquecer de que seu trabalho ainda no chegara ao fim.
   Mas ela estremecera quando os corpos de ambos tinham se tocado.
   A idia o agradava imensamente.
   Sem que pudesse evitar, Logan experimentou uma pontada de desejo, embora soubesse no ter nenhum direito de se sentir assim. Sua permanncia ali era transitria, 
alm de estar extremamente enfraquecido, mal se agentando de p. Se fosse comear qualquer coisa, Jessie seria obrigada a ajud-lo a cada passo.
   Apesar de a possibilidade ser bastante atraente, deveria partir to logo estivesse em condies de enfrentar a estrada.
   Tinha contas a acertar com Monte e o resto do bando. Alm de o haverem abandonado, roubaram seu cavalo, seu revlver e rifle, alm do cinturo com fivela de prata. 
E sempre fora muito apegado ao seu cavalo e s suas armas.
   Um homem gostava de ter por perto aquilo que lhe agradava.
   Como, por exemplo, a mulher desejada.
   De onde, diabos, aquele pensamento havia surgido? Ser possvel que ainda estivesse pensando em Jessie?
   No, precisava dar um basta nessas tolices. No permitiria que pensamentos ridculos interferissem no andamento dos planos traados.
   Uma tentativa de mudar de posio terminou em frustrao. Odiava dormir de costas. Seus irmos costumavam fazer brincadeiras sobre seu jeito de dormir. De bruos, 
braos e pernas espalhados, ocupando os quatro cantos da cama. Porm as brincadeiras tinham cessado depois de seu irmo mais novo, Ty, cansado das ordens de Conner, 
haver sado de casa, com rumo desconhecido.
   Esse sempre fora um ponto de atrito entre Logan e Conner. Seu irmo mais velho jamais se entregara s aventuras to comuns aos rapazes, nunca tendo acompanhado 
os dois irmos numa bebedeira de sbado  noite, por exemplo. Todavia Conner era firme como uma rocha e no se esquecia das promessas que lhe eram feitas.
   No tinha dvidas de que o irmo ficaria preocupadssimo se no entrasse em contato com ele logo. Conner tampouco ficaria satisfeito quando soubesse que havia 
levado um tiro e perdido seus pertences.
   Ainda podia ouvir os avisos do irmo no dia em que deixara a fazenda. "Consiga aquilo que voc vai atrs, mas no morra tentando."
   Bem, no acabara morrendo graas  Jessie Winslow. Entretanto, ainda no pusera as mos na informao que procurava.
   Mas, a ltima coisa que pretendia, era se dar por vencido. No iria voltar para casa com o rabo entre as pernas.
   Descobriria uma maneira. De algum modo, resolveria o enigma.
   
   - O que aconteceu, Kenny? Voc disse que ela ficaria feliz em ter um homem, no foi? Como , ento, que ela atirou em voc? Como?
   - L vem voc e suas perguntas outra vez. Ser possvel que no consegue parar de falar? - Kenny, mais assustado do que gostaria de admitir, esfregou o dedo 
inchado. Imaginara que a viva estaria to entretida cuidando do homem ferido, que teria tempo de roubar alguns ovos e talvez at uma galinha. Ela quase o matara 
de susto quando surgira no meio da noite, com aquela arma enorme, e atirara para o ar. Na sua aflio, ele acabara fechando a porta do galinheiro no prprio dedo, 
alm de ter deixado cair os dois ovos que conseguira apanhar.
   Subindo na carroa, que lhes servia de moradia, Kenny decidiu no contar a Marty sobre o homem que vira vagando pelos arredores do chal da viva. No valia a 
pena assust-lo. Tambm no queria ouvir mais perguntas para as quais no possua respostas.
   Talvez, Kenny pensou apagando a lanterna e se ajeitando para dormir, no houvessem deixado apenas um homem ferido na soleira da porta da viva. Talvez lhe tivessem 
levado um punhado de problemas.
   
   
   CAPTULO IV
   
   Logan, Jessie decidiu dois dias depois, devia levar uma vida aventureira. E perigosa tambm. Bastava se lembrar das pequenas cicatrizes que vira espalhadas pelo 
corpo atltico. Embora ainda no houvesse recuperado o uso completo do brao, o ferimento no ombro estava cicatrizando rapidamente. Terminando de trocar o curativo, 
logo cedo naquela manh, decidira que j no seria necessrio usar o ungento de piche. gua e sabo seriam suficientes para afastar o risco de infeco.
   Felizmente no ocorrera mais nenhuma tentativa de roubo no galinheiro, Jessie pensou enquanto alimentava as galinhas e recolhia os ovos. Tambm no conseguia 
parar de pensar no quo pouco sabia a respeito de Logan,  exceo de certos gostos pessoais.
   Ele no era exigente para comer. Sempre educado, fazia questo de elogiar as refeies e a maneira atenciosa como estava sendo tratado. Cumprimentos sinceros, 
disso no tinha dvidas. Algum lhe ensinara boas maneiras quando criana. Logan gostava de caf forte com muito acar e quando fora informado de que o acar acabara, 
desculpara-se pela indelicadeza.
   Tratava-se de um homem acostumado a fazer as coisas por si mesmo. Aceitar ajuda no desempenho de tarefas simples o incomodava. Ter descoberto que ele no esperava 
ser servido a fizera enxerg-lo sob uma nova luz. Seu irmo era o nico outro homem, com quem se relacionara, que no considerava as mulheres escravas.
   Jessie atirou mais um punhado de gros para as galinhas, certificou-se de que o porto estava bem trancado e caminhou para o celeiro, dizendo-se que essa curiosidade 
a respeito de Logan precisava ter fim.
   Deixando o balde com a rao no cho, ela separou uns poucos montes de feno para Adorabelle. J no podia mais adiar a ida  cidade para a venda da aliana. Tampouco 
podia adiar uma cavalgada at o vale para vistoriar seu pequeno rebanho. Anotando mentalmente as prioridades, dirigiu-se ao curral.
   A porta do chal estava aberta, porm no havia sinal de Logan. No dia anterior, levada por uma deciso momentnea, abrira o ba onde guardava uns poucos pertences 
de Harry. Agora Logan possua algumas camisas e calas para usar, alm de um par de botas apertadas. Infelizmente, nenhuma das peas lhe caa bem, considerando Harry 
ter sido mais baixo e mais pesado.
   A nica coisa que no tivera coragem de dar ao seu hspede fora a arma que pertencera ao marido. Algo parecia impedi-la.
   Adorabelle, impassvel, esperava a ateno da dona. Logan a chamou.
   - A gua est fervendo.
   - Estarei a num instante - Jessie respondeu. Como se esquecera de que prometera barbe-lo?
   Caminhando vagarosamente para casa, ela acrescentou "limpeza"  lista de caractersticas que o definiam.
   Sentado junto  mesa, diante de uma bacia de gua e tendo a navalha e a toalha  mo, Logan a aguardava. 
   -  muita gentileza sua se dar ao trabalho de me fazer esse favor, Jessie. Tentei me barbear sozinho, mas descobri que  uma tarefa para duas mos.
   - No me atrapalha em nada. Se fosse um transtorno, no teria me oferecido. 
   Oh, Deus, por favor, guie minha mo! No o deixe perceber que jamais barbeei um homem antes.
   O apito da chaleira a avisou de que j era tarde para arrependimentos. Que fosse o que Deus quisesse.
   Logan ansiava se ver livre da barba. Porm, bastou um olhar para o rosto de Jessie, para se esquecer de tudo.
   Quanto mais tempo passava ao lado daquela mulher, menos controle tinha sobre suas prprias reaes. Mesmo algo simples, como observ-la se mover ao redor da mesa, 
era suficiente para distra-lo do que quer que estivesse pensando, ou fazendo.
   E eram reaes espontneas, inexplicveis. Jessie no flertava com ele. s vezes se perguntava se ela sabia como faz-lo. Entretanto, a surpreendera observando-o 
algumas vezes, um brilho sensual, embora inconsciente, no olhar.
   Quando Jessie lhe dera os pertences do marido morto, deixara de questionar a existncia de um sr. Winslow. Porm, quanto mais tempo permaneciam juntos, mais se 
surpreendia com a dificuldade que uma mulher, que j fora casada, demonstrava para lidar com aquela intimidade forada. No fazia sentido.
   Lembrava-se de seus pais e de Santo e Sofia, empregados fiis da fazenda. Sempre percebera sussurros e olhares significativos trocados entre marido e mulher, 
segredos ntimos partilhados. No que esperasse Jessie dividir segredos, ou olhares especiais com ele. Mas ela dava a impresso de no saber como reagir a um simples 
cumprimento sobre uma refeio bem preparada, ou sobre as pequenas coisas que procurava fazer para deix-lo confortvel.
   Uma vez que nunca cortejara uma mulher, e tampouco pretendia comear agora, Logan sabia que o sensato seria manter a curiosidade sob controle. Dentro de uma semana, 
ou um pouco mais, estaria pronto para partir.
   Jessie, j percebera, no era uma mulher a quem se levava para a cama e depois abandonava.
   Alm de tudo, ela fizera questo de deixar entrever no estar  procura de outro marido, ou de um homem para um relacionamento fugaz.
   Se a urgncia de terminar o trabalho que comeara no fosse to intensa, aceitaria de bom grado o desafio personificado por Jessie.
   De repente, Logan notou que ela o observava, a toalha nas mos.
   - Est mesmo pronto, ou mudou de idia?
   - Estou pronto. - Ser que fora impresso sua, ou Jessie teria preferido que ele desistisse da empreitada? - Tem certeza de que sabe como barbear um homem?
   - Claro. Basta ensaboar a pele e usar a navalha muito cuidadosamente.
   Ao sentir as mos femininas lhe tocarem o rosto, Logan fechou os olhos. No gostava de imaginar quantas vezes Jessie devia ter tocado o marido dessa forma. Era 
uma sensao estranha. Por que diabos se importava? Seria diferente se ela fosse sua mulher...
   Ao v-lo de olhos fechados, Jessie soube que seu toque o agradava. De p atrs de Logan, tentava evitar que seus seios roassem as costas largas, porm no tardou 
a perceber o quanto aquela posio era desajeitada.
   - Voc no vai se mover, no ? - ela perguntou, apanhando a navalha. 
   Oh, Deus, por favor, mantenha minha mo firme!
   Fitando-a, Logan negou com um gesto de cabea.
   - Bom. Muito bom. Agora feche os olhos outra vez e deixe tudo comigo.
   Mentalmente, Jessie reviu os gestos feitos pelo irmo e por Harry, quando se barbeavam. Inspirando fundo, ps-se a trabalhar.
   Tocando-o bem de leve, raspou primeiro os plos da face esquerda, o leve tremor das mos traindo o nervosismo de que era vtima. Nunca imaginara um dia dividir 
essas pequenas intimidades com um homem. Um homem que mal conhecia por sinal.
   Erguendo o queixo de Logan, repetiu os movimentos ascendentes que se lembrava de ter visto o marido fazer, tendo o cuidado de retirar o excesso de sabo da lmina 
sempre que necessrio. Com o passar do tempo, foi se tornando mais e mais confiante. Cumprindo a palavra, Logan no se mexera. Entretanto era difcil ignorar a proximidade 
de seus corpos.
   - Preciso que mova a cabea um pouco para o lado, ou ser difcil barbear a regio do lbio superior. Isto , se voc no quiser manter o bigode.
   - Pode raspar tudo. - Logan abriu os olhos ao sentir que ela hesitava. - O que foi?
   - Sua posio no est correta. Talvez se ficasse de frente para mim...
   Jessie afastou-se no instante em que ele se virou para fit-la, as pernas abertas.
   - Melhor assim?
   Ela concordou com um aceno de cabea, apesar de achar que a situao piorara. Teria que ficar de p entre as pernas de Logan! Porm, se ele parecia no ver nada 
de errado com o fato, tampouco demonstraria o quanto aquilo a incomodava.
   No momento em que deu um passo  frente, Logan a segurou pelos quadris.
   - O que voc est fazendo?
   - Apenas mantendo-a firme, Jessie. Essa navalha  to afiada, que eu s perceberia haver sido cortado quando comeasse a sangrar.
   - Eu no o cortei!
   - No. Mas prefiro no correr riscos.
   - Se estava to preocupado com a possibilidade de ter a garganta cortada, por que sugeriu que eu o barbeasse? - A ironia das palavras era evidente e intencional.
   - Porque a barba coava e eu no podia resolver o problema sozinho.
   - Ento deixe-me terminar o. servio. - Jessie o segurou pelo queixo com uma das mos, a respirao alterada refletindo a tenso de que era vtima. Quando, enfim, 
deu o trabalho por encerrado, limpou a navalha na toalha vagarosamente, esforando-se para disfarar o embarao.
   A boca de Logan era firme e sensual. Gostaria de v-lo sorrir... Oh, Deus, que tolice era essa? Nunca fora o tipo de mulher capaz de reparar em bocas masculinas!
   - Esqueceu-se de barbear algum ponto?
   - O qu? - Os olhares de ambos se encontraram. Jessie teria pulado para trs se ele ainda no a segurasse pelos quadris.
   - Voc est olhando to fixamente para minha boca, que pensei ter ficado alguma rea sem barbear.
   - No. No, eu no estava olhando nada. - Porm ela no fez meno de se mover.
   Logan teve vontade de mergulhar naqueles olhos enormes e descobrir os segredos escondidos nas profundezas escuras.
   - Acho melhor voc me soltar. - Jessie fechou os olhos, isolando-se do mundo.
   - E se eu no quiser?
   - No creio que esteja falando srio.
   - Temos vivido juntos h quase uma semana... 
   - Quatro dias. Apenas quatro dias.
   - Certo. Quase uma semana. Voc no se sente nem um pouco curiosa em saber como seria me beijar? Jessie ficou rgida. Como Logan podia suspeitar que passava noites 
inteiras acordada, imaginando? Minta, minta desesperadamente, ela pensou aflita.
   Um silncio carregado de expectativas se estendeu durante vrios minutos. Ao v-la assim, to quieta, Logan perguntou-se se no deveria solt-la. Porm, gostaria 
de dizer-lhe que essa curiosidade o estava enlouquecendo. Mas Jessie no lhe dava chance. Permanecia imvel, ofegante e um pouco temerosa.
   - Eu no iria machuc-la. Nunca machuquei mulher alguma.
   A voz profunda foi um verdadeiro blsamo sobre seus nervos tensos. Numa reao instintiva, ela estendeu as mos e pousou-as de leve sobre os ombros fortes. Por 
que ele simplesmente no a beijava, se queria tanto faz-lo? Por que se dava ao trabalho de pedir? Porque assim voc se torna cmplice, uma voz interna sussurrou.
   E voc quer muito beij-lo, no  verdade, Jessie? Mal pode conter a nsia.
   Sim. Oh, Deus, sim!
   Entretanto, no era direito.
   - Jessie?
   Ela no o respondeu. No queria falar nada. Queria ficar de olhos fechados como uma covarde, ignorando o apelo das prprias sensaes. Mas seu corpo traioeiro 
a envolvia num calor intenso. O mesmo calor que comeara a sentir no momento em que esse estranho entrara em sua vida. O instinto lhe dizia que os lbios dele seriam 
deliciosamente gentis, se o permitisse beij-la.
   - Jessie, oua-me. - Logan queria muito que ela abrisse os olhos. Sua me sempre dissera que os olhos eram o espelho da alma. Todavia, no pretendia pression-la. 
- Corrija-me se eu estiver errado. Ao que me parece, voc no est mais de luto pela morte de seu marido, ou ainda lamentando profundamente a perda. No estou lhe 
pedindo que me fale sobre ele, ou sobre seu casamento. Porm creio ter o direito de saber se voc continua a am-lo.
   J no era possvel se esconder do mundo. Enfrentando o olhar penetrante de Logan, ela se armou de coragem.
   - Por que voc quer saber? No est me cortejando. No est me pedindo em casamento. Tudo o que voc queria era um beijo. Isso no lhe d nenhum direito de me 
fazer perguntas. - Desta vez, quando Jessie tentou se afastar, ele no a impediu. - Com licena, tenho o gado para cuidar.
   Apanhando o chapu de feltro, ela parou junto  porta. Sem se voltar para fit-lo, falou apenas:
   - J no estou de luto pela perda de Harry.
   Ainda chateado por no ter sabido como trat-la, Logan levou alguns instantes at entender o comentrio. Mas Jessie j havia sado.
   Poderia ter ido atrs dela. Porm o instinto o aconselhava a deix-la s por enquanto. No seria justo pression-la.
   Logan tampouco queria comear a se questionar sobre esse desejo insano de beij-la. Talvez estivesse entediado, sem ter o que fazer. No, isso no era-verdade. 
Bastava olhar ao redor do chal. Havia trabalho suficiente ali dentro para manter um homem ocupado durante meses.
   Depois de inspecionar a pequena despensa, Logan teve a confirmao daquilo que suspeitava. Jessie estava em dificuldades financeiras e, no momento, ele no tinha 
como ajud-la. Receb-lo em casa, aliment-lo, com certeza esgotara suas ltimas reservas.
   
   Empoleirados no alto de uma rvore, Kenny e Marty observaram Jessie se afastar, montada na velha gua.
   Quando ela se afastara o suficiente para no ouvi-los, Kenny fez sinal para que descessem.
   - Agora voc fique aqui de guarda, Marty.
   - Mas o homem continua dentro da casa. Ele pode atirar em voc, como a viva o fez.
   - Voc viu to bem quanto eu que ele no sai do chal. Desta vez vou conseguir pegar a galinha. Espere-me aqui. - Kenny caminhou na direo do celeiro e ento 
virou-se. - Se o homem sair, assobie como lhe ensinei, Ok?
   - Ok.
   Apesar de todas as suas palavras corajosas, Kenny aproximou-se do galinheiro com cautela. H semanas no chovia e suas botas afundavam na poeira espessa, deixando 
marcas fundas. Apreensivo, olhou na direo do chal, mas no havia ningum a vista.
   Ainda assim, aguardou. Sentia algo estranho no ar. Ele limpou o suor da testa com a mo e chegou mais perto do galinheiro. Ento tirou algumas minhocas do bolso 
e as atirou para o galo.
   Enquanto o galo, numa revoada de penas negras e verdes, avanava sobre as minhocas alegremente, Kenny correu para trs da pequena construo de madeira. H meses 
descobrira uma prancha solta e era por ali que costumava entrar, espremendo-se devagar.
   Quando estava para entrar no galinheiro, ouviu um barulho, como se fosse uma pedra batendo em outra. Era muita falta de sorte que Marty tivesse se esquecido de 
assobiar.
   Kenny virou-se lentamente, ento ficou imvel. Um cavaleiro parara a menos de dez passos, Com o sol logo atrs do homem, era impossvel lhe enxergar o rosto. 
Mas sem dvida era o homem mais corpulento que jamais vira.
   - Voc a, garoto. Seus pais esto em casa?
   Ele ficou em silncio. Sua boca e garganta estavam to secas que poderia cuspir p.
   - Alguma coisa errada com voc, garoto?
   Incapaz de falar, Kenny balanou a cabea, rezando para que o homem no chal no os visse. Mas se no dissesse nada, com certeza o cavaleiro desconhecido iria 
at a casa e faria perguntas a seu respeito. Logo algum viria e levaria Marty e ele embora dali. No tinha outra alternativa a no ser arriscar-se. Armando-se de 
coragem, saiu da sombra.
   - Meus pais no esto em casa agora. Eles... ah, foram at a cidade. Quer que eu d gua para seu cavalo, senhor?
   - Quero apenas uma pequena informao.
   Limpando as mos cobertas de suor na cala, Kenny perguntou-se por que Marty no o tinha avisado, conforme o combinado. Sorrindo para disfarar o nervosismo, 
aproximou-se do cavaleiro.
   - Farei o que for possvel para ajud-lo.
   - Estou procurando um homem, garoto.
   Num movimento inconsciente, Kenny pressionou os joelhos um de encontro ao outro. Tremia tanto, que se julgava a ponto de cair.
   - Meu pai...
   - No creio que seja seu pai. O nome do homem  Lucky. A ltima vez em que o vi estava quase morto, porm no o achei no lugar onde o deixei.
   - Oh, puxa!
   - Por acaso voc o viu, garoto?
   Ele negou com um gesto de cabea, os olhos fixos no estranho. Se Deus o ajudasse a escapar ileso daquela enrascada, jurava nunca mais roubar da viva!
   - No vi nenhum estranho por aqui, senhor. E minha me no gosta que eu converse com pessoas desconhecidas. Tenho tarefas a cumprir.
   Zach Romal aproximou-se ainda mais do menino.
   - Voc no mentiria para mim, no ?
   - No tenho motivos para mentir, senhor. Voc disse que ele estava quase morto. Talvez os abutres o tenham pego, ou um gato selvagem. Talvez... ele tenha ido 
para a cidade. Para Apache Junction.
   Tudo o que Kenny conseguia fazer era continuar olhando para aquele rosto sombrio. Sentia-se apavorado demais para agir de outra forma. Quando visse Marty, iria 
lhe dar uma boas palmadas por no t-lo avisado.
   Sem mais uma palavra, Zach pressionou o cavalo com as esporas e afastou-se a galope.
   Kenny lutou contra a urgncia de fugir dali correndo. Tinha a impresso de que suas pernas no seriam capazes de lev-lo muito longe. Tambm ofegava tanto que 
parecia j haver corrido dezenas de quilmetros. Seria impossvel saber quanto tempo permaneceu junto ao galinheiro, imvel, o sol escaldante queimando-lhe a pele. 
De repente, uma sensao estranha o fez se virar.
   Agora sim, entendia o que seu pai quisera dizer quando afirmara que algum pode ser pego entre a cruz e a espada.
    sua frente estava o homem de quem, com a ajuda de Marty, salvara a vida. O homem pelo qual o cavaleiro perguntara.
   
   
   CAPTULO V
   
   - Quem  voc, garoto?
   Lembrando-se ainda muito bem das surras que levara a me por mentir, Kenny deu um passo para trs. Apesar de a me estar morta, acreditava que seria punido de 
alguma forma por todas as mentiras que dissera at ento. No queria tornar as coisas piores para si mesmo, aumentando a cota de culpas.
   - Responda-me - Logan exigiu. - E voc quem anda roubando as galinhas e os ovos de Jessie?
   - No roubei nada. E um comrcio justo. Pergunte a ela. V perguntar  viva se no deixo sempre algo em troca.
   - Ns dois sabemos que ela no est em casa, garoto. Ouvi o que voc falou ao cavaleiro. Muito obrigado. Foi voc quem me encontrou e me trouxe para c? - Apesar 
da pergunta, Logan sabia que o menino no poderia ter empreendido aquela tarefa sozinho.
   - Talvez. - Kenny virou-se e ps-se a correr.
   - Espere! No fuja, menino. No vou machuc-lo. - Logan saiu correndo tambm, embora com dificuldade por causa da dor no ombro. Ainda no se recobrara do choque 
de olhar pela janela do chal e descobrir Zach. Por que diabos o bandido fora parar ali?
   Percebendo que o homem o seguia, Kenny correu com redobrado vigor, os olhos fixos na rvore onde deveria estar Marty. O problema  que no conseguia enxerg-lo.
   -Marty? Onde est voc? - ele indagou num sussurro furioso.
   - Aqui em cima.
   Sabendo que no haveria tempo de esperar o primo descer, Kenny no teve outra alternativa a no ser subir na rvore tambm, escondendo-se da melhor maneira possvel 
no meio da folhagem.
   - Por que voc no assobiou me avisando? Quase fui pego.
   - O homem no cavalo. Ele era um deles. Fiquei com medo.
   - Ok. Ok. Agora fique quieto. Quieto de verdade.
   Olhando por entre os galhos, Kenny notou que o estranho tinha parado. Imediatamente prendeu a respirao, temendo fazer qualquer barulho.
   Logan estudou os arredores com calma. Alm das pedras e arbustos, havia uma rvore alta, a copa frondosa podendo servir de esconderijo perfeito para um menino. 
No queria assustar a criana, tampouco podia deixar escapar a chance de obter algumas respostas. De uma coisa no tinha dvidas. Apesar da magreza excessiva, dos 
cabelos compridos e aparncia maltratada, o menino era inteligente e astuto.
   - Se estiver me ouvindo, garoto, quero lhe agradecer por ter salvo minha vida. Tambm ficaria grato se me avisasse, caso visse aquele homem pelas redondezas outra 
vez.
   Vrios segundos se passaram sem que Logan obtivesse resposta, ou escutasse algum som. Talvez devesse voltar para o chal. Sentia-se como se houvesse passado o 
dia inteiro tentando domar um touro bravio. Cada parte do corpo doa terrivelmente. E pensar que se imaginara pronto para partir. Gostasse ou no da idia, continuava 
preso ali.
   Quando j estava quase chegando em casa, uma idia assustadora lhe ocorreu. Jessie sara e Zach aparecera, como se fosse algo combinado. No, que absurdo... Mas 
ouvira conversas sobre um lugar nas montanhas, um lugar seguro, e isolado tambm, onde no se faziam perguntas aos homens que l se escondiam.
   Jessie envolvida com foras-da-lei? Se tivesse foras suficientes, daria boas risadas. Se sua vida no estivesse em jogo... se Zach no houvesse aparecido to 
subitamente... O que diabos estaria o bandido procurando? A menos que Jessie lhe mentira sobre t-lo encontrado na soleira da porta, apenas com a roupa do corpo. 
Ou quem sabe fora o garoto quem lhe roubara os pertences? Ficara sem o cavalo, o rifle e o revlver. At o cinturo com fivela de prata lhe fora tirado. Lamentava 
tremendamente a perda do cinturo. Mandara fazer um para dar de presente a Ty, no aniversrio do irmo. Gostara tanto, que resolvera encomendar mais dois. Um para 
si, outro para Conner.
   Com certeza o golpe que recebera na cabea lhe afetara as idias, ou no estaria to preocupado com um cinturo perdido, quando tantas coisas mais srias exigiam 
sua ateno.
   Mas se ocupar com esses detalhes o impediam de pensar em Jessie e em seus possveis envolvimentos.
   
   A viso da cerca, onde mantinha o gado, recentemente reforada com galhos novos a preocupou.
   Durante os ltimos meses no ficara assustada com o roubo de ovos, ou com a perda de dois cobertores que estendera no varal para secar, depois de lav-los. Apreciara 
o que recebera em troca, em geral coelhos e peixes, e julgara um comrcio justo.
   Porm, a cerca restaurada significava que algum descobrira o pequeno vale em sua propriedade. E a idia a enchia de angstia.
   Harry, tempos atrs, resolvera investir na criao de gado e comprara algumas cabeas. Entretanto no tardara a perder interesse na nova atividade, convencido 
de que seria necessrio esperar muito at obter lucro.
   Ela, contudo, descobrira ser extremamente prazeroso acompanhar o crescimento e a engorda das reses, vendo-as pastar sob o sol forte do vale,  beira do riacho. 
Como tratava-se de uma criao bem pequena e, o local onde a mantinha ficava quase escondido, imaginara que os animais estivessem seguros.
   Saber que algum os espreitara, que algum passara horas mexendo na cerca, a fazia sentir-se violada. Como se seu sonho pudesse ser esmagado num passe de mgica, 
como se seu futuro estivesse nas mos de terceiros.
   Ela tornou a contar as cabeas, certificando-se de que nenhuma rs fora roubada. Podia perder ovos e galinhas, mas no o sonho de ter um rebanho. Somente assim 
haveria chances de, um dia, ver esse pedao de cho transformado numa fazenda de verdade, ainda que pequenina. Se no acreditasse nessa possibilidade, seria obrigada 
a admitir derrota. Ento s lhe restaria vender tudo e resignar-se a morar com Greg e Lvia. No que os dois no fossem receb-la de braos abertos. A questo  
que ainda no se sentia pronta para desistir.
   Primeiro teria que parar de ser to ingnua. Bastava pensar em como aceitara Logan em sua casa e o permitira ficar sem obrig-lo a responder s suas perguntas. 
Continuava sem saber de onde o estranho viera e em que circunstncia fora baleado.
   Pessoas eram baleadas o tempo todo. No havia lei no territrio. A ltima vez em que David a visitara, ele deixara um exemplar do Arizona Star, de quatro meses 
atrs. Assaltos a bancos e a trens, ataque de Apaches, roubos de gado. A violncia parecia imperar.
   No tinha ningum a quem culpar a no ser a si mesma por no haver exigido explicaes de Logan. Precisava encarar os fatos: temia o que pudesse ouvir.
   No queria que Logan passasse a ter um significado especial em sua vida. No queria se importar com ningum. Mas estava s h tanto tempo, que seria mentira afirmar 
no sentir nada...
   Ser que Logan a considerava uma tola crdula? Talvez o fosse mesmo...
   E talvez seu benfeitor annimo tivesse feito mais do que reforar a cerca. Talvez, ao tentar proteger seu gado, tivesse baleado algum. Logan.
   Porm, se essa linha de raciocnio fosse verdadeira, ento por que Logan fora deixado na soleira de sua porta?
   - Por qu? - ela murmurou, olhando ao redor. - Quem  voc? Onde voc se esconde? E por qu, oh, por que voc me escolheu?
   Quando a gua a tocou de leve no brao, com o focinho, Jessie falou alto:
   - Se eu lhe fizesse essas perguntas, Adorabelle, as respostas seriam as mesmas. Ou seja, nada.
   Recordava-se das histrias que Harry costumava lhe contar, sobre os homens com quem ocasionalmente se encontrava, nas suas andanas em busca de ouro.
   s vezes dividia um acampamento com um deles, s vezes via outros apenas de passagem. Entretanto, uma coisa permanecia. Nomes, se acaso eram ditos, pouco revelavam 
sobre um homem, ou seu passado.
   Como Logan. Se Logan fosse mesmo o nome dele.
   Mas nem todos os homens que vagavam pelas montanhas Superstition estavam em busca de ouro, feito Harry. Alguns fugiam de uma tragdia, outros da lei, ou, simplesmente, 
haviam nascido para andar sem rumo pelo mundo.
   Assim como nem todos os homens tinham tendncia a praticar atos violentos. Uma das caractersticas que a atrara em Harry fora o temperamento gentil. Seu irmo, 
por exemplo, era uma pessoa dura, porm justa, e que no se envergonhava de revelar um lado terno.
   E Logan...
   No, no se deixaria envolver pelos sentimentos secretos que Logan, to facilmente, encorajara a vir  tona. Ou seria parte do jogo dele?
   Nervosa, Jessie puxou a barra do vestido, que se prendera na cerca, e montou, tomando o caminho de casa.
   Quem quer que a estivesse espionando, poderia muito bem haver atirado em Logan para avis-lo de que deveria manter distncia do lugar.
   Quanto mais se aproximava de casa, mais essa suspeita quanto  natureza do ferimento de Logan ganhava fora. Iria confront-lo e exigir explicaes de uma vez 
por todas. Determinada, desmontou perto do curral. Quando estava para comear a retirar os arreios e a sela de Adorabelle, Logan abriu a porta do chal.
   Jessie o fitou por um longo instante. O rosto bem barbeado deveria ter suavizado a expresso daquele olhar, porm no foi o que acontecera. De p junto  soleira 
da porta, os olhos semicerrados, ele nunca lhe parecera to imponente e perigoso.
   Talvez confront-lo com suas suspeitas no fosse o melhor caminho a seguir.
   - Tem certeza de que esse animal  mesmo um cavalo?
   - Adorabelle me leva aonde preciso ir. No o vejo com nada melhor. Alis, no o vejo com absolutamente nada.
   Fora a coisa errada a dizer. Agora Jessie lhe dera as costas, os lbios carnudos transformados numa linha seca. Odiava v-la retirar a sela da gua e coloc-la 
sobre a cerca sem poder ajud-la. Nunca estivera numa posio semelhante, incapaz de executar qualquer esforo fsico.
   - Consegui pr um pouco de feijo para cozinhar - ele comentou, pensando em como fora dificil separar os gros e prepar-los para o cozimento com apenas uma das 
mos.
   Jessie, que se ocupava em tirar as luvas de couro, no parecia muito interessada em comida.
   - Fico satisfeita que tenha encontrado algo de til para fazer.
   - Maldio! - No era apenas a expresso do rosto delicado que se alterara. O veneno e o sarcasmo embutidos nas palavras femininas deixava claro que Jessie estava 
se preparando para um duelo verbal, sem se importar com as conseqncias.
   - No pragueje. - Ela voltou a ateno para a gua, coando-a atrs das orelhas antes de remover o cabresto. Adorabelle tinha uma natureza to dcil que mal se 
movia, aguardando cada procedimento com pacincia.
   Calmamente, Jessie ps-se a escovar o plo da gua, aparentemente desinteressada da presena masculina. Entretanto, mesmo vestindo as roupas de Harry, Logan exudava 
sensualidade, sendo impossvel ignor-lo.
   - No se importe com o que aquele homem disse a seu respeito, querida - Ela falou em alto e bom som, continuando a escovar a gua sem se abalar. - Com certeza 
no saberia o que fazer com um animal to gentil quanto voc.
   - Duas vezes maldio! - Logan ergueu a voz deliberadamente. - O que deu em voc, lady? - Mesmo  distncia, podia sentir o impacto dos olhos escuros e penetrantes. 
Mas ele tambm estava furioso agora. 
   - No me diga que algum roubou seu maldito gado?
   Quando um homem diz chega,  porque chega. Sem se importar com as pedras pontiagudas que lhe feriam os ps nus, Logan cobriu a distncia que os separava com passadas 
rpidas e enrgicas.
   - Que diabos significa isso, lady?
   - Se a carapua lhe serve, vista-a. Mas como vesti-la, se no tem nada de seu, no ? - As palavras, ditas num tom doce, destilavam ironia. - Voc no tem nada 
capaz de provar quem realmente , o que voc  e como veio parar aqui.
   O ataque foi to inesperado, que Logan apenas ficou em silncio, sem saber como responder. Num gesto cansado, passou a mo pelos cabelos. Que acontecera a Jessie, 
enquanto estivera longe? Por que essa mudana sbita de comportamento? Essa raiva mal contida?
   - Por que est, repentinamente, zangada comigo?
   - Pensei muito enquanto estive fora. Eu no o embrulhei numa colcha e...
   - Vamos voltar a esse assunto outra vez?
   - Sim. - Ela largou a escova e o fitou de frente. -  importante para mim saber quem o trouxe at aqui. Tenho direito de saber quem atirou em voc.
   Infelizmente Jessie lhe perguntava apenas o que no podia responder: a verdade. Todas as suspeitas anteriores voltaram-lhe  mente, mesmo j tendo descartado 
a possibilidade de sua anfitri estar envolvida com bandidos. Eles pagariam uma fortuna para ter um lugar seguro onde se esconder e Jessie podia ter tudo, menos 
dinheiro.
   - Eu a magoei de alguma forma?
   - No. - Logan despertara sentimentos adormecidos, mas aquele era um problema seu, algo com o que teria de lidar sozinha. Ele no tinha nem conscincia do quanto 
a atraa. - No - ela tornou a repetir. - Voc no me magoou, porm pede que o aceite de olhos fechados, em boa-f. Estou encontrando dificuldades para faz-lo. 
Entenda, estou sendo honesta. Por que no tenta agir assim? Prometo que o cho no se abrir sob seus ps, nem o cu cair sobre sua cabea.
   Logan fechou os olhos por um breve instante, tentando no enxergar a splica estampada nos olhos dela. Jessie dissera ter pensado muito, e chegara s piores concluses 
a seu respeito. Com Zach perambulando pelos arredores, no queria coloc-la em perigo. E tambm precisava se proteger. O aparecimento de Zach o fizera desistir de 
partir imediatamente. Jessie no lhe daria uma arma e no havia outro cavalo na pequena fazenda a no ser Adorabelle.
   A fisionomia carregada de Logan a alarmou. Jessie deu um passo  frente e ento parou. Se desse a ele mais uma chance de no lhe dizer a verdade, teria apenas 
a si mesma a quem culpar, se chegasse ao fim daquela histria muito magoada.
   - Logan?
   - Voc quer que eu v embora? - A expresso impenetrvel no deixava transparecer nenhuma emoo.
   - Voc tem para onde ir?
   - Outra pergunta sem resposta. Ou voc me deixa ficar aqui um pouco mais, ou partirei j.
   Ela mordeu o lbio inferior com fora, arrancando um pedao de pele.
   - Voc est me fazendo responsvel por seu bem-estar. - Jessie entrou na pequena cabana junto ao curral para guardar a escova e as luvas, consciente de que Logan 
aguardava uma deciso. Parecia no lhe restar outra alternativa. - Vamos provar aquele feijo que voc preparou. 
   Ele virou-se para segui-la, andando devagar. 
   - Por qu, Jessie?
   - E tem importncia? Tomei uma deciso. At que me d motivos para mudar de idia, pode ficar aqui. 
   Ao se aproximarem do chal, Logan notou a barra rasgada da saia. Como ser que o tecido pesado rasgara? Embora se sentisse observada, Jessie lutou contra a vontade 
de virar-se.
   - Voc vem, ou no? - indagou apenas.
   - Eu realmente queria saber por que voc est me permitindo ficar, apesar das suspeitas que a preocupam. E como foi que sua saia rasgou?
   - Prendi-a na cerca. No, no me encontrei com ningum. No que voc tenha o direito de perguntar.
   - No, no tenho nenhum direito. Mas ainda assim quero uma resposta.
   - Passei tanto tempo me preocupando com seu ferimento, que seria uma tolice desperdiar todo meu empenho pondo-o daqui para fora agora. Oh, voc ps a mesa!
   - Procedimento comum, quando se pretende comer.
   - Claro. - Mas o gesto significava muito mais. E Logan havia colocado flores num jarro tambm. Ela estendeu a mo e tocou as ptalas macias. Como pudera suspeitar 
de que ele tentara roubar seu gado?
   - No quero que voc pense... - Logan comeou.
   - Ningum nunca... Desculpe-me. Por favor, termine o que havia comeado a dizer.
   Ele se manteve distante, embora desejasse o contrrio. O sol do fim da tarde se derramava sobre os cabelos de Jessie, envolvendo-a num halo dourado. Ela lhe parecia 
to frgil, debruada sobre as flores. Antes se sentira tentado a beij-la, mas agora a tentao havia se transformado num desejo quase incontrolvel.
   - Vi as flores e pensei que voc iria apreci-las. Mulheres do seu tipo deveriam ter sempre coisas bonitas ao redor.
   - Obrigada - Jessie murmurou, o rosto iluminado por um sorriso radiante. - Ningum nunca me deu flores antes. Essas so chamadas esporas?
   - Rabos-de-rato - ele a corrigiu, aliviado por no estar mais sendo pressionado com perguntas impossveis de serem respondidas.
   - Rabos-de-rato?
   - Por que no? Nomes so apenas percepes.
   - Mas rabo-de-rato...
   - Eu realmente no sei por que essas flores tm esse nome. Santo...
   - Santo?
   - Algum que eu conheo. Ele me ensinou quais plantas podem ser, ou no, ingeridas. Voc no sabe reconhec-las? Ningum lhe ensinou?
   - Nasci e fui criada nas proximidades de Nova York. Depois que minha tia morreu, vim para c, morar com meu irmo. Ento me casei com Harry. Lvia havia acabado 
de dar  luz e no tinha muito tempo livre para me ensinar sobre a vida no campo. Afinal, as outras trs crianas mais velhas precisavam de cuidados tambm.
   - E Harry? Ele no lhe mostrou...
   - Receio que Harry estivesse mais interessado no que estava grudado nas pedras do que naquilo que crescia perto delas.
   -  uma pena. Andei pelos arredores hoje, Jessie. H uma verdadeira horta natural  sua disposio, perto da nascente. Cebolas, alface... Se eu tiver tempo... 
Oh, Deus, tempo  tudo o que eu tenho. Vou ver se posso encontrar algumas sementes para lhe fazer um ch do deserto.
   - No sei se gosto muito do nome. Mas tenha cuidado. A regio perto da nascente  pedregosa e enquanto seu ombro no sarar,  melhor no subir at l de novo, 
ou poder se ferir. Nenhuma comida justifica isso.
   A preocupao de Jessie o tocou. Claro que preferiria ser tocado fisicamente, porm, um homem tinha que aprender a se contentar com o que lhe era oferecido. Passando 
a mo pelos cabelos, Logan decidiu que deveria lhe dizer a verdade.
   - Eu no estava exatamente procurando comida. Tivemos uma visita enquanto voc esteve fora. 
   - Uma visita? Aqui?
   - Foi o que eu disse.
   - Mas quem? - Ningum costumava visit-la, a menos que... - David? David esteve aqui? 
   - David? Quem diabos  David?
   
   
   CAPTULO VI
   
   - David Trainor  um vivo que costuma me visitar. Em geral essas visitas so restritas s tardes de domingo. - Foi difcil para Jessie virar-se e encarar Logan. 
   - David  a nica pessoa em Apache Junction que no me julga culpada da morte de meu marido.
   Ela apoiou as mos no espaldar da cadeira com fora, recusando-se a desviar o olhar do homem  sua frente. Era de certa forma surpreendente observar a expresso 
incrdula de Logan.
   - No h a menor possibilidade de voc haver matado algum, Jessie.
   - O qu? Como pode ter tanta certeza? Voc no sabe o que aconteceu, ou por que me fariam uma acusao dessas.
   - Por acaso est tentando me convencer de que o matou? No vai adiantar. Falta-lhe instinto assassino.
   - Como pode saber? - Sua voz soou carregada de ressentimento, o que era ridculo. Porm no gostava de que Logan julgasse conhec-la to bem.
   - Apenas sei. Se voc fosse capaz de matar, por que diabos...
   - No pragueje.
   - Como eu estava dizendo, por que voc me acolheu? Por que sempre atira para o ar quando algum, ou algum animal, rouba seus ovos? Se realmente tivesse matado 
uma pessoa, teria sido um simples acidente. Mesmo assim, eu no a acreditaria capaz...
   - Basta. Agradeo-lhe o voto de confiana. No imagina o quanto isso significa para mim.
   Logan avaliou a distncia que os separava. Em termos de espao, era quase nada. Mas se avanasse e cedesse ao desejo de tom-la nos braos, estaria enveredando 
por um caminho sem retorno. Se conseguisse se manter distante dela at partir, os arrependimentos seriam poucos. Entretanto... Ignorando os pensamentos, Logan moveu-se.
   Jessie observou-o aproximar-se. Bem no fundo do corao, sabia que se ele a tocasse, iria beij-la. E queria muito ser beijada. Estivera sonhando com isso h 
dias, consumindo-se de ansiedade. Naquele momento, tinha necessidade de ser abraada, de se sentir querida, desejada. Sem que pudesse evitar, ergueu o rosto, aguardando...
   - Jessie... - Logan tocou-a de leve na face, deslizando o polegar sobre o lbio inferior, no lugar exato onde a vira morder tantas vezes. - Voc deveria deixar 
algum cuidar de seus lbios. Algum que no os fira.
   - Eu no...
   - Voc os fere sim. - Ento ele a beijou. Mas se esperara experimentar doura e maciez, sorveu o gosto inebriante da paixo.
   Embora o bom senso lhe dissesse para se afastar, no foi capaz de resistir  urgncia de tornar a beij-la. Jessie se amoldava aos seus braos com perfeio, 
os olhos enormes e brilhantes parecendo enfeiti-lo.
   Oh, sim, aquele instante era tudo o que sempre sonhara. Em toda sua vida, fora beijada apenas por trs homens e nunca se sentira envolvida por uma mgica especial. 
Mas com Logan era diferente. Gostava do toque das mos speras no seu rosto, da maneira como seus corpos se entendiam em silncio.
   Arrastada num turbilho de sensaes, Jessie se entregou ao beijo sem reservas, descobrindo em si uma sensualidade que no julgara possuir.
   Por um breve instante seus lbios se separaram para que pudessem respirar. Fitando-a fixamente, Logan a puxou ao encontro de si, deixando-a perceber a extenso 
de seu desejo.
   Algo em seu ntimo sussurrou que era hora de parar, que a situao estava  beira de fugir ao controle. Porm, Jessie recusou-se a ouvir. A tentao de explorar 
as sensaes despertadas pelo desejo era maior do que tudo e calava o medo.
   Logan diminuiu a intensidade do beijo. Havia nos lbios femininos uma nsia a qual no podia saciar. Jessie beijava como uma mulher em busca de promessas e no 
estava em condies de lhe prometer nada.
   Ele se afastou para fitar o rosto afogueado, transtornado pela paixo. Delicadamente, traou o contorno dos lbios generosos com a ponta do dedo. E quando Jessie 
beijou seu dedo de leve, ambos estremeceram, o gesto simples, mas carregado de erotismo, envolvendo-os numa teia sensual. A cautela lhe dizia que devia afastar-se 
agora, enquanto ainda era capaz. Entretanto o desejo foi mais forte. Segurando-a pela cintura, se apossou da boca macia outra vez.
   Jessie no tardou a compreender o perigo representado por aquele homem. Ele a fazia arder de desejo. No seria difcil perder por completo a cabea, entregando-se 
ao momento sem pensar no amanh. Estivera sozinha por tanto tempo, que encontrava dificuldades para se controlar.
   Todavia, ao sentir a ponta da lngua masculina tentar invadir o interior de sua boca, recusou-se a ceder.
   - No. No me beije... assim. - Ela escondeu o rosto junto ao peito msculo, perguntando-se por que as carcias ternas terminavam to rapidamente para o homem.
   - Jessie? Diga-me o que eu fiz de errado.
   Dizer a ele? Desejava poder se dissolver no ar feito fumaa e escapar, sumir dali. Como poderia dizer a ele? Como poderia qualquer mulher discutir uma coisa dessas 
com um homem?
   - O que aconteceu foi um erro. - Porm quando Jessie quis se afastar, ele a impediu de mover-se.
   - Talvez tenha sido, mas com certeza serviu para responder muitas perguntas. - Logan a prensou de encontro  parede, os corpos de ambos quase se tocando.
   Jessie recusava-se a fit-lo e ele no a obrigou.
   - Por quanto tempo voc esteve casada?
   - Um ano. - A resposta foi dada sem nenhuma hesitao. Pelo menos Logan no estava tentando beij-la outra vez.
   - E Harry morreu h pouco menos de um ano? 
   - Sim, porm...
   - E no houve ningum mais em sua vida desde ento, no ? David no... isto ...
   Ela ergueu a cabea com tanto mpeto que o atingiu no queixo.
   - Ai! Maldio, mulher! Apenas lhe fiz uma pergunta... 
   - No pragueje. Estou sempre lhe dizendo isso, porm parece que voc no d ateno.
   - Responda  minha pergunta, raio de sol. Prometo que prestarei toda a ateno na resposta. No houve ningum...? 
   - Eu ouvi na primeira vez. No - ela admitiu, sentindo-se corar. - No houve ningum mais na minha vida. No que esse assunto lhe diga respeito.
   Logan a beijou de leve na ponta do nariz.
   - Obrigado por me dizer. Eu queria apenas ter certeza... 
   - Certeza de qu?
   - Mulher, voc tem a maldita... - O brilho dos olhos escuros o fez suspirar, resignado. - Est bem. Voc tem a terrvel mania de me interromper quando estou tentando 
lhe falar. Por favor, ser que posso terminar?
   Jessie quase gritou "no", temendo escutar o que ele tinha para lhe dizer. No havia dvidas de que Logan, aos trinta e poucos anos, j despertara a paixo em 
muitas mulheres e, julgando pela naturalidade com que se movimentava pelo chal, era fcil presumir que dividira o mesmo teto com algumas delas. Assim, preferiria 
no ser obrigada a ouvi-lo dizer que lhe faltava aquilo que os homens buscam numa mulher.
   Porm, a maneira como ele a fitava deixava claro que continuava excitado. No era preciso ser muito perspicaz para notar o bvio.
   - Tudo o que quero lhe dizer, Jessie,  que em se tratando de experincia, provavelmente posso ser seu av. Eu no pretendia permitir que as coisas chegassem 
to longe.
   Estaria ele arrependido de t-la beijado? Lembre-se de que voc  uma mulher independente, uma voz interior a alertou. Vai aceitar, passivamente, a insinuao 
de que no sabe beijar?
   Mas Logan se afastou sem lhe dar chance de ler a resposta em seus olhos. Jessie levou a mo aos lbios, sabendo que parar por ali fora o melhor. No fazia sentido 
comear algo com um homem que planejava partir em breve. Todavia, o gosto dele continuava em sua boca e perguntava-se se j no seria tarde demais.
   Parado junto  soleira da porta, os olhos fixos na paisagem, Logan, mesmo sem se esforar, exercia um fascnio to grande sobre seus sentidos, que pensou em cham-lo. 
Ento mordeu os lbios, sufocando a vontade. O que acontecera entre os dois fora mesmo o que ele dissera momentos antes. Um erro. Um erro que precisava ser esquecido.
   Tentando desviar a ateno daquele corpo esguio e atltico, Jessie virou-se para o fogo, onde a panela com os feijes continuava intocada. Algumas fatias de 
bacon e pezinhos seriam um acompanhamento perfeito. Infelizmente a farinha acabara e no se lembrava de quando comera bacon pela ltima vez.
   Se Logan estivesse bem no dia seguinte, poderia deix-lo s durante algumas horas e ir  cidade. Estava na hora de vender a aliana. Se soubesse um pouco mais 
sobre o momento certo de vender o gado... Talvez Logan entendesse do assunto. Contudo, como lhe perguntar, sem revelar muito sobre suas dificuldades financeiras?
   De repente, Jessie se lembrou do que ele lhe dissera sobre a visita de algum.
   - Logan?
   - Sim? - Ele no se virou para encar-la. No gostava de cometer erros e beijar Jessie fora um dos maiores. 
   - Voc disse que algum veio me fazer uma visita hoje? 
   - Isso mesmo.
   - Mas eu no tenho vizinhos. J lhe contei o que as pessoas pensam a meu respeito. Assim, quem poderia ser? 
   - No foi exatamente uma visita social. Largando a colher de pau com que estivera mexendo o feijo, Jessie deu um passo  frente. 
   - Quem era?
   - Acho que descobri seu ladro de ovos.
   - Meu ladro de ovos - ela repetiu. Oh, Deus, seu protetor silencioso provavelmente viera confrontar Logan! 
   - Voc tem mesmo certeza de que no existe ningum morando nas proximidades?
   - J lhe disse que no. Tive tempo de sobra, neste ltimo ano, de cavalgar pelos arredores. A nica coisa que encontrei foi uma cabana abandonada, nas montanhas.
   - Nenhum sinal de que havia algum morando l?
   Jessie colocou as mos nos quadris e suspirou.
   - Logan, estive na cabana meses atrs. Pelo que eu saiba, tem um bando de apaches renegados vivendo nas proximidades. Quanto a mim, no me importo a mnima com 
quem possa estar morando l. No tenho nenhum motivo para voltar quela parte das montanhas. E no creio que a cabana esteja nas minhas terras.
   - Eu queria apenas ter certeza de que...
   - As favas com essa histria de certeza! Voc fala sobre minha mania de interromp-lo... Olhe s essa sua prpria mania, alis irritante, de guardar segredos 
e tentar obter informaes sobre tudo a qualquer custo.
   - Vamos, Jessie, no h razo para ficar assim agitada...
   - Apenas me diga logo quem era o visitante! Agora! - ela exigiu, dando um passo  frente.
   - No estou tentando guardar segredos. De fato estou  intrigado. O ladro  um garoto. Mal chega na altura de meus ombros. - Logan teve a satisfao de v-la 
surpreender-se.
   - Um garoto? Mas no  possvel.
   - Difcil calcular a idade do menino. Nunca tive muita experincia com crianas.
   Jessie deixou-se cair sobre o banco mais prximo, incapaz de acreditar no que acabara de ouvir.
   - Um menino - murmurou, atnita. - Como poderia uma criana sobreviver sozinha?
   - Quem disse que ele estava s?
   - O que voc est insinuando? Que algum ensinou uma criana a roubar? Bem - Jessie se apressou a corrigir -, no exatamente a roubar, e sim comerciar. Sempre 
encontrei peixe fresco, coelhos, e at carne de veado, no lugar das galinhas e ovos sumidos.
   - Voc nunca pensou em descobrir quem era o autor das... trocas?
   - No me fale nesse tom, como se eu tivesse feito alguma coisa estpida. Claro que ficava imaginando quem poderia ser essa pessoa. De qualquer maneira, nenhum 
mal foi feito. No sofri dano algum. Agora, se voc est me perguntando se preparei uma armadilha para tentar apanhar o ladro, obviamente a resposta  no. Ou no 
estaramos aqui, conversando sobre esse assunto.
   - Calma, Jessie, no precisa ficar nervosa.
   - Quem disse que estou nervosa? No pense que me conhece assim to bem, senhor.
   - Meu nome  Logan!
   - Ser? - Ela o fitou irnica, sem disfarar as suspeitas que a incomodavam.
   - Diabo! Claro que sim! Esse tem sido meu nome desde o dia em que nasci.
   - Pare de praguejar dentro de minha casa. - Num mpeto, Jessie se levantou e segurou a saia ampla com ambas as mos, apertando o tecido com fora. Quisera que 
aquela fosse a cabea dura do estranho.
   - Jessie...
   - No. Ainda no terminei. Fico feliz em saber que voc nasceu como qualquer criatura normal, porque estava comeando a pensar que havia cado do cu e batido 
com a cabea no cho, bem diante de minha porta.  a nica maneira de explicar essa sua irritao por causa de um simples beijo.
   - Foi mais do que um beijo e...
   - A pancada que voc levou na cabea deve ter lhe afetado o crebro. Voc tomou a iniciativa.
   - Dificilmente serei capaz de me esquecer disso. - De repente, Logan entendeu a razo de seu nervosismo e agitao. Assim como para Jessie, os beijos trocados 
no haviam sido suficientes. Ansiava por mais. O problema  que sabia, exatamente, o que viria a acontecer caso se permitisse envolver com aquela mulher ingnua.
   Mas tambm sabia qual seria a reao dela se sugerisse terminarem logo com a tenso que os consumia, aplacando o desejo sexual.
   - Jessie, eu...
   - J dissemos o bastante. O feijo est queimando.
   
   
   CAPTULO VII
   
   A luz de um nico lampio iluminava o cmodo apertado e mal-cheiroso. Sentados ao redor de uma mesa tosca, quatro homens discutiam.
   - Se voc no foi capaz de encontrar Lucky vivo e tampouco o encontrou morto, Zach, onde diabos o homem se meteu? - Monte Wheeler perguntou irritado.
   - J lhe disse duas vezes. No h sinal do homem. Tudo o que vi foi aquele garoto. Ele no soube informar nada. No notou a presena de nenhum estranho. Achei 
que no seria inteligente pression-lo.
   - Voc no  pago para achar.
   - Cale-se, Billy Jack. Voc tambm no conseguiu descobrir onde Lucky se meteu - Zach devolveu no mesmo tom. - Se no cobiasse tanto os pertences dele, no estaramos 
aqui agora, preocupados com o paradeiro do homem.
   - E quem me impediu de dar um fim no hombre? - Os dedos de Billy Jack se retesaram, como se estivesse pronto para saltar sobre Zach.
   De repente Tallyman atirou sua faca sobre a mesa, o gesto inesperado aumentando a tenso reinante, em vez de diminu-la.
   - Por que diabos voc fez isso? - Zach quis saber, observando a ponta da lmina firmemente encravada na madeira spera.
   - Estou cansado de ouvir vocs dois discutirem. Pelo menos tiveram sorte de no ficar trancafiados nesse buraco durante os ltimos cinco dias. Ainda no consigo 
entender por que Monte os mandou procurar Lucky.
   - Pois pergunte a mim. - Monte tragou o charuto, lanando uma nuvem de fumaa na direo do teto. - O chefe no gostou quando o largamos num local onde o corpo 
podia ser descoberto. No ficou nada satisfeito com o fato de dois guardas haverem sido mortos e ns termos perdido um dos nossos. O chefe no gosta de servios 
inacabados e enquanto no soubermos o que aconteceu a Lucky, no podemos dar o caso por encerrado. Estejam certos de que no iremos descansar at resolvermos toda 
essa encrenca.
   - Voc deveria permitir que todos ns sassemos em busca de Lucky - Tallyman insistiu.
   - No. Um homem fazendo perguntas por a no levanta suspeitas, mas um bando de sujeitos mal-encarados...
   Blackleg despejou o resto do caf no prprio caneco e sentou-se num banco.
   - Talvez os apaches o tenham pegado. Abutres seriam capazes de tirar toda a carne dos ossos em cinco dias. Os ossos do homem podem estar espalhados at a fronteira 
agora.
   Monte os ouviu discutirem, culpando-se por no haver se certificado da morte de Lucky e ento o enterrado. O velho Charlie ficara possesso quando soubera do ocorrido 
e exigira que o corpo fosse encontrado. Sem vida, preferencialmente.
   - Tem certeza de que o garoto no o seguiu, Zach? - ele indagou.
   - Impossvel. No havia cavalos na pequena fazenda. Uma coisinha selvagem, o menino. Fez-me lembrar de mim mesmo naquela idade. Voc quer que eu volte l?  a 
nica casa das redondezas.
   Um longo instante se passou sem que Monte dissesse nada. Limitou-se a fumar enquanto avaliava o problema que lhe fora parar nas mos.
   O chefe queria que ele atacasse os Kincaid de forma dura. Apesar das repetidas perdas de dinheiro, minrio e gado, a famlia no parecia disposta a ceder s presses 
e abrir mo de suas posses. Com o velho Charlie determinado a ocupar o cargo de governador, to logo o Arizona se tornasse estado, Monte sabia que no lhe faltaria 
servio nos prximos anos. A questo era que no podia se dar ao luxo de cometer erros. O que o velho Charlie ambicionava conseguir custava dinheiro, muito dinheiro. 
As terras que estivera comprando, ou roubando, se conhecia bem o chefe, eram apenas o comeo. A criao de gado o fazia parecer respeitvel aos olhos dos outros 
fazendeiros da regio. Porm, o velho Charlie nunca deixava claro por que os Kincaid tinham se transformado no alvo principal de sua vingana.
   O chefe sempre jogava para ganhar, sem jamais se expor. Monte no tinha dvidas de que outros homens haviam sido contratados para executar vrios servios por 
todo o territrio. Tambm sabia que era melhor no fazer perguntas. Limitava-se a cumprir ordens, certifcando-se de que no deixara nada sem fazer. Entretanto ainda 
no conseguira entender por que o velho Charlie ficara to furioso quando soubera que o corpo de Lucky fora abandonado.
   Deveria ter ficado de boca fechada. Sua boca grande causara o problema. Estupidamente, comentara que o pagamento do servio deveria ser dividido em apenas cinco 
partes desta vez e no em seis, como de hbito. Ento o chefe gritara feito um animal.
   Monte sabia que seus companheiros o julgariam louco por ter sido honesto quanto ao dinheiro da partilha. Porm conhecia o chefe e os outros no. O velho Charlie 
tinha maneiras de descobrir quando algum lhe mentia. Quando um homem lhe dizia que o servio fora feito, era melhor que fosse verdade, ou o chefe contrataria um 
terceiro para consertar o estrago e depois matar o mentiroso. Monte gostava de estar dentro da prpria pele e pretendia continuar respirando.
   - Monte? - Zach o chamou.
   - Sim, eu o ouvi. Ainda estou pensando.
   - Pensando em qu, diabos? - Billy Jack indagou, mal-humorado.
   - Ele tem andado insuportvel, Monte - Tallyman comentou. - Mas no posso culp-lo. Desde que recebemos nosso pagamento, ainda no tivemos chance de sair dessa 
toca. Precisamos de um bom trago de usque. No se pode esperar que um homem trabalhe bem a seco, Monte.
   - Sairemos daqui quando eu decidir. Algum vai discutir?
   - Ningum est discutindo suas ordens, Monte - Tallyman o aplacou. - Porm Billy Jack e Blackleg tm suas razes. No podemos gastar nosso dinheiro num buraco. 
Temos estado na estrada h quase um ms. Alis, pensando bem no assunto, no vemos a cor do usque, ou de uma mulher, desde a noite em que Lucky se juntou ao bando. 
No consigo entender qual o problema se descermos at Apache Junction para passar uma noite.
   - Vamos apenas forrar nossas barrigas de bebida. Quem diabos iria saber?
   - Eu saberia. - Porm, Monte chegou  concluso de que levara seus homens ao limite mximo. Se os forasse demais, acabaria criando uma situao difcil de ser 
contornada. - Ok, ento, permisso concedida. Talvez tenhamos alguma notcia de Lucky em Apache Junction. Mas sairemos da cidade ao amanhecer.
   
   Areando a panela de ferro onde o feijo fora cozido, Jessie prometeu a si mesma que iria  cidade logo bem cedinho, na manh seguinte. Precisava de mantimentos 
sim, porm, na verdade, mais do que tudo, precisava de algum tempo longe de Logan.
   Surpreendera-se ao se descobrir uma mulher com sangue quente nas veias, capaz de beijar e discutir com igual ardor. Ainda no acreditava que fora capaz de gritar, 
de provoc-lo com palavras duras. Apesar da personalidade forte de Logan, soubera enfrent-lo, embora no tivesse sido sua a ltima palavra.
   Oh, sim, aquele papel de mulher independente lhe caa bem! Podia dizer o que quisesse e agir como desejasse sem dar satisfaes a ningum.
   Claro que seus rgidos padres morais a impediam de fazer qualquer coisa errada. A nica conseqncia desagradvel da discusso fora que Logan se fechara e parecia 
de mau humor.
   Mas no, sentia-se bem, satisfeita, e no iria permitir que algum estragasse essa sensao de contentamento.
   Terminando de arear a panela, ela despejou gua fervente da chaleira na pia, desinfetando tudo. Ento secou e guardou os utenslios, tendo o cuidado de passar 
um pouquinho de gordura de porco na chaleira para evitar ferrugem. Lvia lhe ensinara o truque.
   Descansando as mos na cintura, arqueou o corpo para trs, tentando aliviar a dor nas costas. Harry lhe prometera inmeras vezes elevar o nvel da pia, porm 
nunca encontrara tempo para fazer o servio.
   Uma olhada rpida na direo da porta confirmou que Logan continuava sentado no banco, do lado de fora do chal. Refugiara-se dentro da noite desde que a refeio 
silenciosa de ambos chegara ao fim. Durante alguns minutos o ouvira resmungar, porm agora no escutava nada.
   Como se pensar nele o conjurasse, Logan surgiu  sua frente. O lampio que levara consigo numa das mos, uma cala na outra.
   Jessie o fitou sem nada dizer, os olhos arregalados de espanto. Imediatamente ele verificou se no havia arrastado sujeira para dentro de casa.
   - Voc aproveitou para lavar toda aquela insolncia junto com a loua?
   Como eram as primeiras palavras que Logan lhe dirigia desde a discusso acalorada, Jessie pensou que lhes faltava algo. Como um pedido de desculpas, por exemplo.
   - E se no o fiz? - O tom desafiador era incontestvel.
   Depois de largar o lampio sobre a mesa, Logan considerou vrias maneiras de livrar Jessie daquela sua lngua petulante. Mas como todas as possibilidades exigiriam 
que a tocasse outra vez, desistiu. Se fosse sincero consigo mesmo, admitiria que gostava do modo como ela o enfrentava. Sempre admirara mulheres com opinies prprias, 
capazes de desafi-lo. Sua me era um bom exemplo de mulher dotada de uma formidvel fora de vontade.
   Foi a curiosidade de Jessie o que a salvou.
   - O que voc est fazendo com sua cala na mo?
   - Procurando ouro.
   - Como?
   - Eu disse que estava procurando ouro. - Ele jogou a cala sobre a mesa e uma faca tambm.
   - Ouvi da primeira vez. S no entendi o significado das palavras. - Inclinando-se para a frente, Jessie examinou a cala cuidadosamente. - Voc arrancou os botes 
da... da... - Incapaz de pronunciar o nome do lugar onde antes ficavam os botes, calou-se por um breve instante. Ento continuou: - Suponho que pretenda partilhar 
a piada comigo. Ou espera que eu costure os botes de volta? No sei como algum poderia procurar ouro... ah, bem... l.
   Gostava de ver Jessie assim, levemente corada e embaraada, lutando com as palavras. Sorrindo, abriu uma das mos e despejou o contedo sobre a mesa.
   - Cinco botes ocos, cinco moedas de ouro.
   Ela sabia que o que estava ali  sua frente era real. Ainda assim, pegou uma das moedas de ouro, como se para se certificar de que no se enganara.
   - So verdadeiras - ele a assegurou.
   - Muito inteligente de sua parte. - Jessie recolocou a moeda de vinte dlares na mesa, perto das outras, tentando imaginar o que aconteceria dali em diante
   De repente, sentiu a mo de Logan cobrir a sua.
   - Voc est zangada por que no lhe falei sobre o dinheiro?
   - Por que deveria estar zangada? - De nada adiantou sua tentativa de se desvencilhar do contato, pois ele no cedeu um centmetro. - E seu dinheiro. Use-o como 
quiser. - Novamente Jessie procurou se afastar. Em vo.
   - A verdade  que me esqueci do dinheiro.
   - Como eu disse, foi uma idia muito inteligente. No creio j ter ouvido falar de algum que escondeu moedas de ouro na... no tecido da cala.
   - De fato foi uma boa idia.
   Finalmente Jessie conseguiu retirar a mo.
   - No sou ladra, mas admito que revistei suas roupas em busca de uma pista sobre sua identidade. Posso assegur-lo que se tivesse encontrado algo de valor, o 
teria devolvido to logo voc recobrasse a conscincia.
   - Nunca me passou pela cabea que voc roubaria de mim, ou de qualquer outra pessoa. E que quando penso que me roubaram tudo, fico feliz de no haver escondido 
as moedas no cinto.
   - Oh!
   - Isso mesmo. Oh! - ele respondeu sorrindo.
   -  uma quantia grande - Jessie murmurou, desejando que suas suspeitas no voltassem a perturb-la. Entretanto seria impossvel no pensar no bvio. Se algum 
era capaz de se esquecer que possua cem dlares, certamente dinheiro era algo que no lhe fazia falta.
   Logan fitou-a, sentindo-a se afastar cada vez mais, embora no entendesse porqu.
   - Voc est com medo de mim outra vez.
   Apesar de no se tratar de uma pergunta, Jessie fez questo de responder.
   - Isso - ela apontou para o dinheiro -, levanta srias dvidas a seu respeito. No conheo ningum mais que pode se dar ao luxo de esconder cem dlares e ento 
se esquecer completamente.
   - Voc  uma mulher muito desconfiada.
   - E voc no o seria, se estivesse no meu lugar? Para sua surpresa, Logan pareceu considerar a questo com seriedade.
   - No sei - ele falou afinal, fitando-a. A luz do lampio iluminava os cabelos avermelhados, tornando-os da cor do cobre. Queria tirar os grampos que os prendiam 
num coque severo e apreci-los soltos. Incomodado com o rumo dos pensamentos, obrigou-se a desviar o olhar.
   - No posso imaginar o que  estar no seu lugar - continuou. - Sei como  me sentir atrado por voc, mas no consigo entender o que se passa em seu ntimo. Sempre 
acreditei que homens e mulheres pensam de maneiras completamente diferentes. Mulheres tendem a complicar as coisas, enquanto homens vo direto ao ponto.
   Jessie corou, o corao aos pulos dentro do peito. Sabia que no deveria tocar no assunto, porm no pde controlar o impulso.
   - E voc se sente mesmo assim?
   - Assim como?
   - Atrado por mim?
   No instante em que terminou de pronunciar as palavras, levou a mo  boca. Assustada com a prpria audcia, deu um passo atrs. Oh, Deus, o que havia de errado 
com ela?
   Logan a segurou pelo pulso, impedindo-a de mover-se.
   - Se voc ainda tem dvidas, acho que serei obrigado a agir de maneira mais eloqente.
   - Por favor, no - Jessie murmurou, percebendo que ele pretendia beij-la na palma da mo. Sentia vergonha da pele spera e avermelhada, fruto de trabalho duro.
   Entretanto seu protesto foi ignorado. Ao sentir os lbios msculos tocarem cada um de seus dedos, num gesto terno e sensual, estremeceu violentamente.
   - Voc  a tentao personificada, Logan... - sussurrou ofegante.
   - A nica pessoa que me interessa tentar  voc. Seja franca comigo. Estou sendo bem-sucedido?
   - Bem-sucedido at demais. Mas suponho que saiba disso. - Jessie roou a ponta dos dedos pelo rosto viril. - Voc j explicou que no tenho sua experincia. Eu...
   - Jessie...
   - No, por favor. Deixe-me terminar. - Ela se afastou um pouco, precisando daquela distncia. - Tenho sido muito ousada com voc. Disse-lhe coisas que jamais 
falei para homem algum. A honestidade  necessria neste momento. Admito que sinto-me muito tentada a me entregar s sensaes que voc despertou em mim. Porm, 
sei que seria uma tolice. O dinheiro do qual se lembrou to repentinamente  sua chance de sair daqui.
   - Oua, eu no quis mago-la de maneira nenhuma.
   - Acredito que no. - Jessie sorriu amarga. - Entretanto isso no muda a maneira como me sinto.
   Ao v-la olhar para as moedas de ouro quase com nojo, um pensamento sbito lhe ocorreu.
   - Voc no acha que eu pretendia lhe pagar como se voc fosse uma mulher qualquer, no ?
   - Claro que no! A idia nunca me passou pela cabea.
   - timo. Eu no queria mal-entendidos. Mas realmente fao questo de lhe deixar parte do dinheiro. - Sabendo-a a ponto de protestar, Logan esclareceu depressa: 
- Preciso de um cavalo, botas e uma arma. No posso ir at  cidade e vou lhe pedir que faa as compras para mim. O que sobrar do dinheiro ser seu.
   - Apesar de sua opinio sobre Adorabelle, pode mont-la para ir  cidade amanh e comprar aquilo do que tiver necessidade.
   - No posso ir  cidade no seu cavalo, Jessie. Analise os fatos. Sua reputao ser reduzida a p se as pessoas descobrirem que acolheu um homem em casa.
   - Mas se eu usar seu dinheiro, levantarei suspeitas sobre onde o obtive. Comprar um cavalo no seria grande problema. Bastaria escolher um animal que fosse o 
oposto de Adorabelle. Porm comprar uma arma... Oh, Logan, o que eu conheo do assunto no daria para encher uma xcara de ch. E botas... Que motivos eu teria para 
comprar botas masculinas, se estou preocupada com minha reputao? Fim da questo. Voc ter que ir a Apache Junction sozinho.
   Amanh  noite Logan j teria partido e lhe restaria novamente a solido. Por nada deste mundo deixaria transparecer a dor de no ter tido a chance de descobrir 
a paixo nos braos dele.
   - No posso ir  cidade - Logan insistiu, segurando-a pelo brao.
   - No?
   - H razes que me impedem de ir... Madio! Eu no queria envolv-la nisso.
   - Conte-me tudo.
   - Eu havia me esquecido quo suave e delicada uma mulher pode ser...
   - No sou delicada. Sou forte. Diga-me a verdade. 
   - Tem alguns homens a minha procura. 
   - Aqueles que o balearam?
   - Sim. No vou permitir que se envolva na confuso em que estou metido. E por isso que preciso ir embora daqui depressa. Para proteg-la.
   - Voc acha que eles sabem de seu paradeiro?
   - O garoto no foi a nica pessoa a rondar suas terras. Um homem o cercou e fez perguntas sobre mim. No sei por que o menino mentiu, dizendo que os pais no 
estavam em casa e que no vira nenhum estranho nas redondezas. - Logan fitou-a fixamente, buscando compreenso. 
   - E se o homem encontrasse voc aqui, sozinha? No gosto nem de pensar na possibilidade. No posso correr o risco de deixar alguma coisa lhe acontecer.
   - Voc parece ter tanta certeza...
   - Maldio! Tenho certeza sim! Eles a estuprariam e a matariam sem pensar duas vezes.
   Ela tocou-o de leve na mo.
   - Voc no  esse tipo. No consigo entender por que andou na companhia desses bandidos.
   - No faa perguntas. No posso lhe dizer nada. Quanto menos souber, mais segura estar. Represento um perigo para voc. Agora entende por que no posso ir  
cidade?
   - Est bem. Farei as compras necessrias. Farei o que for preciso para ajud-lo. Parece que esse  meu destino.
   Logan soltou-a devagar, quando tudo o que desejava era tom-la nos braos e no abandon-la jamais. Oh, Deus, se tivesse tempo... Mas, a menos que descobrisse 
o cabea por trs dos roubos, no lhe restava outra alternativa a no ser sufocar os sentimentos e esquecer que possua um corao. Quem teria motivos para querer 
vingar-se de sua famlia?
   E quando partisse, quem protegeria Jessie?
   
   
   CAPTULO VIII
   
   Ao acordar, Logan encontrou uma arma sobre a mesinha de cabeceira, mas nem sinal de Jessie. A manh j ia alta e havia promessa de chuva no ar, o tempo nublado 
parecendo refletir seu humor.
   Mais uma vez no conseguira convencer Jessie a dormir na cama. Ela dissera que precisava estar descansado para enfrentar a longa viagem. Angustiava-o no ter 
podido lhe contar a verdade sobre seu destino.
   Ele examinou a arma, uma velha pistola Remington, muito usada no exrcito. Com certeza tambm pertencera a Harry.
   s vezes, Logan se perguntava o que Harry teria achado disso tudo. Um estranho morando no chal, dormindo na sua cama, usando suas roupas e botas e agora dono 
de sua arma. A nica coisa que no fizera fora se deitar com a esposa de Harry.
   Irritado com toda a situao, ele se levantou depressa. Sua cala e camisa, limpas e passadas, estavam dobradas sobre uma cadeira. Nada do dinheiro.
   O curral estava to vazio quanto o chal. No podia culpar Jessie por querer se ver livre do hspede indesejado o mais rpido possvel.
   Entretanto havia algo que precisava fazer antes de partir. Voltando para o chal, vestiu-se e calou as botas de Harry, que continuavam a lhe apertar os ps como 
no primeiro dia. O esforo fez seu ombro latejar loucamente, porm sabia como ignorar a dor. Passar a vida inteira ao lado de um irmo como Conner tivera suas vantagens. 
Depois de varar a noite em bebedeiras, lembrava-se de haver sido arrancado da cama por Conner inmeras vezes e mandado para o campo ao amanhecer. No tardara a aprender 
a dominar qualquer desconforto fsico.
   Depois de lavar o rosto com gua fria, sentia-se pronto para percorrer os arredores. Iria descobrir o paradeiro do garoto a qualquer custo.
   
   A umidade e o calor excessivo a oprimiam. Enquanto Adorabelle trotava pela rua estreita, Jessie limpou o suor da testa com um leno. Esquecera-se de como era 
muito mais fresco no chal, no alto da montanha, do que no meio de Apache Junction.
   Ela desmontou diante do armazm de Silas Beeson e amarrou a gua sob a sombra, esforando-se para vencer a relutncia de entrar. Mesmo se o sol estivesse brilhando 
em todo seu esplendor, o interior do local continuaria sombrio. As prateleiras, repletas de teias de aranha e de mercadorias rejeitadas, criavam uma atmosfera deprimente. 
O cheiro tambm era repulsivo, uma mistura de salmoura, leo e couro. Exatamente como o cheiro de Silas. Ele nunca tomava banho e dizia que isso no fazia a menor 
diferena. Seus fregueses no deixariam de vir  sua loja. Afinal, no havia outro estabelecimento semelhante num raio de quilmetros.
   Como desconhecia o homem que comprava um rolo de tabaco, Jessie aguardou que ele se afastasse antes de se aproximar do balco. Todavia, ter a ateno de Silas 
apenas para si era quase um martrio. A pele cheia de escamas e os dentes amarelados e estragados provocavam tamanho repdio, que precisava se conter para no demonstrar 
nojo.
   - Sra. Winslow, h tempos no a vejo. Aposto que seus mantimentos esto chegando ao fim.
   - Bom dia, Silas. - Determinada a se mostrar de bom humor, Jessie obrigou-se a sorrir. - Realmente preciso de mantimentos. Aqui est minha lista. Tambm gostaria 
de comprar um cavalo.
   - Bem, vejamos... Por acaso a ouvi dizer um cavalo? 
   - Isso mesmo. Voc tem algum? 
   - Talvez. Mas no fao trocas. Aceito apenas dinheiro. Ou ouro. Tem ouro para gastar, sra. Winslow?
   - Posso pagar por aquilo que vou comprar.
   - Verdade?
   Jessie sabia que o homenzinho no iria lhe mostrar os cavalos, ou separar seus mantimentos, a menos que se assegurasse de que a compra seria paga no ato. Irritada, 
abriu a bolsinha de couro e retirou uma moeda de vinte dlares, estendendo-a diante dos olhos gananciosos.
   - Satisfeito agora, Silas?
   - Tem mais moedas a dentro dessa bolsa, no ? Cavalos no so baratos.
   - De voc eu no esperaria nada barato. Mas diga-me, quanto tem cobrado por um cavalo ultimamente?
   Massageando o queixo pontudo, ele passou vrios minutos considerando a questo. Com dificuldade, Jessie resistiu  urgncia de desviar o olhar daquele rosto suarento.
   - Vinte dlares um cavalo e dez a sela.
   Agora era sua vez de pensar na oferta. Pena que Logan no tivesse se dado ao trabalho de lhe dizer at quanto gastar.
   - Ainda interessada, sra. Winslow?
   - Poderia estar. Contudo o preo me parece alto. Entretanto, se fossem includos alforjes, cantil e rdeas, eu estaria inclinada a considerar a oferta justa. 
Caso o cavalo no seja to velho quanto eu, claro.
   - A senhora me entristece sugerindo que eu seria capaz de engan-la. O cavalo  jovem e saudvel. Estava guardando-o para mim. Agora, se est disposta a me pagar 
quarenta...
   - No. No posso gastar tanto.
   - Trinta e cinco dlares e nem um centavo a menos.
   Jessie ignorou a mo ossuda e estendida, pronta para embolsar o dinheiro.
   - Quero ver o cavalo primeiro.
   - Claro.  vontade. Tenho dois belos animais no curral l fora. V v-los e volte quando tiver se decidido. Enquanto isso, vou separar seus mantimentos.
   To logo ps os ps fora do armazm, Jessie inspirou fundo, tentando limpar o ar dos pulmes. Ento caminhou depressa at o curral, ansiosa para encerrar a compra.
   - Pelo menos Silas no estava mentindo sobre os cavalos - falou baixinho. - So mesmo animais jovens e fortes.
   O som de sua voz fez com que um deles se aproximasse da cerca. Plo branco, com manchas pretas e irregulares espalhadas pelo corpo. Os olhos do cavalo, lmpidos 
e amigveis, despertou seu interesse. Contudo deveria lembrar-se de que estava escolhendo uma montaria para Logan, no para si.
   O outro, marrom com crina e rabo negros, continuava impassvel sob a rea coberta do curral, dando a impresso de observ-la.
   Mesmo enquanto acariciava o focinho do malhado, Jessie continuava atenta aos movimentos do outro. Quando mais o estudava, mais segura se sentia de que devia lev-lo. 
Mas no antes de examinar os dentes para se certificar de que se tratava mesmo de um animal jovem.
   Infelizmente no havia nenhum outro lugar em Apache Junction onde comprar animais e Logan deveria partir no fim daquele dia. Portanto, s lhe restava arriscar 
e torcer para que acertasse na escolha.
   O cavalo marrom permanecia muito quieto, o que podia ser sinal de doena. Quanto ao malhado, no parecia disposto a abrir mo de sua ateno e relinchava repetidas 
vezes.
   De sbito, o ar se encheu de gritos e um grupo de cavaleiros passou em disparada a alguns metros do curral. Havia um nico local para onde o bando podia estar 
se dirigindo. O saloon, uma construo acanhada, praticamente extenso do armazm. Ainda estava muito cedo para que os homens decentes da cidade se reunissem com 
o nico objetivo de beber.
   Antes de voltar para a loja, Jessie retirou trs das moedas de ouro e guardou-as no bolso da saia. No queria que Silas soubesse quanto, exatamente, lhe sobraria 
depois de ter pago o cavalo. Conhecia o sujeito muito bem. Da prxima vez que voltasse ali, Silas iria querer lhe cobrar mais caro pelos mantimentos e no tinha 
nenhuma inteno de ficar com um dinheiro que no lhe pertencia. Alis, os suprimentos que acabara de adquirir seriam divididos com Logan. Caf, farinha, feijo, 
bacon e acar.
   Ainda assim, ela hesitou junto  porta. Parte de si desejava se apressar, voltar logo para casa e desfrutar os ltimos momentos ao lado do homem que a despertara 
para a vida. A outra parte, contudo, a metade tola e solitria, queria adiar ao mximo a partida dele.
   J no importava quantas noites passara em claro, tentando se convencer de que no desejava Logan. Finalmente conclura que no era muito inteligente mentir para 
si mesma.
   E para ele tambm.
   Arrependia-se de no ter se entregado por inteiro queles momentos em que estiveram nos braos um do outro. Arrependia-se de no haver cedido  tentao. Entretanto 
no fora capaz de superar a firme crena de que era errado dormir com um homem sem as bnos matrimoniais. Logan pensava em partir, no em fincar razes.
   O que no conseguia entender era por que sentia-se incomodada. Nunca antes lhe parecera difcil acatar uma deciso moral, ou fazer uma escolha que julgava a correta 
para seu prprio bem e ento dar o caso por encerrado. Mas nunca encontrara um homem como Logan antes.
   Gritos e risadas masculinas vindas do saloon interromperam o curso de seus pensamentos. Apesar de apreensiva, obrigou-se a entrar.
   Silas no estava atrs do balco e sim, sua mulher, ndia.
   - Voc paga. Depois vai embora depressa.
   A voz da mulher, assim como os olhos escuros, no revelavam nenhuma emoo.
   Rapidamente Jessie verificou se seu pedido estava completo. Depois checou a soma total.
   - Vou precisar de troco - ela falou, colocando duas moeda de vinte dlares sobre o balco. - Por favor, diga a Silas que quero o cavalo marrom. Ele me prometeu 
uma sela, rdeas e alforjes.
   Outra exploso de risadas a fez olhar por sobre o ombro e ento de volta para a ndia. Se fosse uma gata, estaria com o plo eriado, pressentindo problemas.
   - E diga a Silas que estou com pressa, por favor.
   Por um longo instante a ndia a fitou em silncio, os olhos escuros impenetrveis. Ento deu-lhe as costas e foi atrs de Silas.
   Sozinha no armazm, Jessie lembrou-se de que Logan iria precisar de um bule de caf. Disposta a sair logo dali, percorreu as prateleiras tentando encontrar algo 
adequado para viagem. Ao se aproximar do corredor que ligava a loja ao saloon, ficou chocada ao escutar os gracejos rudes que os homens dirigiam  mulher de Silas 
e descobriu-se esperando-o silenci-los. Porm vrios minutos se passaram sem que a voz do comerciante se erguesse em protesto. Como Silas podia deix-los discutir 
sobre quem se deitaria com a ndia primeiro?
   Sabendo que no podia fazer nada, e muito menos interferir, Jessie escolheu um bule e levou-o para o balco.
   De repente o ar ao seu redor tornou-se ftido. Cheiro tpico de um corpo imundo.
   O instinto feminino a avisava de que devia correr, fugir dali. Infelizmente suas pernas recusavam-se a mover.
   Ao sentir uma mo toc-la no ombro, teve vontade de que o cho se abrisse sob seus ps, ou que pelo menos tivesse foras suficientes para se afastar.
   - No vou machuc-la, pequena lady. Quero apenas um pouco de diverso. Vire-se para que eu possa ver o que tem a me oferecer.
   A voz do homem soava pastosa. Por que no conseguia dar uma daquelas suas respostas insolentes com que costumava brindar Logan? O fato  que em nenhum momento 
sentira medo de Logan, mas esse homem a apavorava.
   Permanecer de costas serviria apenas para irrit-lo ainda mais e deveria evitar isso a qualquer custo. Trmula, obrigou-se a virar-se.
   Olhos claros e sem vida a mediram de alto a baixo, um sorriso nojento mostrando dentes sujos.
   Armando-se de um resto de coragem, Jessie deu um passo para trs, espremendo-se de encontro s prateleiras. A proximidade do rosto gorduroso era mais do podia 
suportar.
   - Silas? - chamou baixinho.
   - Ele est ocupado, pequena dama. 
   - Zach, onde voc se meteu?
   - Venha ver o que encontrei para ns, Billy Jack. 
   - No. Voc no encontrou nada, senhor. Afaste-se.
   Apesar de tentar falar com firmeza, a voz dela no passava de um sussurro.
   Em questo de segundos um outro homem a fitava, sorrindo sastisfeito.
   - Ah, caramba, enfim uma mulher que vale a pena possuir.
   Jessie corou violentamente, porm no de raiva e sim da mais profunda vergonha. Nunca homem algum a tinha olhado daquela maneira indecente, como se a despisse. 
Desconcertada, virou a cabea para o lado.
   - Ah, Zach, voc  um verdadeiro amigo ao partilhar essa gostosura comigo. Um brinde  nossa amizade! - Billy Jack ergueu a garrafa e bebeu do gargalo at se 
fartar.
   Enojada, ela viu o usque escorrer pelo queixo barbado, notando as crostas de sujeira no pescoo e sob as unhas do homem.
   Onde estava Silas? No era possvel que o comerciante no soubesse o que acontecia dentro da prpria loja. Embora quisesse acreditar que aqueles dois pretendiam 
apenas assust-la, o brilho nos olhos do sujeito chamado Billy Jack a enchia de pavor.
   Zach estendeu a mo para toc-la e Jessie o empurrou. Billy Jack aproveitou o momento de distrao para lhe arrancar o chapu da cabea.
   - Nunca vi cabelos assim. Solte-os para mim, senorita. Solte-os agora.
   Num movimento instintivo, Jessie tentou pegar o chapu de volta. Somente ento se deu conta de que essa era exatamente a inteno de Billy Jack: afast-la do 
canto, onde se refugiara junto s prateleiras.
   Billy Jack a desafiou a recuperar o chapu, os olhos injetados parecendo saltar das rbitas. Jessie abaixou o olhar para esconder o medo, reparando no cinto com 
fivela de prata que aquela criatura nojenta usava. Ento, instigada pelo dio, tentou apanhar o chapu, desesperada para fugir dali.
   - Ah, que senorita corajosa! - Fazendo uma mesura debochada, acrescentou: - Bebo  sua coragem! - Novamente Zach levou o gargalo  boca, sem no entanto deixar 
de fit-la.
   Jessie sentiu uma presena ameaadora atrs de si. Numa reao instintiva, lanou a mo que ainda segurava o bule de caf para trs, exultando ao perceber que 
atingira o alvo. Zach gritou de dor e a agarrou pelos cabelos com fora. O bule caiu no cho, o barulho estridente ressoando no silncio repentino que se seguiu. 
Billy Jack se aproximou, sorrindo triunfante. A viso daquele rosto e o cheiro hediondo a fizeram fechar os olhos
   - Abra os olhos, senorita. Vamos beber um pouco e meu amigo tocar uma msica para ns. Voc vai danar comigo, no?
   Sentindo-se  beira das lgrimas, Jessie cerrou os lbios, lutando para no chorar. Zach continuava mantendo-a presa pelos cabelos e a dor, misturada ao medo, 
quase a impedia de respirar.
   Billy Jack a segurou pelo queixo.
   - Abra os olhos. - Ao ver sua ordem ignorada, ele levou a garrafa  boca de Jessie, forando-a a engolir o usque barato.
   Ela tentou resistir, porm ficou imvel ao perceber que seus movimentos serviam apenas para que os corpos asquerosos dos dois homens roassem no seu. As risadas 
masculinas foram mudando de tom, tornando-se mais ameaadoras. Balanando a cabea de um lado para o outro, Jessie conseguiu empurrar o gargalo para longe, entretanto 
no pde evitar que parte do lquido casse sobre sua roupa.
   De sbito, os dedos grosseiros de Billy Jack arrancavam-lhe dois botes da blusa, expondo o corpete de algodo.
   - Blackleg! - Billy Jack berrou. - Pegue a gaita e toque para ns. A linda senorita vai danar para mim.
   Puxando-a pelos cabelos, Zach comeou a arrast-la na direo do saloon. Jessie temeu desmaiar, de tanto pavor. J no tinha esperanas de que Silas tomasse qualquer 
atitude para proteg-la. Ento a presso sobre seus cabelos diminuiu. Por um breve instante achou que o tormento chegara ao fim, que seria solta. No instante seguinte, 
a mo de Zach segurava-lhe o seio. Tentou gritar, porm lbios nojentos se apossaram dos seus.
   Nauseada, manteve a boca fechada, resistindo  presso da lngua spera. Subitamente, Zach interrompeu o beijo e a puxou para dentro do saloon.
   O homem tocando a gaita iniciou uma melodia animada. A ndia, sentada no colo de outro, no ergueu os olhos para fit-la.
   - Se voc permitir que eles continuem com isso, Silas, farei com que todas as pessoas de bem dessa cidade se unam para coloc-lo fora daqui.
   - Se voc ainda estiver viva para falar - Zach sussurrou junto ao seu ouvido.
   Quando Billy Jack deu um passo na sua direo, um homem, que estivera sentado no canto do saloon levantou-se, jogando a cadeira para trs. Depois de falar alguma 
coisa em espanhol para Billy Jack, e no ser atendido, deu-lhe um empurro violento, atirando-o sobre o balco. Depois virou-se para Zach.
   - Saia j daqui. Sozinho.
   A msica parou.
   Monte evitava fitar a mulher. Sabia que no lhe restava escolha. No queria mat-la e seria exatamente o que acabaria acontecendo se a situao fugisse ao controle. 
Ter metade de uma cidade ao encalo de seu bando para vingar a honra de uma mulher seria pssimo negcio. O chefe ficaria furioso por haverem despertado tanta ateno. 
Por outro lado, negar a Billy Jack o que ele desejava podia ser ainda pior.
   Tirando o charuto da boca, Monte decidiu-se. Com duas passadas largas, aproximou-se da mulher.
   - Senhora, sinto muito por tudo o que aconteceu. Meus rapazes se excederam um pouco ao tentar se divertirem.
   - Rapazes - Jessie repetiu, num tom baixo e irado, livre do medo paralisante. - No so rapazes. So animais. Deviam estar trancafiados numa...
   - Calma, a senhora est apenas um pouco agitada...
   - No estou nem um pouco agitada, senhor. Estou furiosa. Aqueles homens me atacaram.
   - Vamos, sra. Winslow - Silas interveio -, no exagere. Afinal, ningum a feriu.
   Jessie fitou a ndia, percebendo resignao nos olhos tristes e escuros.
   - Voc no seria capaz de saber o que fere uma mulher, seu porco imundo.
   - Ei, espere um instante. A senhora no tem motivos para falar comigo assim. Alm de tudo, o sr. Wheeler os fez parar antes que qualquer mal fosse feito.
   Trmula, Jessie se recusou a ceder. No permitiria que Silas e o desconhecido se safassem to facilmente.
   - Nenhum mal foi feito? Peo licena para discordar. Minha blusa foi rasgada e cheiro a bebida. Alm de colocarem as mos nojentas em mim, disseram-me coisas 
vergonhosas. E voc ainda acha que nenhum mal foi feito? Deixe-me lhe dizer algo, Silas. As pessoas da cidade no acharo graa quando souberem que fui atacada dentro 
da sua loja.
   Monte segurou-a pelo brao com fora, a voz soando baixa e controlada.
   - Oua o que vou lhe dizer e preste muita ateno. Vou reembols-la pelo estrago das roupas e pagar por tudo o que veio comprar aqui. Depois ento v embora e 
fique de boca fechada, ou soltarei Billy Jack nos seus calcanhares. Entendido?
   Antes que Jessie pudesse responder, um homem entrou no armazm, chamando por Silas. Era David.
   - Estou aqui - Silas gritou do saloon, fitando-a com um sorriso desdenhoso.
   Tudo o que Jessie desejara era que algum a salvasse daquela situao medonha. Ignorando Monte, que continuava a segur-la pelo brao, voltou-se para David. Porm 
o rosto simptico, sempre to tranqilo, tinha uma expresso horrorizada diante de seu aspecto desalinhado. Antes mesmo de ouvi-lo dizer uma nica palavra, teve 
certeza de que no obteria ajuda. Mas quem poderia culp-lo? David no era preo para esses homens. E nem sequer carregava uma arma.
   - Jessie? O que est acontecendo aqui? O que voc est fazendo com esses homens? - Cauteloso, ele deu um passo  frente. 
   - Meu Deus, voc andou bebendo!
   - E seu marido? - Monte perguntou.
   Ela mal teve foras para balanar a cabea de um lado para o outro. Era humilhante ouvir David negar, de maneira to enftica, qualquer ligao entre ambos. Agora 
j no precisava se preocupar se devia, ou no, aceitar o pedido de casamento. Ele, muito provavelmente, no iria desej-la para esposa.
   - Senhor - Monte comeou, ainda segurando Jessie. - Se tem negcios a tratar com Silas, faa-o na loja e deixe a dama comigo e meus amigos.
   - Mas, Jessie...
   - Vamos, David. - Silas o apressou.
   Por alguns instantes Jessie continuou a fitar David. No gostaria de v-lo se ferir num confronto com esses arruaceiros. Todavia doa-lhe notar a passividade 
com que enfrentara a situao, nem mesmo se dando ao trabalho de pedir explicaes. Ser que ele a tinha em to baixa conta que a acreditava capaz de apreciar a 
companhia de tipos suspeitos? Se fosse Logan quem houvesse entrado por aquela porta, estava certa quanto  reao dele. Logan no perderia tempo lhe fazendo perguntas. 
Tampouco acreditaria nas aparncias. Monte j estaria cado no cho e os outros... Oh, Deus, precisava parar de sonhar.
   - Voc no respondeu  minha pergunta, lady - Monte falou, assim que Silas e David saram.
   - Eu s quero ir embora daqui.
   - Ainda no. Quero a sua palavra de que no causar problemas. Embora eu creia que no haja motivos para preocupao se todos os homens dessa cidade forem to 
covardes quanto esse tal de David.
   Jessie nada respondeu. J no fazia sentido.
   - Se for uma mulher inteligente, lady, esquecer o assunto. Afinal,  comum um homem perder a cabea depois de beber um pouco e estar perto de uma mulher bonita. 
No se pode culp-lo.
   - Por favor, quero somente apanhar minhas compras e ir embora. Apenas mantenha aqueles homens longe de mim.
   O som de passos se afastando chamou-lhe a ateno. Qualquer que fosse a concluso a que David chegara, ele parecia ter se decidido. Pisando firme, saiu da loja 
sem ao menos lhe lanar um olhar.
   - Silas, d a esta mulher o que ela quiser. Eu pagarei a conta - Monte falou, soltando-a afinal.
   A msica recomeou e Jessie ignorou a voz de Silas chamando-a de tola por no aceitar a oferta do sr. Wheeler para cobrir seus gastos. Com os olhos fixos num 
ponto indeterminado, ela se lembrou de que o sujeito chamado Billy Jack usava um cinto com fivela de prata, com a letra L gravada. Podia ser a inicial do sobrenome, 
mas tambm podia ser o cinto de Logan. Logan dissera que estava sendo procurado. Era bem provvel que esses fossem os homens que lhe haviam dado um tiro e o abandonado 
para morrer, depois de roub-lo.
   Precisava sair dali o mais depressa possvel. Contudo Silas tinha razo. Estava sendo uma tola em no permitir que lhe pagassem a conta.
   - Voc acabou me convencendo, Silas. Quero um bule de caf, uma corda e... aquele chapu. Quero o chapu preto tambm.
   - Mas a senhora j tem um chapu... 
   - Quero um novo.
   - O preto  muito grande, no vai lhe servir.
   - Vou lev-lo assim mesmo. Quero duas blusas e uma bandana vermelha. - Observando Silas correr de um lado para o outro para separar a mercadoria, Jessie procurava 
se manter calma. Se conseguisse no pensar no que lhe acontecera momentos antes, talvez no sucumbisse s nuseas.
   Quando Silas voltou com as blusas e a bandana, Jessie acrescentou:
   - E duas garrafas de usque.
   - Usque? A senhora quer...
   - Para fins medicinais.
   O chapu preto de fato era muito grande e cobria-lhe as sobrancelhas, entretanto o manteve na cabea enquanto aguardava Silas selar o cavalo marrom. Prometera 
a si mesma no chorar e encontraria uma maneira de no dizer nada a Logan.
   - Nunca aconteceu uma coisa dessas na minha loja antes. A senhora deve ter feito algo para atrair a ateno daqueles homens.
   Fitando-o como se ele fosse um verme, Jessie deixou os sentimentos pessoais de lado. Seria mais interessante obter informaes.
   - Esses sujeitos j haviam vindo aqui antes?
   - Uma, ou duas vezes. As mulheres da cidade no costumam entrar no armazm quando vm seus cavalos do lado de fora. Isto , mulheres inteligentes. As decentes, 
que no esto tentando agarrar um homem a qualquer custo.
   - Mulheres inteligentes? Ou mulheres conscientes de que falta coragem dos seus homens?
   - No vou discutir esse assunto. Quer que eu agradea ao sr. Wheeler em seu nome?
   - Diga a ele para ir para o inferno. E que o lugar de seus rapazes  no estbulo.
   Claro que Silas no iria repetir nem uma de suas palavras. Montando em Adorabelle, ela tomou as rdeas do cavalo marrom e partiu.
   Durante todo o trajeto para a casa, Jesse conseguiu se manter firme, embora sentisse nojo de si mesma. Todavia, ao desmontar, caiu de joelhos, vencida pela nusea.
   Como poderia encarar Logan? Estava suja por dentro e por fora. Num mpeto, tirou a blusa rasgada e o corpete, escondendo-os sob uma pedra. Ento vestiu uma das 
blusas novas. Pelo menos o tecido spero no tinha o cheiro horrvel da bebida.
   - Fins medicinais o diabo - ela murmurou, apanhando uma garrafa de usque. Algum lhe dissera que o lcool proporciona uma falsa sensao de coragem. No importava 
que tipo de coragem era. Precisava apenas de algo que a ajudasse a encarar Logan e mentir sem vacilar.
   
   
   CAPTULO IX
   
   Logan se valeu da simples lei da sobrevivncia para localizar o garoto. Todo ser vivo depende de trs coisas. Agua, comida e abrigo contra os predadores.
   L pelo meio da manh, ele descobriu um pequeno riacho e o seguiu at a nascente. O som suave da gua correndo sobre as pedras acalmava-lhe a agitao, fazendo-o 
pensar em Jessie. Se o velho Santo, mais um pai do que guardio dos trs irmos Kincaid, a conhecesse, certamente iria descrev-la como uma mulher e tanto. E no 
havia como discordar. Entretanto, o encanto de Jessie no se resumia ao corpo exuberante, ou  fora de vontade frrea. Quisera ter mais tempo para explorar os sentimentos 
que ela despertava em seu ntimo.
   Porm no era homem dado a desejar o que no podia ter. Melhor se preocupar com os problemas imediatos. Observando a terra mida junto s margens do riacho, Logan 
notou pegadas de dois pares de ps. A vegetao densa oferecia uma certa variedade de esconderijos perfeitos. Havia tambm uma piscina natural, a grama ao redor 
dando a impresso de ser constantemente pisoteada. Tampouco lhe passou despercebido um montinho de pedras brancas, arredondadas e lisas, o tipo preferido dos garotos 
para fazer deslizar sobre a gua. Lembrava-se de como ele e os irmos, ainda meninos, gostavam de apostar sobre quem seria capaz de lanar a pedra mais longe.
   Ty, o caula, sempre fora impaciente, alis, bastante semelhante a ele prprio. Entretanto Conner nunca se afobara. Chegava a deix-los exasperados com aquela 
sua demora em selecionar a pedra perfeita, depois escolher o lugar onde devia se posicionar e at estudar a direo do vento. Somente ento atirava a pedra. E, em 
geral, vencia.
   De repente Logan sentiu cheiro de peixe frito e soube estar na trilha certa.
   Tendo o cuidado de manter-se escondido no meio da vegetao, observou os arredores, avanando lentamente. Duas carroas descansavam sob uma rvore de copa frondosa. 
No havia sinal de cavalos. No centro do acampamento, uma fogueira ardia, cozinhando as duas trutas colocadas dentro da frigideira de ferro. O aroma delicioso fez 
sua boca se encher de gua. Muito tempo se passara desde que pescara pela ltima vez. Tempo demais.
   Nada ali levava a crer que se tratava de um acampamento recente. As folhas secas estavam cuidadosamente amontoadas num canto, um machado descansava sobre uma 
tora e duas cadeiras de balano, lado a lado, pareciam aguardar seus ocupantes a qualquer momento. Entre duas rvores, uma corda estendida com algumas poucas peas 
de roupas secando ao sol.
   O que Logan no viu foi sinal do garoto. As trutas estavam prontas para serem consumidas. Se algum as deixara ali no fogo, a ponto de queimar, s podia ter sido 
por um bom motivo. De repente, antes mesmo de ouvir o rudo de um graveto sendo pisado, Logan soube ter sido pego.
   - Levante-se devagar, senhor.
   Sentindo o cano de um rifle s suas costas, no teve escolha.
   - Calma, no tenho inteno de feri-lo. Eu queria apenas...
   - No tem importncia. Jogue sua arma no cho. E lembre-se de que o estou observando.
   - Garoto, quando um homem vem lhe fazer uma visita amistosa, no deve ser recebido com balas.
   - No vi sinal de que a sua seria uma visita amistosa. Voc se aproximou s escondidas, como se quisesse nos surpreender.
   - "Nos surpreender?" - Ento havia algum tomando conta do menino.
   - Foi o que eu disse. E continuo esperando-o jogar a arma no cho.
   Logan acatou a ordem, embora pudesse ter subjugado o garoto facilmente. Porm, queria provar que no pretendia lhe fazer mal.
   - E agora?
   - Agora d um passo  frente. E lembre-se de que estou logo atrs. - Kenny limpou o suor da testa num gesto rpido e nervoso. Ainda bem que o homem no se virara, 
ou teria visto o quanto estava nervoso. Marty se escondera e, com certeza, no iria aparecer.
   Parado no meio da clareira, Logan olhou ao redor, o cheiro delicioso do peixe aumentando a sensao de vazio no estmago.
   - O peixe vai queimar se no o tirar do fogo. E como acatei suas ordens, por que no me diz seu nome?
   - Qual  o seu?
   - Logan. Voc no pode pensar que eu seria capaz de feri-lo depois de ter salvo minha vida.
   - Cautela nunca  demais. Alm de tudo, vi os homens que estavam na sua companhia. Eu no confiaria em nenhum deles, mesmo se me pagassem.
   - No estou lhe pedindo para confiar em ningum, alm de mim. E na sra. Winslow. Jessie  o nome dela. Jessie Winslow, a viva com quem voc tem feito... ah, 
comrcio.
   - O que voc veio procurar aqui?
   - Ajuda. Vou ter que partir e me sentiria muito mais tranqilo se o soubesse atento aos movimentos de Jessie. Voc disse ter visto pessoas estranhas nas rendondezas. 
Portanto, pode entender por que estou preocupado em deix-la s, sem um homem para proteg-la.
   - No sou um homem.
   - Talvez no em tamanho, ou em idade, garoto. Mas eu ficaria orgulhoso em cham-lo de amigo. Foi um gesto admirvel o seu. Ter cuidado de mim e me levado para 
a casa de Jessie.
   - Bem... Ns o estvamos enterrando quando voc comeou a gemer. Quase me matou de susto.
   - Vocs estavam me enterrando! - Por Deus, estivera muito mais prximo da morte do que imaginara. Enterrado? Deus do cu!
   - Foi o que eu disse. No poderamos deix-lo para os abutres. As pessoas no foram feitas para servir de comida s aves de rapina.
   - Ento devo lhe agradecer em dobro. E continuo querendo saber seu nome. No posso lhe agradecer de maneira adequada a menos que saiba como cham-lo. No  possvel 
que esteja fugindo da lei, no ?
   - Como voc? No. No estamos fugindo de ningum. Acho que posso lhe dizer meu nome.  Kenny.
   - Prazer em conhec-lo, Kenny. Agora que j sabemos o nome um do outro, ser que posso me sentar? Foi uma longa caminhada desde o chal e estou com muita sede. 
Ficar aqui de p, sentindo o cheiro delicioso do peixe tambm no ajuda nada. Seu pai ir se incomodar com minha presena?
   - Meu pai est morto.
   - Desculpe-me, garoto. O meu tambm. - A pergunta era previsvel, considerando as circunstncias. Mas Logan no tinha idia por que falara sobre o prprio pai.
   - Acho que pode se sentar ali adiante, perto daquela rvore. Daqui posso mant-lo sob vigilncia.
   - Cheio de suspeitas, no ? - Logan murmurou, sentando-se no cho. No mentira quando dissera estar com gua na boca, por causa do aroma delicioso do peixe, 
porm tinha certeza de que no seria fcil conquistar a confiana do menino. Nunca conhecera uma criana to desconfiada. Entretanto era isso mesmo o que tornava 
Kenny perfeito para proteger Jessie. No que Jessie no fosse capaz de cuidar de si mesma. Afinal, ela havia se sado muito bem at ento. Contudo, no podia se 
esquecer de que Zach estivera rondando o chal. Se o dever o obrigava a afastar-se dali, Kenny era a nica pessoa com quem podia contar.
   - No vou a lugar algum. Pode abaixar a arma. Talvez devesse ir chamar sua me?
   - Ela tambm morreu. No tenho famlia, no tenho ningum. Exceto um parente.
   - Ento voc tem mais do que Jessie. Ela est completamente s. Acho que no podemos contar a gua e as galinhas, no ? - Outra vez Logan olhou ao redor, tentando 
descobrir o paradeiro do tal parente. Seria uma mulher, talvez?
   Notando que as trutas estavam  beira de queimar, Kenny apanhou um trapo e retirou a frigideira do fogo. Marty devia estar faminto tambm. Todavia, o garotinho 
s iria aparecer se o chamasse e o assegurasse de que no havia perigo. Esse Logan falava olhando a pessoa nos olhos, como se no tivesse nada a esconder. Sua me 
apreciara gente assim.
   Logan ficou em silncio, sentindo que Kenny o estudava, tentando se decidir se confiava nele ou no.
   - Voc realmente  um menino corajoso, Kenny. Poucos teriam se dado ao trabalho de fazer por mim o que voc fez. Eu gostaria... - Ele colocou a mo no bolso e 
ento se lembrou de que deixara todo o dinheiro com Jessie. - Oua, quando Jessie voltar da cidade, eu lhe darei algo para mostrar minha gratido.  Mas prometo-lhe 
que irei recompens-lo de uma outra maneira tambm.
   - No quero nada. Tenho tudo de que preciso aqui. 
   Durante um longo instante, Logan fitou o menino. Os cabelos castanhos chegavam  altura dos ombros, havia um rasgo numa das mangas da camisa e a cala fora remendada. 
Os olhos escuros, que revelavam uma vivncia muito alm de seus anos, nunca deixavam de observ-lo, de uma maneira quase desconcertante.
   - Eu vou conhecer... seu... ah, parente tambm?
   - Sim. Meu primo. Acho que voc  um homem de bem, julgando pelas coisas que minha me dizia. Marty! - ele gritou. - Pode sair. Ele no vai nos machucar.
   - Obrigado, Kenny - Logan falou sincero.
   - De nada. Venha, Marty. E traga PeeWee com voc.
   - PeeWee? - Ao ouvir um rudo vindo de uma das carroas, Logan virou-se. Um garotinho estava descendo, tendo uma longa tira de pele enrolada em volta do pescoo. 
- Ento esse  seu primo? - As implicaes do fato o atingiram com a fora de um raio. Ento essas duas crianas... esse menininho magrinho e Kenny... - Deus, pensei 
que o parente a quem voc estava se referindo era um adulto.
   - Marty e eu estamos bem assim. Eu tomo conta dele muito bem. E temos PeeWee.
   - Ah, sim, PeeWee. E o que ...?
   - Mostre a ele, Marty. Vamos, aproxime-se e deixe-o ver. - Virando-se para Logan: - Se voc for muito cuidadoso, poder at lhe dar carinho.
   Observando Marty, Logan concluiu que o pequenino no podia ter mais do que cinco, ou seis anos. Assim como Kenny, tinha a pele muito clara, mas os cabelos, tambm 
at os ombros, eram to louros que pareciam brancos.
   - Est tudo bem, Marty. Pode se aproximar de mim. Prometi a Kenny que no lhes faria mal e gostaria de dar uma boa olhada em PeeWee.
   Marty deu um passo  frente, ainda cauteloso.
   - PeeWee  um furo - Kenny informou a Logan. - Ele pode subir em rvores e corre to depressa, que  impossvel segui-lo. Tambm se mete nas tocas dos coelhos 
e os obriga a sair.  feliz conosco porque o mantemos limpo e aquecido.
   Logan passou a mo de leve sobre as costas do furo. Com uns noventa centmetros de comprimento, uma mscara de plos pretos na cara e ps tambm pretos, muito 
se assemelhava a uma fuinha.
   - Mas ele gosta de pescar e de caar camundongos tambm.
   - E de-de esquilos - Marty acrescentou.
   - No se importe porque Marty est gaguejando. Ele sempre gagueja quando est excitado, ou amedrontado - Kenny o informou.
   Quanto mais tempo Logan passava na companhia de Kenny, mais o admirava.
   - Fico sa-satifeito que voc est me-melhor. Qual  o nome dele? - Marty perguntou, virando-se para o primo.
   - Meu nome  Logan. E quero lhe agradecer por ter salvo minha vida.
   - No podamos fazer outra coisa. Tambm foi bom ver a viva chorando de felicidade ao descobri-lo na porta da casa.
   Jessie chorando de felicidade? No, com certeza, no. Ela provavelmente chorara de pura frustrao ao encontr-lo na soleira da porta.
   -  melhor voc colocar PeeWee de volta na gaiola antes de comermos, Marty. Ele j se alimentou bastante. Portanto, no fique me olhando com essa cara de tristeza.
   Para surpresa de Logan, Marty obedeceu ao primo sem retrucar. O que aumentava seu medo de que as crianas estivessem mesmo completamente ss.
   - Kenny, acho que voc deveria me contar o que aconteceu com seus pais.
   - J lhe disse que esto mortos.
   - Mas quando morreram? Como?
   Kenny retirou as trutas da frigideira e as dividiu, cuidadosamente, em trs pores iguais, arrumando-as em pequenos pratos.
   - Tudo o que temos para beber  gua - anunciou, ignorando a pergunta que ficara sem resposta.
   - Est timo assim. - Logan odiava pressionar o menino, porm o tempo era curto e recusava-se a ir embora dali sem as respostas de que precisava. - H quanto 
tempo voc e Marty vivem aqui?
   - No tenho muita certeza. Acho que uns trs, ou quatro meses.
   - De onde vocs vieram?
   - Voc realmente faz um monte de perguntas. Bem, viemos do Kansas, no  verdade, Marty?
   A resposta do garotinho foi um rudo ininteligvel, ocupado que estava em devorar o peixe.
   - Talvez seja doloroso falar sobre o assunto, mas eu gostaria de saber como vocs dois terminaram aqui, sozinhos. No tm parentes no Kansas? Eu poderia mandar 
um telegrama para que algum venha busc-los.
   - Marty e eu no temos nenhum parente. - A voz de Kenny soou fria e determinada. - Somos apenas ns dois e ningum ir nos separar.
   - Calma, no pretendo tomar nenhuma atitude capaz de separ-los. Estou perguntando apenas porque quero ajud-los.
   - No estamos pedindo nenhuma ajuda a ningum.
   - Garoto, vejo que ningum tem posto um freio nessa sua lngua h algum tempo - Logan falou, elevandoa voz. - Estou aqui agora e pretendo ajud-los. Em troca, 
vocs me ajudaro. - Percebendo os olhos de Marty se encherem de lgrimas, conteve-se. 
   - Eu no deveria ter gritado.
   -  verdade. No deveria mesmo. - Kenny foi se sentar ao lado do primo. - Marty fica muito assustado quando algum grita. Portanto, no torne a faz-lo ou ter 
que ir embora.
   -  melhor ter cuidado para que os apaches no o peguem, Kenny, ou acabaro transformando-o num guerreiro.
   - J tive um encontro com eles, quando roubaram nossos trs cavalos, a vaca leiteira, as galinhas e os porcos. No voltaram desde ento. - Kenny serviu o primo 
de gua antes de beber.
   Tudo em que Logan conseguia pensar agora era em como Kenny o fazia lembrar de seu irmo mais velho. Conner, o Vigia, Ty e ele costumavam cham-lo s escondidas. 
Porm, observando Kenny cuidar do primo, entendera o que Santo tentara explicar, anos atrs. Conner fora obrigado a se tornar homem antes de ter chance de ser menino. 
Santo e Sofia tinham visto os trs irmos Kincaid nascer e ajudado sua me a tomar conta da famlia e da fazenda aps a morte do marido. Logan sabia que tivera a 
sorte de ser rico, e no apenas materialmente. Crescera rodeado de afeto e da presena de pessoas que lhe queriam bem. Muito mais do que esses dois meninos haviam 
tido.
   De repente, foi tomado por uma necessidade intensa de estar em casa, rodeado daqueles a quem amava. Todavia no partiria enquanto no terminasse o que comeara 
pela manh.
   - Voc j acabou de comer, Logan?
   - Claro, garoto. Estou satisfeito. H tempos no experimentava um peixe to gostoso assim.
   Antes que Kenny lhe desse as costas, Logan notou um sorriso de satisfao iluminar o rosto magro. Depois de entregar os pratos ao primo, lembrando-o de que era 
sua vez de lavar os utenslios, ele o mandou enterrar as sobras.
   - E cave o buraco bem fundo desta vez, Marty. No queremos animais rondando o acampamento novamente.
   Assim que Marty tomou o rumo do riacho, Kenny sentou-se junto de Logan.
   - Estive pensando... Se voc vai partir, quem tomar conta da viva? Marty e eu imaginamos que voc e ela...
   - Um momento. Vamos terminar de discutir seu caso antes de falarmos sobre Jessie. Voc vai me contar o que se passou, no?
   - No h razo para me calar. S no queria dizer muito na frente de Marty. Ele ainda tem pesadelos. s vezes chora.
   - Ento Marty tem muita sorte por poder contar com seu apoio. - Mas quem o conforta quando voc tem pesadelos, garoto?
   - Quando chegamos aqui, papai achou que seria um bom lugar para passarmos alguns dias. Ele estava pensando em comprar um pedao de cho, depois que o governo 
fez... essa... essa espcie de lei.
   - A Lei de Ocupao do Deserto. A idia atraiu centenas de colonos para o territrio do Arizona com a promessa de poderem comprar seiscentos e quarenta acres 
por vinte e cinco centavos. O que ningum contou aos coitados era que os apaches j habitavam essas terras muito antes de o primeiro homem branco pr os ps nesse 
pas e que no pretendiam abrir mo do que julgavam seu, por direito, sem lutar.
   - Meu pai no sabia disso. O pai de Marty muito menos. Ns estvamos aqui h uns trs, quatro dias, quando papai descobriu um brilho dourado num dos canyons da 
regio. Foram todos procurar ouro. Marty e eu levamos PeeWee para um passeio perto do riacho. A tempestade desabou. Nunca tnhamos visto algo assim. Ficamos apavorados 
e nos escondemos sob uma rocha. A chuva e os troves no paravam. O cu ficou negro. Nunca tnhamos visto nada assim - Kenny repetiu, balanando a cabea. - Ficamos 
escondidos durante horas. De repente a tempestade passou e estava muito escuro. Ningum veio nos procurar. Acabamos ficando onde estvamos at a manh seguinte.
   Logan no resistiu ao impulso de tomar as mos de Kenny entre as suas.
   - No precisa dizer mais nada. Seus pais foram pegos de surpresa no canyon e no conseguiram sair quando o nvel da gua subiu.
   Kenny desviou o olhar, mas no retirou as mos. A voz no passava de um sussurro agora, carregado de emoo e angstia.
   - No foi fcil enterr-los.
   - Na minha maneira de pensar, um homem que no sente tristeza ao perder aqueles a quem ama, no merece ser chamado de homem. No se envergonhe de suas lgrimas. 
Eu no era muito mais velho que voc quando meu pai morreu. Tive sorte por ainda contar com minha me e outras pessoas queridas. L estvamos ns, meus irmos e 
eu, tentando esconder nossa dor. At que, um dia, encontrei Santo, no apenas empregado, mas um grande amigo de meu pai, chorando enquanto escovava o cavalo de meu 
pai e dizendo o quanto sentia falta dele. Aprendi uma lio naquele dia atravs de um homem a quem respeitava. Alis, todos ns aprendemos. Santo no se tornou menos 
homem aos nossos olhos por no ter medo de expressar seus sentimentos. Pelo contrrio. Entretanto, aposto que  algo difcil de fazer quando se tenta ser forte porque 
algum mais fraco necessita de ns.
   - No  justo - Kenny murmurou, tentado a confiar seus sentimentos mais ntimos.
   - A vida no  justa, filho. Uma lio dura de aprender e que permanece com um homem para sempre. Mas meus problemas e os seus podem ter uma soluo conjunta. 
Tudo de que preciso  de sua palavra que, pelo menos, tentar.
   Kenny retirou as mos e virou-se para Logan.
   - Marty, pare de nos espiar e venha se sentar aqui. No vou decidir isso sem voc.
   - Puxa, como voc sabia que eu estava escondido, espiando-os? No fiz barulho nenhum.
   -  apenas uma questo de instinto. Quando voc ficar mais velho, tambm ter seu instinto aguado. Agora sente-se.
   Logan disfarou um sorriso. Podia apostar que Kenny seria um homem e tanto quando crescesse.
   - E ento? - Kenny perguntou, passando um brao ao redor dos ombros de Marty. - Diga-nos o que tem em mente.
   - Kenny, voc prometeu que ia lhe perguntar primeiro. 
   - Perguntar o qu? - Logan indagou, olhando de um para o outro.
   - Aqueles homens que o abandonaram  morte eram bandidos, no eram? E se o so, voc tambm deve ser um deles.
   - E uma pergunta, ou uma afirmao, Kenny?
   - Um pouco das duas coisas, acho. Confio em voc, mas preciso saber com certeza. Por causa de Marty. Sou grande o bastante para tomar conta de mim, porm Marty 
 pequeno. No posso correr o risco de deix-lo ser ferido.
   Momentos duros haviam feito daquele garoto um homem sbio em seus poucos anos. Era tocante a maneira como colocava a segurana do primo em primeiro lugar, acima 
das prprias necessidades. Entretanto a pergunta o deixava num beco sem sada. Se mentisse, arriscava-se a perder a confiana de Kenny. Se dissesse a verdade, poderia 
estar colocando os dois meninos em perigo, caso Monte e os outros aparecessem nas redondezas.
   - Qual  o problema, Logan? Acabei deixando-o entre a cruz e a espada?
   - Voc no imagina como. Vou lhe dizer o que posso, na esperana de que confie em mim.
   - Marty, voc acha que devemos ouvi-lo?
   Colocando o polegar na boca, Marty concordou com um aceno de cabea.
   - Ento fale.
   Logan no levou muito tempo expondo seu plano. Kenny o interrompia com freqncia, determinado a esclarecer todos os detalhes. Quando enfim deu-se por satisfeito, 
Kenny tomou Marty pela mo e os dois se afastaram para discutir o assunto em particular.
   Observando-os  distncia, Logan descobriu que seu respeito por Kenny e a pena que sentia do pequeno Marty haviam se transformado num desejo enorme de proteg-los. 
Queria poder lev-los para Rocking K. Sua me adoraria ter crianas por perto outra vez. Talvez assim ela deixasse de atorment-lo, e aos irmos, com aquela histria 
de que estava na hora de lhe dar netos. Mas agora era impossvel cuidar dos meninos. Antes precisava cumprir a promessa que fizera a Conner. Alm de ter contas a 
acertar com Monte e os outros.
   - J decidimos - Kenny o informou, aproximando-se. - Porm no podemos ir com voc agora. Minha me me ensinou que devemos nos apresentar na casa dos outros vestidos 
de maneira adequada.
   Por um instante, Logan pensou em protestar. Entretanto Kenny parecia to compenetrado da importncia disso, que temeu desapont-lo.
   - Vou esper-los para o jantar, ento. Vocs se importariam se eu tomasse um banho no riacho antes de voltar?
   - Eu no - Marty apressou-se a dizer.
   - Voc s gosta de entrar na gua para nadar, no ? - Kenny sorriu. - No para tomar banho.
   - Nadar  divertido.
   - Eu sei. Mas sempre fico preocupado porque voc no sabe nadar muito bem.
   - Tenho uma idia - Logan falou animado. - Vocs dois vo nadar enquanto fico atento a Marty. Depois tomarei meu banho. Jessie ficar grata por nos preocuparmos 
com a limpeza pessoal. Um sinal de considerao.
   
   
   CAPTULO X
   
   Nuvens pesadas e escuras cobriam o cu quando Logan se aproximou do chal cautelosamente. Intrigado, notou dois cavalos, ainda selados e soltos, no curral.
   Ento Jessie estava de volta e conseguira lhe comprar um cavalo. De repente, uma sensao estranha o fez comear a correr. Jessie nunca se descuidaria dos animais 
a menos que estivesse doente... ou ferida.
   - Jessie! - Ao tentar girar a maaneta, e perceber que a porta no cedia um milmetro, experimentou uma pontada de medo. - Jessie! - tornou a gritar, batendo 
na madeira com os punhos cerrados. - Abra a porta! Obrigando-se a manter a calma, encostou o ouvido na porta, porm no escutou som algum.
   Dentro do chal, Jessie, agachada num cantinho junto ao armrio da cozinha, ignorava os apelos de Logan.
   Durante todo o trajeto para casa ansiara tomar um banho. Banhara-se com gua to quente e esfregara-se com tanta violncia, que a pele ficara vermelha. Porm 
percebera que era intil. Jamais voltaria a se sentir limpa. De olhos fechados, ou abertos, s conseguia enxergar o rosto cruel sobre o seu. Por mais que esfregasse 
a pele, a sensao horrvel de ter sido tocada por mos imundas permanecia.
   Dizer a si mesma que no havia sido ferida de pouco adiantava. A vergonha a consumia. E no havia gua quente no mundo capaz de lavar aquele sentimento.
   Tampouco todo o usque que se obrigara a beber, at o estmago se rebelar, a impedira de reviver mentalmente a cena asquerosa vezes sem conta.
   E chorara por ter sido roubada do que possua de mais valioso: a crena de que podia viver ali sozinha e se proteger do mal.
   Recusava-se, com todas as suas foras, a pensar em David.
   Porm Logan, cuja voz soava atravs da porta trancada, no era David. Logan no era o tipo de homem capaz de fugir, de dar as costas aos problemas.
   - Jessie, por favor, responda-me - ele pediu, a mo pronta para sacar a arma, se necessrio. A porta trancada por dentro significava que Jessie estava em casa, 
entretanto no era prova de que estivesse s.
   O pensamento atingiu-o com tamanha intensidade, que por um instante no pde respirar. Oh, Deus, e se Zach houvesse voltado? Uma mulher doce e confiante  merc 
de um tipo sem escrpulos... Como pudera ser to tolo e idiota? Como a expusera a um perigo tal? E se os outros bandidos tambm estivessem de tocaia? E se ferissem 
Jessie? Se  que j no o tivessem feito... Talvez por isso mesmo ela no atendesse aos seus apelos.
   At esse momento, no soubera quo profundos eram seus sentimentos por Jessie. Faria qualquer coisa para mant-la a salvo. Qualquer que fosse o preo necessrio 
para poup-la, estava disposto a pagar.
   O silncio dentro do chal, completo e absoluto, era torturante. Desesperado, Logan tornou a bater na porta, chamando-a, sabendo que no deveria deixar transparecer 
na voz, ou nas suas atitudes, as suspeitas que o consumiam.
   Ao escutar os punhos cerrados de Logan se chocarem contra a madeira, Jessie cobriu os ouvidos, sem no entanto ser capaz de ignorar os apelos insistentes para 
que respondesse aos chamados. Sabia que no podia se esconder para sempre, no de Logan e, certamente, no de si mesma.
   Mordendo os lbios at sentir o gosto de sangue na boca, Jessie levantou-se devagar e vestiu-se, os dedos trmulos transformando algo simples numa tarefa rdua. 
Sufocando um soluo, enxugou as lgrimas. Como ainda lhe restavam lgrimas, depois de haver chorado horas seguidas?
   Voc  forte, ela repetia mentalmente, como uma ladainha. Sobreviveu a um casamento fracassado. Construiu uma nova vida no meio do nada. Voc pode encarar Logan 
e mentir.
   Ao tentar esvaziar a bacia, deixou-a cair no cho, o rudo estridente rompendo o silncio sepulcral.
   - Jessie! Se voc no abrir essa porta j, vou arromb-la!
   Impelida pela fria contida na voz de Logan, ela respondeu:
   - Estou indo! - A raiva de ser obrigada a tolerar uma presena humana, quando tudo o que queria era se esconder, a fez agir rapidamente. Num arranco, tirou a 
tranca e escancarou a porta.
   Por um breve instante o brilho nos olhos de Logan, frio e selvagem, a fez estremecer. Tambm notou que ele havia sacado a arma. Como um caador pronto para derrubar 
sua presa.
   Entretanto, bastou fitar o rosto de Jessie para saber que ela estava s. Lentamente, ps a arma de volta no coldre, os olhos penetrantes virando-a pelo avesso, 
a angstia experimentada se dissolvendo no alvio de v-la a salvo.
   - Que diabos aconteceu aqui? - indagou, notando a blusa que nunca vira antes e a saia molhada. Tampouco lhe passou despercebida a garrafa de usque, quase vazia, 
sobre a mesa.
   De repente Logan se sentiu andando num terreno desconhecido. Ergueu a mo como se fosse toc-la, aguardando, ansioso, algum gesto, alguma palavra, que mostrasse 
ser sua proximidade bem-vinda. Depois do que lhe pareceu uma eternidade, ela lhe deu as costas. 
   - Jessie?
   - Por acaso nunca lhe passou pela cabea que eu gostaria de ter alguns momentos de privacidade, aps todos esses dias de convivncia?
   A voz dela soava rouca, como se tivesse estado gritando... ou chorando. Logan no conseguia se livrar da sensao de que havia alguma coisa muito errada. Irritado 
por no conseguir entender o que era, passou as mos pelos cabelos ainda midos, os olhos fixos nas costas de Jessie.
   Pressione-a. A idia foi prontamente posta em prtica.
   - Se voc queria me ver longe daqui, bastava ter me dito.
   - Foi o que fiz.
   - Ento eu no entendi! - Segurando-a pelos ombros, ele a virou, obrigando-a a fit-lo. 
   - Eu lhe fiz uma pergunta, no tente ignor-la. Voc no deixaria aquela gua de que tanto gosta selada. Voc no demoraria tanto para me responder, ou abrir 
a porta, se fosse apenas uma questo de privacidade.
   Ela tentou se afastar, porm os dedos que a prendiam pareciam tenazes. Aflita, olhou ao redor, procurando uma maneira de escapar. Essa era uma face de Logan que 
no conhecia. A face de um homem implacvel, acostumado a enfrentar toda e qualquer objeo. Num gesto inconsciente, ergueu as mos diante de si.
   - Pare com isso! Ponha suas mos para baixo. No vou bater em voc. No vou machucar voc. Nunca encostei um dedo em mulher alguma a minha vida inteira e no 
pretendo comear agora, por mais que voc tente me fazer perder a cabea. - Ele deu um passo  frente, deixando-a encostada na parede. - E voc est me levando ao 
limite mximo, lady.
   - Eu queria tomar um banho. E no poderia faz-lo com voc aqui dentro.
   - E quanto ao usque? Algum perfume novo, do qual ainda no ouvi falar?
   Jessie abaixou a cabea, a voz soando to baixa que no passava de um sussurro.
   - No lhe devo nada. No  da sua conta. Voc j tem seu cavalo. H mantimentos dentro dos alforjes. Pegue o que  seu e v embora.
   - No posso ouvi-la. Quero que diga o que tem a dizer olhando para mim. - Lanando mo de todo autocontrole e pacincia, falou suavemente: 
   - Sei que algo aconteceu hoje. Eu venderia minha alma para v-la sorrir agora, linda mulher. Eu daria tudo o que tenho se voc confiasse em mim o bastante para 
me dizer o que est havendo. E no feche os olhos como se quisesse me manter  distncia. Problema partilhado  problema diminudo.
   Ela fitou as feies msculas, lutando contra a sensao de pnico. Naquele instante Logan a lembrava de Ulisses, heri da mitologia grega, um guerreiro incapaz 
de ser demovido quando atrs do que queria.
   "Problema partilhado  problema diminudo". As palavras voltaram-lhe  mente. Porm iria apenas aumentar os problemas de Logan, no diminu-los, se lhe contasse 
a verdade.
   - Oua, sou um homem realmente paciente...
   - Quem lhe pediu para s-lo? No eu. No lhe pedi nada.
   - No mesmo?
   Confusa ao ouvir o tom desafiante, Jessie o fitou. Segundos depois, Logan a puxava pelo brao e a colocava diante do espelho da penteadeira.
   - D uma boa olhada em sua prpria imagem, Jessie. Vamos, olhe. Ento veja o que tenho visto. Em especial seus olhos. Eles esto me pedindo todo tipo de coisa. 
O problema  que no tenho certeza se voc sabe, de fato, o que quer.
   Jessie fechou os olhos, como se a imagem refletida fosse dolorosa demais para ser observada. Vendo-a assim, vulnervel, carente, Logan ansiou poder toc-la com 
a intimidade de um amante e aplacar o desejo que consumia a ambos. Entretanto ela lhe havia negado esse papel. Talvez, ento, devesse beij-la no rosto para apagar 
aquela tristeza infinita. Mas no podia faz-lo. No seria capaz de se satisfazer com beijos fraternais e gentis. Se algum dia tornasse a beij-la, nada o faria 
parar.
   Invejava o homem em memria do qual ela ainda usava a aliana no dedo. Sentia um cime louco do que podia acontecer na sua ausncia. No queria que Jessie se 
aproximasse de outro homem enquanto estivesse fora. Queria ser ele o centro de seus pensamentos e o dono de seu corpo.
   - Por favor, deixe-me ajud-la. Deixe-me fazer com que a dor de sua alma desaparea.
   Ela abaixou a cabea, como se j no tivesse foras para sustentar o peso da angstia.
   Dominado por uma emoo difcil de ser definida, Logan inclinou-se e beijou-a nos cabelos, aspirando o perfume de flores silvestres.
   - Jessie, oh, Jessie, por que voc no pode confiar em mim? - Ao roar os lbios de leve no pescoo suave, numa carcia cheia de ternura, sentiu-a estremecer.
   - Logan? Abrace-me. Por favor, apenas me abrace.
   Ela se aconchegou ao peito forte, buscando a boca mscula com sofreguido. Agia quase com desespero, movida pela necessidade de substituir uma lembrana por outra. 
Uma lembrana que no causasse dor. Sabia que estaria segura nos braos de Logan. Fechando os olhos, abandonou-se ao calor daquele corpo, tentando aquecer a alma. 
A presso dos lbios sensuais foi se tornando cada vez mais insistente, at que no resistiu e entreabriu os seus, preparando-se para a invaso da lngua ardente.
   Porm Logan era sutil e no queria assust-la. Apossou-se de sua boca no violentamente, e sim com uma lentido deliciosa.
   Apenas ento, quando se tocavam dessa maneira ntima, Jessie se deu conta do que havia comeado. Assim seria a posse final. Se permitisse... se desejasse...
   O toque de Logan era, exatamente, como imaginara, despertando seus sentidos, emaranhando-a numa teia de paixo.
   Logan a acariciou nos braos, nas costas, querendo aquecer a pele fria. Ao toc-la sob os seios, soube estar perto de perder o controle. Seria difcil voltar 
atrs agora.
   Por um instante temeu que Jessie rompesse o contato e o afastasse. Entretanto, para seu prazer e surpresa, ela o abraou com mais fora.
   Os beijos foram se tornando vidos, exigentes.
   - Jessie - ele murmurou, a voz rouca transbordante de desejo.
   Oh, Deus, como isso era bom! Melhor do que jamais sonhara. Estava to excitado que o corpo chegava a doer. Jessie precisava dele. No do fantasma de um homem 
morto. No do pretendente que nunca a tocara. Estavam vivendo uma situao real, sincera. E, mais do que tudo no mundo, queria agrad-la, lhe dar prazer.
   - Eu a quero tanto. Minha doce e linda lady... diga-me o que lhe d prazer.
   - Voc. Apenas voc.
   O sussurro suave transformou-se em gemido enquanto ela fechava os olhos para saborear as carcias insinuantes. Era isso o que desejava. E o que Logan queria tambm. 
Quando os corpos de ambos se roaram, buscando alvio para o fogo que os devorava, Jessie estremeceu.
   Mas tudo estava acontecendo depressa demais. Sabia to pouco a respeito dele. Como podia confiar em Logan o bastante para se entregar, quando no confiava o suficiente 
para lhe contar o que acontecera horas antes?
   Jessie ignorou os pensamentos e as dvidas que a perturbavam. Nunca em sua vida quisera um homem com tamanha avidez. Negar a consumao dessa nsia seria negar 
para sempre a chance de conhecer o prazer de se deixar arrebatar pelo desejo que lhe queimava as entranhas.
   Logan traou o contorno dos lbios femininos com a ponta da lngua, exultando ao sentir as mos de Jessie o segurarem pelos cabelos, o corpo de curvas exuberantes 
se fundindo ao seu em busca de maior proximidade. Os sentimentos fortes, primitivos, que tornavam sua ereo quase dolorosa, se intensificaram. Ao toc-la nos mamilos 
rgidos, ouviu-a sufocar um grito.
   - Querida, diga que no est com medo de mim. - Gentilmente, ele a segurou pelas ndegas, forando-a a sentir a presso do membro ereto.
   - No. Sim. No sei. - O medo permanecia enterrado sob o desejo. Um desejo mtuo.
   Ele a acariciou nos seios, ento, beliscando delicadamente os mamilos, murmurando palavras sensuais, elogiosas, provocantes. Guiada pelo instinto, Jessie o beijou 
no pescoo e mordeu-o de leve, para logo depois deslizar a lngua pela pele bronzeada.
   Tudo o que Logan queria agora era tomar os mamilos na boca, banh-los com a lngua por um longo tempo at deix-los eretos, enquanto a escutava gritar seu nome.
   - Como  que voc pode ter medo de mim, quando sabe o quanto a quero? - Ele a estreitou junto ao peito, ansiando livr-las das roupas e v-la em sua nudez gloriosa.
   - Logan, por favor...
   - Quero voc. Quero lhe dar prazer como ningum nunca o fez, ou tornar a faz-lo.
   Havia uma quase selvageria na voz de Logan que deveria t-la alarmado. Mas o efeito foi exatamente contrrio.
   Segurando-a pelos ombros, Logan a virou de frente para espelho.
   - Abra os olhos. Quero que voc nos veja. Juntos.
   Mal se reconhecia na imagem refletida. Quem era aquela mulher, de lbios entreabertos e vermelhos, os cabelos desalinhados, cados sobre as costas, a respirao 
ofegante? A imagem de algum sedutora, no a Jessie que conhecia.
   - Voc se v como eu a vejo? - Logan perguntou baixinho, desabotoando o primeiro boto de sua blusa e acariciando-a no pescoo para livr-la da tenso.
   - A imagem do desejo - ela murmurou, surpresa por ter sido capaz de diz-lo em voz alta, e de responder a verdade absoluta. Seu olhar lnguido, um convite silencioso 
 paixo, revelava mais do que mil palavras. Jessie quis fechar os olhos para se poupar da viso, porm a presena de Logan ao seu lado, a fora e o fascnio que 
emanavam do corpo viril pareciam t-la feito prisioneira de um encantamento. Estremecendo, apoiou-se no peito largo, dominada por um calor inexplicvel, as pernas 
tendo dificuldades para sustent-la.
   Observando a mulher no espelho, Jessie soube que, embora pudesse soar estranho, estaria sempre, e em qualquer situao, segura com Logan. A prpria gentileza 
do toque dele a permitia ser vulnervel e expor as carncias da alma, alm dos anseios da carne.
   - O que ? - Logan perguntou, um sorriso sensual iluminando as feies viris. 
   - Posso ver que voc quer me perguntar algo. Pois pergunte-me, Jessie. Pergunte-me qualquer coisa que desejar.
   
   
   CAPTULO XI
   
   Ela umedeceu os lbios, sem no entanto emitir som algum. Ento fechou os olhos, pensando que seria mais fcil lhe pedir para toc-la novamente, para aplacar o 
desejo que ardia em seus seios. Entretanto as carcias no pescoo eram to perturbadoras, que no queria interromp-las.
   Assim, permaneceu em silncio, desejando poder lhe pedir para no interromper os doces carinhos, apenas para toc-la um pouco mais em baixo.
   Sem deixar de acarici-la no pescoo com uma das mos, Logan espalmou a outra sobre seu ventre, o gesto ntimo carregado de simbolismo.
   Apesar da barreira imposta pelas roupas, Jessie experimentou uma sensao intensa. Atordoada, permitiu-se agir com ousadia e tomou as mos de Logan entre as suas.
   - Sim, Jessie, sim. Mostre-me - ele murmurou, encorajador.
   Um sorriso sonhador surgiu nos lbios femininos, a certeza de ser compreendida dando-lhe segurana necessria para colocar as mos de Logan sobre seus seios nus.
   Fora o que quisera, entretanto no estava preparada para a onda de desejo brutal que parecia emanar dos longos dedos de Logan sobre sua pele.
   - No tenha medo, querida. No vou machuc-la. Nunca a machucaria.
   Quando Logan a despiu at a cintura, Jessie corou, os olhos fixos nas mos que lhe cobriam os mamilos, massageando-os vigorosamente.
   Beijando-a nos lbios, ele murmurou:
   - Sua boca tem gosto de paixo. Mas quero sentir o gosto de seu corpo inteiro. - Percebendo-a ficar tensa, preocupou-se. 
   - Alguma coisa errada? Algo que eu disse? Ou fiz?
   Ela desviou o olhar, no querendo admitir como lamentava o fim daquelas carcias doces e gentis. Devia ter imaginado. Mas Logan dedicara tanto tempo aos carinhos 
preliminares, que o julgara gostando...
   - No se esquive de mim assim, no se feche em si mesma. - Segurando-a pelo queixo, obrigou-a a fit-lo. 
   - O que significa isso? Se voc no me disser o que a agrada, ou o que deixa de agrad-la, como poder sentir prazer?
   Para seu espanto, Jessie descobriu que Logan realmente se preocupava com esse detalhe.
   - Voc quer mesmo saber? Harry nunca...
   - Eu no sou Harry. - As palavras soaram duras. Se aquele homem a houvesse ferido, quando Jessie era a mais sensvel e vibrante das mulheres...
   - No h como explicar, a no ser  minha prpria maneira. Ele ficava zangado comigo quando eu lhe pedia para me beijar um pouco mais, ou me tocar com maior delicadeza. 
Ele tinha prometido. E at tentou. Porm acabou ficando furioso. Dizia que as mulheres no foram feitas para sentir prazer e que, portanto, eu no devia impedi-lo 
de ter o seu. - Nervosa, Jessie comeou a morder os lbios.
   - No. Voc j feriu a pele o bastante - Logan falou, curvando-se para beij-la. - Deixe que algum mais cuide desses lbios. Algum que saiba ser gentil. To 
gentil quanto voc quer, to gentil quanto voc precisa. E Harry estava errado. Palavras vazias de um homem egosta.
   - De minha parte, aprendi a nunca ser egosta. Sei o que ir acontecer comigo quando nos amarmos, entretanto lev-la ao auge do prazer  um desafio para mim. 
Um desafio que pretendo vencer.
   Jessie se agarrou aos braos fortes, como se buscasse refgio contra as prprias inseguranas.
   - No quero que me interprete mal, querida. Gosto de saber que voc aprecia me tocar tanto quanto adoro toc-la. Porm, se no me disser, como vou saber quais 
carinhos prefere, ou como quer ser acariciada?
   O que ele no disse, e no podia dizer, era a regra de Conner. D prazer a uma mulher na primeira vez e ela se deitar com voc novamente. Jamais deixara de seguir 
a lgica do irmo e nunca lhe faltara companhia feminina.
   - Logan?
   - Sou todo ouvidos.
   - E se uma mulher no sabe?
   - Ento ela aprende. Assim como voc aprender comigo. Precisa apenas confiar em mim. Acreditar que realmente desejo lhe dar prazer. Qualquer coisa que eu fizer 
que no lhe agrade, diga-me. Mas, por favor, linda dama...
   - Tambm devo lhe dizer quando me agradar - Jessie terminou, sorrindo. - Um beijo, ento.
   Antes mesmo que terminasse de pronunciar a ltima palavra, Logan j a beijava vorazmente, a lngua imperiosa exigindo ser correspondida em suas investidas. Ofegantes, 
foram obrigados a se afastar para recuperar o flego.
   De repente, ouviram uma batida na porta.
   - Eles esto aqui. Oh, puxa! No agora. - Imediatamente, Logan ajudou Jessie a vestir a blusa. - Guarde o sorriso e o resto daquele beijo para mim, lady. Ainda 
no terminamos.
   No mesmo instante em que ele a soltou, Jessie foi dominada pelo medo. O terror que conseguira manter sufocado, vindo  tona. Eles esto aqui. As palavras de Logan 
podiam significar somente uma coisa. Aqueles homens haviam vindo busc-lo. Abafando um soluo, Jessie correu para o quarto em busca da arma enquanto Logan abria 
a porta.
   Kenny e Marty estavam de mos dadas, vestindo suas melhores roupas, as botas brilhando de to polidas. Traziam dois coelhos j limpos, prontos para serem cozidos.
   - Tem certeza de que nos quer aqui? - Kenny indagou, srio.
   - Eu os convidei, no?
   - . Mas ns vimos voc se atirar em cima dela como mosca no mel. Marty pensou que fosse sufoc-la.
   - Jessie tem uma barra de sabo que ainda no foi usada. Acho que serviria bem para lavar suas bocas, meninos. Entenderam o que eu disse?
   Os dois concordaram com um aceno de cabea, os olhos fixos em Jessie que acabara de sair do quarto e escutara parte da conversa. Somente ento Logan se deu conta 
de ter esquecido, completamente, de dizer a ela sobre a vinda das crianas. Tambm precisava encontrar uma maneira de faz-la se sentir menos embaraada. Por que 
Kenny tivera que abrir aquela sua boca grande?
   Recuperando o controle, Jessie passou a mo pelos cabelos e alisou a saia antes de se aproximar da porta, esforando-se para aparentar tranqilidade.
   Inspirando o ar com fora, Kenny comentou:
   - Parece que ningum comeou a preparar o jantar ainda. Minha me sempre dizia que no se deve fazer uma visita sem levar algo para comer. Sorte eu ter trazido 
os coelhos, ou todos ns ficaramos sem nada.
   - Como assim, Kenny? - Marty perguntou, espiando a mulher ao lado de Logan com curiosidade.
   - Quando os adultos comeam com essas brincadeiras de roar um no outro, se esquecem de tudo, at da comida.
   - Cuidado com a boca, menino. Jessie  uma dama. Voc lhe deve um pedido de desculpas.
   - Desculpe-me, senhora. - Mesmo assim, Kenny virou-se para Logan, um sorriso brincalho iluminando o rosto magro. 
   - Como vocs adultos chamam esse tipo de brincadeira?
   - Chamam o qu, Kenny? Que brincadeira  essa? Podemos brincar tambm? - Marty perguntou animado. 
   - Puxa! - Logan explodiu.
   - Puxa! - Kenny gritou.
   Eles olharam um para o outro e caram na risada. Marty e Jessie apenas sacudiram as cabeas, sem entender o motivo de tanta graa.
   Quando, enfim, as risadas terminaram, Jessie deu um passo  frente.
   - Por que a me de vocs no veio tambm?
   - Voc no contou a ela? - Kenny lanou um olhar acusador na direo de Logan.
   - No tive tempo de explicar nada. Mas vou consertar a situao j.
   - Bem... - O garoto suspirou fundo, resignado. - Como voc nos convidou para jantar e no tem nada pronto, Marty e eu daremos um jeito. Pode sair para dar uma 
volta com ele, senhora. Ou talvez queiram cuidar dos cavalos no curral.
   - Excelente idia! - No mesmo instante, Logan pegou Jessie pelo brao e a arrastou para fora. To logo chegaram no curral, Logan a tomou nos braos.
   - Ento eu estava me derramando em cima de voc como mosca no mel?
   - Foi o que aquele menino impossvel disse.
   - Sim. Kenny tinha razo. - Ele a beijou na boca, impedindo-a de dizer qualquer coisa.
   Quando, afinal, pde respirar outra vez, Jessie voltou  carga.
   - Voc acha que foi mesmo uma boa idia deixar os dois garotos sozinhos no chal? No posso acreditar que os tenha permitido cozinhar para ns. So pequenos. 
 bem provvel que ponham fogo na casa.
   - Kenny tem mais firmeza nas mos do que muitos homens que conheo. Confie em mim. Quando terminar de cuidar dos cavalos, o jantar estar pronto.
   Logan a viu olhar para os animais e ento virar a cabea para o lado, como se a viso dos cavalos a incomodasse. Embora no tivesse se esquecido das perguntas 
que haviam ficado sem respostas, decidiu no abordar o assunto naquele momento.
   Apanhando-a de surpresa, pegou-a no colo e a colocou sentada na cerca.
   - Cuidado! Seu ombro...
   - No tornar a ficar forte a menos que eu o exercite. Voc, sente-se e fique quieta.
   Um sorriso e o brilho de desejo no olhar suavizou a ordem. Enquanto trabalhava, tirando os arreios e as selas dos animais, Logan lhe contou o que descobrira a 
respeito dos "rfos da selva".
   - Por que voc os chama assim?
   - Duas crianas deixadas completamente ss no mundo. Ataques de ndios, doenas, acidentes, ausncia de lei... L fora  uma verdadeira selva. Homens podem morrer 
a qualquer momento...
   - No fale sobre isso. No quero me lembrar de que voc foi abandonado nas montanhas,  morte...
   - Est tudo acabado agora.
   Ela ficou em silncio, observando-o escovar os animais, a elegncia dos movimentos viris fazendo-a pensar num felino. Como seria sentir aquelas mos deslizar 
sobre seu corpo, da mesma maneira suave? Invadida por um calor intenso, fechou os olhos, s tornando a abri-los quando Logan a tocou de leve.
   - Terminou?
   - Sim. Voc escolheu um belo animal. Forte e saudvel. O elogio por trs das palavras simples encheu-a de satisfao, fazendo-a sorrir.
   - Eu no tinha muita escolha. Pelo menos esse aqui me pareceu estvel, determinado.
   - Ele me levar aonde preciso ir.
   Jessie nada respondeu, o olhar perdido ao longe. Quisera ser capaz de se recuperar to rapidamente quanto Logan dos momentos de paixo vividos logo antes da chegada 
dos garotos. Seu corpo ainda doa por causa do desejo no satisfeito, uma tenso estranha consumindo-a por dentro.
   - Alguma coisa errada?
   - No. Eu... eu estava imaginando o que poderia ser feito por aqueles meninos.
   - Bem... pensei em deixar os dois aqui, com voc.
   - Comigo?
   Logan deu um passo atrs, reagindo ao tom rspido de Jessie.
   - Calma, no fique assim nervosa. D-me uma chance de explicar.
   - Estou ouvindo. Porm quero lhe falar algo antes. No creio que essa deciso caiba a mim, ou a voc. Kenny me parece o tipo decidido e no aceitar facilmente 
que lhe digam o que fazer.
   - Na verdade, j conversei com ele.
   - Voc fez o qu? - Na sua pressa de descer da cerca, Jessie quase perdeu o equilbrio e s no caiu porque Logan a pegou no colo. Ela o agradeceu e tentou obrig-lo 
a solt-la, sem muito sucesso.
   - Ponha-me no cho agora. Seu ombro...
   - Meu ombro di como o diabo - ele completou sorrindo.
   - Ento por que... - Jessie prendeu a respirao ao sentir os lbios masculinos pousarem sobre um de seus mamilos. O calor e a presso daqueles dentes lhe deram 
um prazer to intenso, que gritou alto. - Pare - implorou baixinho. 
   - Voc tem que parar. Os meninos vo nos ver.
   De m vontade, Logan a soltou.
   - Ento espere aqui enquanto levo o saco de rao para o celeiro. Depois ento poderemos apanhar alguns vegetais para a salada. Assim no precisar se preocupar 
com a possibilidade de algum nos ver.
   
   Durante todo o jantar, Jessie tentava no se lembrar da verso de Logan sobre apanhar vegetais, o rosto ainda corado de excitao.
   Para sua surpresa, o coelho estava delicioso e ela no poupou elogios aos garotos. Vendo-os ao redor da mesa, ao lado do homem por quem se apaixonara, pensou 
pela primeira vez, em muito tempo, no sonho que acalentara de criar uma famlia.
   Num gesto inconsciente, pousou a mo sobre o ventre. Recordava-se da decepo experimentada quando sofrera um aborto espontneo, logo nas primeiras semanas de 
gravidez. Chorara tanto, que ficara com os olhos inchados.
   - Kenny, eu gostaria muito se voc e Marty ficassem comigo. Acredito que ser um bom arranjo para ambas as partes. Mas quero que seja uma deciso de vocs.
   - Diga a ela, Kenny. Diga a ela - Marty exclamou entusiasmado.
   - Marty e eu achamos que devemos tentar por alguns dias antes de nos mudarmos definitivamente para c. Voc no est acostumada a ter crianas  sua volta, tampouco 
ns estamos acostumados que nos digam o que fazer. Vai nos poupar de um monte de problemas se formos devagar.
   Jessie buscou o olhar de Logan, tentando no sorrir. De fato, Kenny era bastante inteligente e agia com o bom senso de um adulto. Porm, sentia-se pronta para 
o desafio. Na verdade, precisava daquelas crianas. Elas preencheriam suas longas horas de solido. Sabia que Logan estava para partir a qualquer momento e que s 
adiara a data por se preocupar com sua segurana.
   Oh, Deus, fora to fcil apaixonar-se por Logan. Mas como podia amar um homem que recusava-se a partilhar seus segredos? Como podia confiar nele? Fizera-se essa 
pergunta vezes sem conta e a resposta permanecera a mesma. Em todos os aspectos que realmente importavam, Logan tinha sua total confiana.
   - Senhora - Kenny a chamou, interrompendo o curso de seus pensamentos. - Deixamos gua quente na chaleira para lavar a loua. Desculpe-nos no podermos ficar 
para ajudar, porm Marty e eu temos coisas a fazer no nosso acampamento.
   - Oh, mas vocs no vo embora j. Pensei que iriam passar a noite aqui. Podem ir ao acampamento amanh de manh.
   - No me parece uma boa idia, senhora. - Kenny lanou um olhar na direo de Logan, que se distraa com garfo, dando a impresso de que a tarefa exigia grandes 
doses de concentrao. - Vamos, Marty. Est na hora.
   - Por favor, me chame de Jessie.
   - Esperem por mim l fora - Logan pediu, levantando-se tambm. - Vou acompanh-los... 
   - No  preciso...
   - Kenny, a primeira coisa que um homem aprende  que, quando algum maior e mais velho lhe d uma ordem, deve obedecer. Vou encontr-los l fora em alguns instantes.
   Assim que os garotos saram e fecharam a porta, Jessie interpelou Logan.
   - No havia necessidade de ser rspido. Ele  apenas uma criana.
   - Continue pensando assim e Kenny logo a ter na palma da mo.
   - Que diferena faz? Voc no estar aqui para ver. - Ela tentou se levantar, porm Logan a segurou pelos braos, impedindo-a de mover-se.
   - Oh, Jessie, no faa isso. Se eu pudesse ficar aqui, ficaria. Como pode pensar o contrrio?
   Ela fechou os olhos com fora, querendo ter coragem de afast-lo. De repente, lembrou-se do dinheiro que Logan tinha lhe dado para fazer as compras. Deveria lhe 
devolver o troco.
   - Com licena, preciso me levantar. - Tenha em mente que Logan ir partir. Pense apenas nisso. No importa o que voc diga, ou o que faa. Logan est saindo da 
sua vida para sempre. - Aqui est - ela falou, depois de tirar as moedas da bolsa que deixara sobre armrio. - Seu dinheiro.
   - Meu... - Com dificuldade, ele conteve a irritao crescente. - No entendo, Jessie. Eu lhe disse...
   - Isto  o que sobrou depois de ter comprado o cavalo e mantimentos. Aceito dividirmos os mantimentos, entretanto o resto do dinheiro lhe pertence. Tome-o.
   - No faa isso. - A voz dele soava dura e fria.
   - Preciso faz-lo.
   - J lhe disse que no o quero. O dinheiro  seu, Jessie.
   - Tome-o. E uma vez que voc se recusa a entender, tornarei as coisas mais claras. Leve seu dinheiro porque no quero ter aqui nada que lhe pertence, depois da 
sua partida.
   Por um longo instante, ele a fitou, controlando-se a custo. Trmula, Jessie acabou deixando as moedas carem sobre a mesa, onde ficaram, intocadas.
   Sem dizer uma palavra, Logan saiu do chal, batendo a porta atrs de si.
   E ela ficou novamente s.
   Porm Logan ainda voltaria naquela noite. A perspectiva tanto a angustiava quanto a excitava.
   
   
   CAPTULO XII
   
   Logan estava to cego pela raiva, que a princpio no enxergou os meninos escondidos num canto.
   - Eu os mandei esperar bem aqui, no foi?
   - Quando os ouvimos discutir, achamos melhor sair do caminho - Kenny respondeu, segurando Marty pela mo.
   Que diabos dera em Jessie, Logan se perguntou, massageando a base do pescoo e esforando-se para recuperar a calma. Repudiar o dinheiro daquela maneira, como 
se fosse sujo. Diabos, no o tinha roubado. E se o tivesse, roubara apenas de si mesmo. Um emaranhado de mentiras, isso sim, e agora s lhe restava esperar.
   - Voc ainda quer nos acompanhar at o acampamento?
   - Sim. Temos mais algumas coisas sobre as quais precisamos conversar.
   Para a enorme alegria de Marty, Logan o colocou sobre os ombros antes de iniciarem a caminhada. A dor o ajudava a se esquecer de Jessie. Tambm a satisfao do 
menininho, encarapitado em seus ombros, era tamanha, que chegava a emocion-lo.
   - Voc ainda tem dvidas? - indagou a Kenny.
   - No. Mas estou satisfeito que voc no seja louco furioso.
   - Como ?
   - Voc saiu do chal como um touro enlouquecido, pronto para atacar.
   - Verdade - Marty concordou. - Parecia que queria ferir algum.
   - Desculpem-me se os assustei, garotos. Aprendi, h muito tempo, a no machucar algum menor do que eu, a menos que minha vida esteja correndo perigo. Ou que 
meu cavalo esteja sendo roubado.
   - Ainda bem que voc no queria ferir ningum. Eu seria obrigado a proteger Marty.
   - De mim? - Logan parou e fitou Kenny, muito srio.
   - Apenas se voc o machucasse. No tenho uma arma comigo agora, porm conheo muitas maneiras de ferir um homem, mesmo to grande e forte quanto voc.
   - Ento diga-me como. - Por um instante, Logan se viu transportado para a infncia, quando tentava desafiava Conner, ou um dos empregados, somente para mostrar 
um golpe novo que aprendera.
   - Primeiro eu o chutaria na canela, porque voc  alto e eu sou pequeno.
   - To pequeno e perigoso quanto uma banana de dinamite - Logan concordou rindo. Kenny sorriu tambm.
   - Acertar um homem na canela causa mais dor do que uma picada de cobra.
   Durante todo o trajeto at o acampamento, Kenny praticamente no parou de falar. E um de seus assuntos preferidos era Jessie, embora Logan tentasse, a todo custo, 
desviar o rumo da conversa. O garoto, entretanto, fez questo de deixar claro que considerava sua partida um erro. Como  que algum tinha coragem de abandonar uma 
mulher como aquela?
   - Ela tem terras e um chal. Alm de um punhado de cabeas de gado. Voc no est morto, portanto, ela sabe como cuidar de doentes. E  bonita tambm.
   Logan concordou, mas explicou que, s vezes, um homem no tem escolha. Tinha uma misso e precisava cumpri-la.
   - Meu pai costumava dizer a mesma coisa antes de me bater por no obedec-lo. Dizia que doa mais nele do que em mim. No consigo entender esse tipo de raciocnio. 
Os adultos tm uma maneira estranha de analisar as coisas.
   Logan achou melhor encerrar a conversa por ali. Ento se despediu dos garotos, fazendo Kenny jurar que manteria Jessie sob vigilncia as vinte e quatro horas 
do dia, pelo menos at que ele pudesse lhes mandar alguma notcia. Tambm teve o cuidado de no prometer regressar. Poderia no sobreviver ao prximo confronto com 
Monte e o bando. Entretanto falaria com Conner sobre Jessie e os garotos. Conner era o tipo certo para amparar todos, se lhe acontecesse o pior.
   Mesmo se no sentisse algo especial por essas trs pessoas, era o mnimo que poderia fazer pelos garotos e pela mulher que lhe salvara a vida.
   Ao retornar ao chal, esperara encontrar a porta trancada, mas no foi o que aconteceu.
   - Jessie, voc est acordada? - indagou num tom baixo.
   - No. Estou dormindo profundamente. E sonhando. Sonhando com aqueles dois meninos, sados de no sei onde, obrigados a passar a noite ao relento,  merc...
   - Ok, j entendi. Voc est acordada e cheia de azedume.
   - No. Isto , sim. Estou acordada, porm o azedume, como voc o chama, j desapareceu.
   - Pare de se preocupar com os garotos. Kenny ser capaz de tomar conta de voc, e de Marty, melhor do que qualquer pessoa que conheo. - Logan colocou o lampio 
sobre a mesa, confirmando o que desconfiara. Jessie deitara-se na cama, deixando as cobertas dobradas no cho para que ele se ajeitasse.
   -  um fardo pesado demais para um menino carregar.
   - Kenny j carregou quase todos os fardos que um homem pode carregar. Ele enterrou os pais, e os de Marty tambm. A morte tem uma maneira terrvel de transformar 
um menino num homem do dia para a noite.
   - Voc o diz como se j tivesse passado pela mesma experincia. - Ela estava fazendo exatamente o que jurara no fazer: tentar obter toda e qualquer informao 
possvel a respeito de Logan. Pelo menos assim, iriam lhe restar algumas lembranas s quais se agarrar, quando no o tivesse mais por perto.
   - Eu sei. - Todavia Logan estava pensando no irmo, Conner. Assim como Kenny, Conner era o mais velho e, preparado ou no, fora obrigado a assumir o lugar do 
pai no comando da famlia e dos negcios. .
   - Para onde voc vai?
   Ele a fitou, quase no conseguindo enxerg-la na semiescurido do chal.
   - Quanto menos voc souber, melhor ser.
   A resposta fora a esperada. Logan no iria lhe fazer promessas de ltima hora, jurando voltar, se no por ela, pelo menos pelos meninos.
   Vrios minutos se passaram sem que um dos dois dissesse uma palavra, ou fizesse um movimento. O pesado silncio foi se tornando insustentvel at que Jessie se 
sentiu impelida a romp-lo. Como o nico assunto sobre o qual se sentia segura para falar envolvia os garotos, armou-se de coragem.
   - No sei se sou a pessoa certa para tomar conta dos dois. No sei nada sobre ser me.
   A preocupao embutida na voz de Jessie era a desculpa de que ele precisava para atravessar a pequena sala e entrar no quarto. Ento ajoelhou-se ao lado da cama, 
esforando-se para no ceder  tentao de tom-la nos braos.
   - Creio que eles precisam mais de um amigo do que de qualquer outra coisa. Como j lhe disse, Kenny afirma ser primo de Marty e que no lhes resta nenhum parente 
no Kansas. Sabemos que no posso lev-los comigo. Os dois gostam de voc. E, o mais importante, confiam em voc.
   Jessie segurou a colcha com fora, querendo perguntar por que ele no confiava nela. Mas calou-se.
   - Desculpe-me ter sado daqui daquela maneira, to furioso.
   - Voc tinha razo.
   - , acho que sim. - Se Jessie soava fria e indiferente agora, tinha apenas a si mesmo a quem culpar. Por causa de sua atitude, a mulher vibrante daquela tarde, 
ansiosa por seus beijos, se fechara inteiramente.
   -  melhor voc dormir um pouco. A manh no demorar a chegar. Boa noite, Logan.
   - Jessie, eu...
   - Boa noite. - Ela bendisse a escurido que o impedia de enxergar a verdade estampada em seus olhos. O desejo de lhe pedir para passar a noite ao seu lado.
   Quando, enfim, Logan se afastou, suspirou aliviada. Todavia, apesar do cansao, foi incapaz de dormir.
   
   Duas vezes Logan se levantou e se aproximou da cama onde Jessie dormia. Duas vezes voltou atrs, desistindo de acord-la, embora ansiasse descobrir o que a atormentara 
durante todo o dia.
   Porm, quando a ouviu gritar no meio da noite, sua reao foi imediata. No parou para pensar. Simplesmente atravessou a distncia que os separava e a tomou nos 
braos em silncio, apertando o corpo rgido e coberto de suor junto do peito. Por que naquela, entre todas as noites, Jessie fora ter um pesadelo?
   Ainda no se esquecera dos acontecimentos do dia, da maneira estranha como ela se comportara ao voltar da cidade e de todas as suas perguntas sem respostas. Contudo, 
no era o momento de exigir explicaes.
   Sentindo-a agitada, ofegante, Logan a acalentou, at que os tremores desapareceram. Os seios rgidos sob a camisola pressionavam-lhe o peito, excitando-o. No 
querendo se aproveitar da situao, procurou se afastar, entretanto ela continuou segurando-o firme. Com certeza no tinha idia de como o afetava.
   No era nenhum rapazinho inexperiente, mas o fato  que Jessie tinha um poder absoluto sobre seus sentidos, sendo capaz de faz-lo arder de desejo pela simples 
proximidade.
   Estava decidido a no tirar vantagem daquele instante de extrema vulnerabilidade, porm o perfume do corpo feminino o intoxicava. Jamais fora santo e tampouco 
tinha vontade de o ser.
   Um dos dois precisava agir com sensatez. Logan preferiria no se incumbir da tarefa, infelizmente no tardou a descobrir que no lhe restava alternativa.
   - Jessie? Voc acha que consegue voltar a dormir agora? - Ele tentou se desvencilhar dos braos que o prendiam, em vo.
   - No consigo dormir. - Sua voz soou abafada, os lbios roando o peito forte de Logan. A pele bronzeada cheirava to bem, que ela no resistiu ao impulso e o 
lambeu de leve.
   Oh, Deus, ele deveria confort-la, no saciar a fome que o consumia. A questo  que Jessie o estava tentando de tal maneira, que acabaria se esquecendo das boas 
intenes.
   - Jessie, querida, pare. Voc no sabe o que...
   - Sim. Oh, sim, eu sei... - Languidamente, ela ps-se a beij-lo no ombro, no pescoo, os dedos delicados acariciando-o nas costas.
   A ltima coisa que Logan queria era recus-la, no quando ansiava possu-la at a alma.
   - Oua-me, e oua-me com ateno, porque no sei se serei capaz de repetir. Se voc no parar agora, irei beij-la e se a beijar, nada conseguir me fazer parar.
   - E se eu quiser beij-lo? E se, pelo menos essa vez, eu no quiser pensar no amanh, mas apenas no agora. O que voc diria, se eu lhe confessasse que tudo o 
que desejo  voc? - Jessie calou-se, sem saber como tivera coragem de expor o que lhe ia no fundo do corao. Ter sonhado com o que acontecera na loja e conhecer 
a extenso do perigo que Logan corria, parecia haver colocado a importncia das coisas numa nova perspectiva. Talvez Logan pretendesse voltar um dia, mas talvez 
no sobrevivesse. Os motivos eram muitos para transformar algo errado em certo. Assim, deitar-se com um homem que, provavelmente, no tornaria a, ver tornava-se 
aceitvel.
   Por um instante Logan hesitou, dando-lhe uma ltima chance de voltar atrs. Ento se apossou dos lbios femininos, num beijo devastador. As lnguas de ambos se 
encontraram, sugando o gosto um do outro com sofreguido.
   Louca de desejo, Jessie o segurou pelos cabelos, puxando-o ainda para mais perto, como se temesse v-lo desaparecer, apertando-o de encontro aos seios num gesto 
carregado de erotismo.
   Ele inclinou a cabea para o lado, aprofundando o beijo, fazendo-a se esquecer de tudo. Nada mais importava, a no ser as sensaes deliciosas que os arrastavam 
num labirinto sensual.
   - Jessie, quero ver seu corpo inteiro - Logan sussurrou, a respirao ofegante. - Quero sentir sua pele nua contra a minha. - Num gesto rpido e delicado, ele 
a livrou da camisola, curvando-se para tomar um dos mamilos intumescidos na boca.
   Ela queria ser capaz de separar cada uma daquelas sensaes maravilhosas, queria poder sabore-las e guard-las na memria, pois seria tudo o que lhe restaria 
depois que Logan partisse. O calor da boca sensual... a firmeza das mos que gentilmente a seguravam... o cheiro msculo da pele bronzeada, os msculos rgidos e 
retesados.
   Ao acarici-la de leve nas coxas, Logan sentiu-lhe a tenso.
   - Voc no precisa ter medo de mim, querida. Sabe disso, no sabe? Eu no iria machuc-la. Jamais. Em especial neste momento, quando voc est to vulnervel 
quanto eu.
   - Mas voc no est assim to vulnervel - ela murmurou, corando. - Ainda no tirou a cala.
    - Irei tir-la. Quando voc estiver pronta. 
   - Quando eu...
   As palavras se perderam num beijo ardente e devorador, at que Jessie rompeu o contato e deslizou a lngua pelo pescoo forte de Logan, ansiosa para sentir o 
gosto do peito largo.
   Ele a segurou pelos cabelos e estremeceu ao ter um dos mamilos sugados.
   - Os homens... isto , ser que voc sente a mesma coisa que eu quando... ah...
   - Qualquer coisa que a agrade tambm me agrada.
   Logan estava to excitado, o sexo to ereto, que no sabia por mais quanto tempo poderia se controlar.
   - Deite-se na cama comigo - ela pediu baixinho, encostando-se na parede para lhe dar maior espao.
   - Era tudo o que eu esperava ouvir.
   Ficar de p, no estado em que se encontrava, no foi fcil. Porm, mais difcil ainda, foi controlar o tremor das mos no momento de desabotoar a cala. Se bem 
que no podia culpar os botes, e sim o membro rgido sob o tecido.
   Ao colocar um joelho sobre a cama, sentiu Jessie toc-lo de leve. Pego de surpresa, permaneceu onde estava, percebendo quo hesitante, quase tmido, aquele toque 
havia sido, apesar da aparente ousadia. Queria se entregar completamente ao prazer de ter o sexo acariciado, entretanto temia assust-la ao mover-se.
   - Nunca imaginei que um homem pudesse ser to macio e rgido ao mesmo tempo.
   Tamanha inocncia vinda de uma mulher que j fora casada? Preferia no fazer a pergunta bvia. As carcias de Jessie foram se tornando mais ousadas, para o delrio 
de Logan. At que, sabendo-se  beira do clmax, foi obrigado a interromp-la.
   - Querida, espere. No assim.
   Interpretando as palavras como uma crtica, ela recuou, insegura.
   - Errei ao toc-lo, no foi?
   - No. Adorei que me tocasse. Quero que me toque sempre.
   - Se gostou tanto, por que me impediu de continuar?
   - Porque, linda mulher, alguns segundos a mais e eu terminaria antes de voc comear. Prazer, querida. Lembra-se do que eu lhe disse?
   - Sim. Foi o que me permitiu ousar. Harry nunca me deixou...
   - Harry est morto. Harry no vai ser um fantasma entre ns dois essa noite. Existe apenas voc, eu e uma noite inteira de amor  nossa espera.
   - Noite inteira? Isto , mais do que uma vez?
   A risada de Logan, profunda e sensual, a fez rir tambm. Jamais se sentira assim, livre, ansiosa para entrar num mundo desconhecido.
   - Oh, Logan, me ame. Agora, por favor!
   Assim, ele deu a Jessie tudo o que podia, tanto prazer quanto ambos eram capazes de suportar. E descobriu que aquela mulher delicada era uma amante generosa, 
pronta para retribuir cada carcia, cada beijo com igual ardor, correspondendo s suas investidas com ousadia, entregando-se sem reservas.
   Jessie estava extasiada. Logan soubera despi-la de todas as suas inibies, arrastando-a num turbilho de sensaes inimaginveis.
   Quando sua pele estava suada e a respirao arfante, Logan lhe mostrou uma outra face do amor at ento desconhecida, algo que lhe satisfaria completamente o 
corpo, a mente e a alma.
   - Vou ser muito, muito cuidadoso com voc, querida. Am-la deve ser sempre assim... algo sem pressa.
   Logan se sabia  beira do orgasmo, mas aguardava Jessie. Nunca tivera problemas esperando o momento certo de uma mulher antes, porm Jessie, ah, Jessie, com seus 
toques suaves e lbios sussurrantes... Jessie o enlouquecia.
   Ela gritou alto, o corpo estremecendo violentamente. Mais uma nica investida, ele se prometeu, penetrando-a fundo enquanto se apossava, da boca quente e macia.
   Segundos depois, Jessie atingia o clmax e foi necessria uma enorme fora de vontade para comear a se retirar de dentro daquele corpo exuberante. Entretanto 
ela o segurou pelos quadris, impedindo-o de completar o gesto.
   - Pense, Jessie. Pense no que voc est fazendo - Logan murmurou, a voz um gemido selvagem.
   - No posso pensar. Sei apenas que quero voc. Fique. Fique dentro de mim.
   Nunca antes derramara sua semente dentro de uma mulher. Nunca quisera faz-lo. Nunca se descontrolara o suficiente para se esquecer de que uma noite de prazer 
poderia ter seu preo cobrado dali a nove meses.
   Porm no se sentia capaz de se negar a Jessie. Queria que o momento presente durasse para sempre e deixou-se derramar at a ltima gota.
   Muito tempo se passou antes que Jessie voltasse a abrir os olhos. Logan continuava deitado sobre seu corpo, pressionando-a contra a cama. Ela sorriu para si mesma, 
acariciando-o de leve nas costas. Logo as bocas de ambos se encontravam, num beijo cheio de carinho.
   - Voc est bem? - ele perguntou, tocando-a nos cabelos, o rosto revelando uma ternura imensa.
   - Sim - Jessie respondeu, abraando-o com tanta fora que quase o sufocou.
   - Calma, minha querida. No vou a lugar nenhum. Mas voc vai sim, ela teve vontade de protestar. Em vez disso, falou apenas:
   - Voc no pode partir ainda. Prometeu-me uma noite inteira de...
   - Amor. Esta noite eu sou seu e voc  minha.
   - Sim. Esta noite. Ento...
   Desta vez Logan a silenciou com um beijo, sabendo que lhes restavam poucas horas. No todo o tempo que desejava, por que para os que amam a eternidade  pouco.
   Pudera dar-lhe apenas uma noite da qual se lembrar, uma noite em que no sabiam onde um terminava e o outro comeava.
   Uma luz tnue iluminava o chal quando Jessie adormeceu, guardando consigo a imagem de um sorriso masculino.
   Ao acordar, Logan havia partido.
   
   
   CAPTULO XIII
   
   Um cavaleiro solitrio, no alto de uma pequena colina, olhava a paisagem que se desdobrava  sua frente, iluminada pela luar. Conhecia cada centmetro daquelas 
terras como a palma da mo.
   Devia passar da meia-noite e sua jornada de trs dias finalmente chegara ao fim. Estava de volta a Rocking K. Estava em casa outra vez.
   A questo  que no podia vencer os ltimos metros at a casa gritando de alegria para anunciar sua chegada, como costumara fazer no passado. Se agisse assim, 
desmentiria a verso, cuidadosamente elaborada, de que preferira dar as costas  famlia para seguir os caminhos de um fora-da-lei.
   A noite estava fria. Incrvel pensar que passara os ltimos oito meses longe dali. O outono chegara sem que se desse conta.
   Seu nico pesar era no ter Jessie ao seu lado. Uma idia tola, pois no poderia manter a charada se a tivesse trazido consigo. Precisava se esforar para no 
quebrar a promessa que fizera a si mesmo ao deixar o chal. No pensar em Jessie at ter condies de lhe oferecer um futuro juntos.
   A promessa o ajudara a vencer a jornada solitria, atravessando terras onde a sobrevivncia era a nica lei. L embaixo, os contornos da Casa Grande, em estilo 
espanhol, se sobressaam dentro da noite. Um riacho corria logo atrs, desaguando num lago natural onde ele e os irmos haviam aprendido a nadar sob a superviso 
atenta de Santo. Lembranas daqueles dias felizes e descuidados o assaltaram com uma fora insuspeitada. Isso, tambm, precisava ser deixado de lado.
   Numa das laterais da casa, protegido por paredes de adobe, pintadas de branco, ficava o orgulho de sua me: o jardim. Havia algo naquele lugar que sempre o emocionara. 
Uma sensao de paz e tranqilidade, de estar fora do mundo, talvez.
   Logan cobriu a distncia que o separava da casa procurando no fazer barulho. Ento desmontou e amarrou as rdeas do cavalo no galho de uma rvore. O animal que 
Jessie lhe comprara revelara-se de qualidade e bem merecia, agora, descanso e uma tigela cheia de aveia.
   Mantendo-se junto s paredes da casa, protegido pelas sombras, Logan teve o cuidado de no se aproximar do chal onde moravam Santo e Sofia. O velho, que se mostrava 
indignado quando Logan e Ty o chamavam assim, sempre tivera sono leve. Incomodava-o no haver podido contar a verdade sobre sua partida a Santo, porm o fato do 
noivo de sua filha, Rosanna, estar na lista dos suspeitos, no lhe deixara outra alternativa. Conner e sua me haviam insistido para que ningum mais soubesse do 
plano.
   Os nicos animais ausentes de Rocking K eram cachorros, porque sua me os temia. O que vinha a calhar no momento. Sem medo de ter a presena revelada por latidos, 
Logan aproximou-se dos fundos da casa, onde ficavam os quartos. Deveria ter trazido a corda que Jessie lhe comprara. Agora via-se obrigado a escalar o porto do 
jardim e tentar alcanar a janela de seu quarto, como fizera centenas de vezes na infncia e adolescncia. Porm a tarefa lhe parecia muito mais difcil do que no 
passado. Se houvesse outra maneira... Se seu ombro j estivesse completamente bom...
   Logan tomou distncia e correu antes de pular e agarrar-se ao topo do pesado porto de madeira, sufocando um grito dilacerante de dor ao forar o ombro. Tentando 
ignorar o intenso desconforto, inspirou fundo, absorvendo o perfume das flores com sofreguido.
   Depois, ento, atravessou o jardim e marchou para a janela do quarto, a casa escura dando a impresso de guardar dentro de suas paredes todo o amor e a paz do 
mundo.
   Uma das primeiras coisas que pretendia fazer quando entrasse, era calar um par de suas prprias botas. Os dedos dos ps estavam dormentes por ficarem apertados 
nas botas de Harry.
   Ainda bem que no chovera recentemente, ou a janela teria emperrado, dando-lhe um trabalho para abri-la. Como o ar estava seco, abriu a janela sem dificuldade 
e entrou.
   - V entrando, v entrando e falando rpido, senhor. Diga-me por que no devo lhe meter uma bala. - Dixie Rawlins, em breve sra. Tyrel Kincaid, encostou o cano 
da arma no pescoo do intruso. - No o estou escutando falar, senhor.
   - Quem diabos  voc? - Logan estava furioso.
   - Eu perguntei primeiro. E como estou segurando a arma, exijo uma resposta j.
   - Lady, tire a arma do meu pescoo. No vou machuc-la. Pelos cus, eu... - Logan fez uma pausa. No sabia quem era aquela mulher. Tampouco podia revelar a prpria 
identidade, explicando que o quarto lhe pertencia. Restava-lhe convenc-la a chamar Conner antes de levar um tiro.
   - Por que voc no vai...
   Dixie bateu numa das paredes, como se para avisar algum.
   - Por que isso? O quarto ao lado est vazio. Ou pelo menos estava. Oua, lady, traga Conner aqui.
   A voz rouca exudava comando, o que chamou a ateno de Dixie. Tambm o fato de o estranho saber sobre o quarto ao lado, que pertencia a Ty, ter estado desocupado. 
Novamente ela bateu trs vezes na parede, o sinal que combinara com Ty para que pudessem se encontrar a ss. A me de seu noivo insistia em mant-los sob vigilncia 
constante at o casamento.
   - Quer parar, por favor? Vai acordar a casa inteira.
   - Parece-me uma boa idia. No sei o que voc esperava roubar, mas, acredite-me, escolheu o lugar errada. Com certeza no conhece os Kincaid. E devo lhe avisar 
que sou excelente atiradora. Estando to perto assim, eu s erraria o alvo com a interveno direta de Deus.
   - Dixie?
   - Ty, entre e acenda o lampio. Apanhei um ladro se esgueirando para dentro do meu quarto.
   - Ty?
   - Oh, droga! - Ao ouvir a voz do irmo, Ty correu ao encontro dele e, na sua pressa, acabou batendo a perna na beirada da cama. - Maldio! Dixie, largue essa 
arma.
   - De jeito nenhum. Ty? Alguma coisa errada? Voc parece estar sentindo dor.
   - E estou. Esse  meu irmo, Dixie. Logan.
   - Logan?
   - Sim. Sou Logan. Abaixe a arma, querida.
   - No me chame assim. Mas agora sei de onde Ty tirou essa mania.
   Quando Ty finalmente acendeu o lampio, Dixie pde dar uma boa olhada no outro irmo Kincaid. Quando os dois homens se abraaram, ela aproveitou o momento para 
colocar um xale sobre os ombros enquanto os observava com ateno.
   As semelhanas eram incontestveis. A mesma beleza viril, embora considerasse o noivo ainda mais bonito. Os mesmos olhos azuis e cabelos escuros. Logan, um pouquinho 
mais alto e mais corpulento, parecia no apenas mais velho do que o irmo, porm mais duro tambm, como se o tempo tivesse deixado marcas profundas em sua alma.
   Se os rumores que ouvira fossem verdadeiros, Logan deixara Rocking K para se tornar um fora-da-lei. Nos ltimos dois meses, Ty sara diversas vezes  procura 
do irmo, seguindo pistas em geral falsas, e voltara sempre decepcionado. Agora Logan estava de volta.
   Ty afastou-se do irmo alguns centmetros e o segurou pelos ombros. Ao v-lo vacilar, preocupou-se.
   - Voc foi ferido.
   - Um ferimento superficial. Nada para se preocupar. Sabe como me recupero rpido.
   Embora desejasse fazer perguntas, Ty acabou calando-se ao notar a expresso sria de Logan. Talvez no fosse o momento certo de pression-lo, exigindo explicaes. 
Deveria esperar at que estivesse pronto para falar.
   - No se preocupe, Ty. Uma linda dama cuidou de mim.
   Os dois sorriram daquela maneira to comum aos homens, quando do a impresso de se fechar num mundo tipicamente masculino.
   - Ty j no est disponvel para lindas damas. E como vocs so to semelhantes, fico me perguntando se no  significativo o fato de ambos terem sido feridos 
no ombro.
   - Se est pensando no que eu estou pensando, Dixie, ento meu irmo est a caminho do altar - Ty falou rindo.
   - O que aconteceu com voc, garoto?
   - Acho que j no tenho idade para ser chamado assim. - Entretanto, olhando nos olhos de Logan, tudo o que Ty enxergou foi o mesmo brilho protetor de anos atrs, 
a mesma disposio de proteger o caula das ameaas do mundo. Comovido, tornou a abraar Logan, dizendo o quanto estava grato aos cus por t-lo de volta, so e 
salvo.
   Afastando-se, Logan estudou a expresso sorridente do irmo.
   - Ento  verdade? Voc vai abrir mo de uma vida errante para fixar razes?
   - Sim. Serei um homem casado na prxima semana.
   - Voc? Casado? - Era demais. Primeiro o choque de encontrar uma mulher no seu quarto. Alis, uma mulher bastante familiarizada com o uso de armas. Depois, a 
descoberta de que Ty estava em casa, aps haver passado anos perambulando sem destino pelo oeste do pas, cumprindo a promessa de no voltar a Rocking K enquanto 
Conner estivesse no comando dos negcios. E agora isso. Seu irmo caula no era mais o garoto atrevido que sara de casa cinco atrs, mas um homem feito, prestes 
a se casar.
   - Quem sabe que voc est de volta? - Ty indagou, interrompendo o curso de seus pensamentos.
   - Ningum. Pulei o muro do jardim.
   - Espere s at Conner v-lo. No acreditei no que ouvi as pessoas comentando, Logan. Sei quo arrogante nosso irmo mais velho pode ser e por isso mesmo sa 
de casa. Porm o conheo muito bem. Voc nunca se associaria a bandidos. Entretanto, devo admitir que, se no fosse por Dixie, no teria voltado para casa. Venha 
c, querida, deixe-me lhe apresentar meu irmo de maneira correta.
   Ty fez as apresentaes, no se cansando de elogiar o irmo. At que Logan o fez parar.
   - Quase todos os meus maus hbitos se devem ao exemplo de Logan - ele brincou, abraando a noiva e beijando-a no rosto.
   - Ainda no consigo acreditar. Voc jurou nunca se prender a mulher alguma, Ty. - Virando-se para Dixie, completou: - No que eu o culpe. Voc  uma bela mulher. 
E inteligente tambm, se foi capaz de dom-lo, e...
   - No foi exatamente o que aconteceu - Dixie interveio.
   - Dixie estava caando o assassino do pai quando a salvei de ser linchada por um bando de mineiros enfurecidos - Ty explicou.
   - No  que voc tenha me resgatado, querido. Meteu-se no meio de meus problemas por motivos particulares. Ty riu com prazer.
   -  Motivos realmente particulares. O fato  que sentia uma atrao to grande por essa mulher, que acabei levando uma facada no ombro, roubando cavalos e quase 
colocando Greg Ruthland e famlia num perigo mortal. Porm quase perdi a mulher que amo tambm. Ela levou uma bala destinada a mim. Por isso, vim para casa.
   - Isso aconteceu apenas porque voc tinha certeza de que estvamos seguros naquela vala. Se a tempestade... Oh - Dixie murmurou, estremecendo ao se lembrar de 
como haviam desafiado a tempestade e os homens que pretendiam mat-los -, no vamos falar disso agora. Estamos a salvo e s espero que, um dia, o homem por trs 
da morte de meu pai pague pelo que fez.
   - Est vendo, Logan, como foi bom eu ter aparecido no caminho dessa mulher? De outra forma, ela terminaria sendo um punhado de ossos perdidos nas montanhas. - 
Sorrindo, Ty beijou a noiva no rosto. - Certo, querida?
   - Eu no era exatamente uma criatura indefesa...
   - No foi o que voc me disse na semana passada. Chegou a me chamar de seu heri, lembra-se?
   - Ty!
   - Estou apenas brincando. - Para Logan: - Dixie significa mais do que qualquer coisa para mim. Encontrei o homem que matou o pai dela e quase a matou tambm. 
Contudo no fui capaz de descobrir o verdadeiro chefe, a pessoa por trs de toda a trama. Voltamos para Aztec para saber quem ficara com as terras que pertenceram 
ao pai de Dixie. Parece que uma companhia  dona do lugar agora.
   - Aztec? Fica a oeste daqui. - Logan lembrava-se de ter ouvido Monte fazer algum comentrio sobre o lugar. S no se recordava do que o bandido dissera.
   - Sim. Do outro lado de Gila Bend. Espero que voc receba Dixie de braos abertos em nossa famlia. Porm lembre-se de que ela  minha.
   Logan fitou a mulher pela qual seu irmo se apaixonara to perdidamente. Com os cabelos escuros puxados para trs numa nica trana, no havia nada que lhe toldasse 
as feies. Sim, tratava-se de uma mulher forte o bastante para enfrentar Ty de igual para igual e suave o suficiente para mant-lo cativo de seus encantos. No 
tinha dvidas de que Dixie j vivenciara fases duras, mas gostava da maneira como ela o fitava, sem subterfgios, como algum que no tem nada a esconder.
   - Dixie, cuide de meu irmo e ter em mim um amigo para a vida inteira. E agora, se meu irmozinho no se importar, eu gostaria de beijar a noiva.
   Ela se sentiu to tmida junto de Logan como quando conhecera Conner. Por um instante, hesitou, ento apoiou as mos nos ombros fortes do cunhado e ficou nas 
pontas dos ps para beij-lo no rosto.
   - Bem-vindo de volta ao lar - Dixie murmurou, para que o noivo no ouvisse. - Ty sentiu sua falta. Estava preocupado tambm.
   Segurando-a pelo queixo, Logan a impediu de afastar-se.
   - No to depressa assim, beleza. - Ele viu a surpresa estampada nos olhos expressivos e soube o que se passava pela cabea de Dixie. Porm no a beijou nos lbios. 
Apenas a roou de leve na testa.
   - Faa-o feliz e o mantenha aqui. Ty ama esse lugar imensamente. Voc  uma mulher de sorte, Dixie. - Logan a abraou, os olhos encontrando-se com os do irmo 
e aprovando a escolha em silncio.
   Ty puxou a noiva para junto de si, o gesto simples transbordante de ternura. Vendo o amor estampado nos rostos jovens e confiantes, Logan foi tomado por uma terrvel 
sensao de solido.
   Num esforo supremo, tentou bloquear a imagem de Jessie que insistia em lhe vir  mente. Talvez fosse mais fcil tentar parar de respirar. Nunca se imaginara 
capaz de sentir tanta saudade de algum, uma saudade que o feria fundo.
   Alarmado ao notar que o irmo fechava os olhos, como se em sofrimento, Ty se aproximou.
   - Algo errado? Venha, sente-se aqui, na cama. Abrindo os olhos, Logan olhou ao redor.
   - Diabo de lugar para uma reunio de famlia, hein, Ty? - Na companhia do diabo era onde temi tornar a encontr-lo. Dixie, v buscar um pouco de usque. Mas no 
acorde ningum ainda, querida. Quero conversar a ss com meu irmo.
   - No, Dixie, v chamar Conner. Nunca imaginei encontr-lo aqui, Ty. Mas agora que est em casa, tem coisas que precisa saber. E no pretendo repetir a mesma 
histria duas vezes.
   Dixie fitou o noivo, esperando aprovao.
   - Pode ir cham-lo, querida. Parece que existem alguns segredos dos quais eu no fazia idia.
   - No me venha com essa histria, irmozinho. Ningum nunca soube de seu paradeiro. Voc no costumava aparecer por aqui com freqncia nesses ltimos anos. - 
Logan esperou que Dixie sasse do quarto antes de continuar. - Uma mulher e tanto essa que voc arrumou, garoto. Tenho a impresso de que se ela no houvesse gostado 
de minhas explicaes, eu acabaria levando uma bala.
   - Acredite-me, Dixie sabe manejar uma arma como poucos.
   Novamente Logan se viu atormentado por lembranas de Jessie, como na noite em que ela saiu para espantar o ladro de galinhas. Oh, Deus, precisava parar de pensar 
naquele rosto delicado, nos cabelos sedosos, na pele perfumada... No!
   A necessidade imperiosa de toc-la o fez cerrar os punhos, consumido pela culpa de haver partido sem dizer adeus. Infelizmente no tivera outra escolha.
   - Tenho a impresso de que eu ficava como voc, Logan, quando passava as noites cuidando de Dixie. Voc se apaixonou tambm, no ?
   - O amor  assim?
   - Como um fogo que o faz arder?
   - No acredito. Meu irmozinho me falando sobre os sentimentos que uma mulher  capaz de despertar num corao apaixonado.
   - Pois pode acreditar - Ty respondeu rindo. - Em se tratando de amor, passei  sua frente e na frente de Conner. Pela primeira vez, sou o primeiro a...
   - O primeiro a qu? - Conner indagou, entrando no quarto.
   
   
   CAPTULO XIV
   
   Dixie entrou no quarto logo atrs de Conner, carregando uma bandeja com copos de cristal e uma garrafa de usque.
   - Antes que algum diga uma palavra, quero fazer um brinde ao meu irmo e  sua noiva. - Notando o olhar cheio de interrogaes de Conner, Logan deu de ombros. 
- Como  que eu podia adivinhar que ela estava no meu quarto? No h como voltar atrs.
   - Maldio! Acho bom vocs dois comearem a me explicar essa histria direitinho. Tenho o direito de saber o que est se passando. Voc - Ty virou-se para o irmo 
mais velho -, afirmou no saber onde Logan estava, ou o que estaria fazendo. No  possvel que acreditasse que ns no ouviramos os boatos sobre Logan ter se tornado 
um fora-da-lei. Entretanto voc no tomou nenhuma atitude para pr um fim nesses rumores absurdos.
   - Ty. - Dixie entregou um copo de usque ao noivo. - D ao seu irmo uma chance de explicar. - Ento ela lanou aos cunhados um olhar furioso, a voz perigosamente 
doce. 
   - E vocs iro explicar tudo, certo?
   - Ento existe um pouco de vinagre sob todo esse acar? - Logan riu quando Ty concordou com um aceno. - Vai pegar sua arma outra vez, pequena dama, e me obrigar 
a falar?
   - Se for necessrio - Dixie respondeu, passando um brao ao redor da cintura do noivo. - Ty tem estado muito preocupado com voc. Quando ele se preocupa, eu me 
preocupo tambm. Portanto, faa seu brinde e, por favor, ponha um fim nesse suspense.
   Conner, descalo e sem camisa, serviu-se de uma dose de usque e se encostou na porta, erguendo o copo como se para apressar Logan.
   - Calma, Conner. O que tenho a lhe dizer pode esperar um pouco. No  todo dia que um homem volta para casa e descobre que o irmo caula foi fisgado. O primeiro 
brinde  para a noiva. Adorvel, inteligente e com qualidades suficientes para laar um dos melhores homens que conheo. E para voc, Ty, o melhor irmo que um homem 
pode ter, e o mais difcil tambm. Meus votos de felicidades para o primeiro Kincaid a se casar e possam ser seus problemas sempre pequenos.
   - Banal, Logan. Realmente banal - Conner falou. -  o melhor que consegue fazer?
   - Depois de viajar trs dias seguidos, tudo o que encontro aqui so crticas. Mas  s o que me vem  mente no momento.
   - Brindemos aos sentimentos, no s palavras. - Ty esvaziou o copo de uma s vez, porm preocupou-se ao ver Logan imit-lo e tornar a se servir de mais usque. 
- Voc no quer comer algo?
   - No. E fico satisfeito ao constatar o quanto voc amadureceu, irmozinho. Houve uma poca em que estaria me pressionando, exigindo saber o que anda acontecendo. 
Sim, essa dama lhe fez muito bem.
   Dixie riu, perguntando-se se Ty, ou Conner, haviam percebido a nota de tristeza na voz de Logan. Tinha a sensao estranha de que o cunhado estava sentindo desesperadamente 
a falta de algum.
   - Voc se importaria se eu me sentasse na cama? - Logan perguntou  Dixie. - Devo estar ficando velho. Sinto dor em todos os msculos. Se eu no comear a falar 
logo, o velho Conner vai ter um ataque de nervos. Deixem-me apenas tirar essas malditas botas antes que meus ps se esqueam de que pertencem a mim.
   - As botas no so suas? - Dixie indagou surpresa.
   Conner continuava encostado na porta. Ty, porm, se sentara na cadeira de balano e puxara a noiva para o colo, preparando-se para ouvir as explicaes de Logan.
   - Quando Conner e eu falhamos em descobrir quem estava por trs dos assaltos e dos roubos de gado, elaboramos um plano.
   - Hazer me falou sobre a briga feia que vocs dois tiveram.
   - No acredite nisso, Ty. Claro que os socos pareceram bem reais e quando Conner me ps para fora da fazenda, as pessoas se convenceram de que ns havamos rompido 
em definitivo. Entretanto, vrios meses se passaram antes que eu conseguisse me infiltrar no bando certo. - Esfregando o queixo devagar, Logan fitou o irmo mais 
velho. - Eu estive presente nos ltimos quatro roubos  mina. Sinto muito que aqueles homens tenham sido mortos.
   - Voc no poderia ter impedido. Se o fizesse, poria todo o plano a perder e seramos obrigados a pensar em outra maneira de descobrir a identidade de quem est 
por trs de tudo isso.
   - Conner, sua compreenso no suaviza minha culpa. Todavia foi quando levei um tiro tambm.
   - No! Os guardas que sobreviveram no disseram nada sobre terem atirado num dos bandidos - Conner protestou.
   - No sei se a bala que me atingiu veio de um dos guardas, ou de um dos homens com quem eu estava. Tudo o que sei  que perdi a conscincia. Ento roubaram meu 
cavalo, minhas armas e me abandonaram  morte.
   - Obviamente voc no morreu - Dixie falou. - Foi quando sua linda dama o encontrou?
   Logan fitou-a. Mulher observadora a noiva de Ty.
   - No exatamente. Dois rfos iam me enterrar quando...
   - Por Deus, Logan, o que diabos voc estava fazendo?
   - Calma, Conner, estou aqui, no estou? Os garotos pensaram estar praticando uma boa ao. De qualquer maneira, quando perceberam o erro, embrulharam-me numa 
manta e me deixaram na soleira da porta de uma viva.
   Dixie se aconchegou a Ty. Tentando aliviar a tenso do ambiente, brincou:
   - Aposto que ela o considerou um presente de Natal adiantado.
   - De forma alguma. A viva, Jessie, no podia...
   - Jessie? - Ty o interrompeu. - Esqueci-me de Jessie!
   - Ty, voc prometeu a Greg que iria v-la.
   - Sei disso. Porm acabei me esquecendo. Mas vou at l verificar se est tudo bem.
   - Vocs dois poderiam me explicar sobre o que esto falando? - Logan perguntou, comeando a se sentir apreensivo.
   - Voc no a conhece, Logan. Alguns anos atrs, vendemos vrias cabeas de gado para Greg Ruthland. Fui visit-lo na mesma ocasio em que a irm dele, Jessie, 
acabara de chegar. A tia de ambos morrera e Jessie no tinha onde ficar. Lvia, esposa de Greg, tentou nos aproximar, porm achei Jessie uma coisinha to tmida 
e quieta que no me entusiasmei.
   - tima coisa - Dixie aprovou, abraando-o pelo pescoo. - Ty lhe contou como nos conhecemos, mas se esqueceu de lhe dizer que estvamos fugindo dos homens cujos 
cavalos havamos roubado na mesma noite em que ele levou uma facada, tentando me salvar. Fomos at a fazenda de Greg, sem saber que estvamos sendo seguidos. Enquanto 
ficamos l, Greg nos contou que a irm tinha se casado com um homem de quem no gostava e em quem no confiava. Ele estava preocupado porque h meses no recebia 
notcias de Jessie. Ty prometeu ver se descobria alguma coisa quando passasse pelas redondezas. S no me lembro do nome do lugar.
   - Nas proximidades das montanhas Superstititon, perto de Apache Junction. S que nunca fui v-la. Maldio!
   - Pare com isso, Ty. No  culpa sua - Dixie o reassegurou. - Levei um tiro e...
   - Voc quase morreu.
   - Mas voc me trouxe para c e sua me e Sofia cuidaram de mim. De qualquer forma, no pode ser a mesma mulher. Voc disse que ela  viva, no, Logan?
   - Sim. Minha Jessie  viva. De um homem que no lhe dava ateno por estar muito ocupado procurando ouro.
   Logan ficou em silncio, os olhos fixos no copo. Todos o estavam observando, aguardando-o confirmar se se tratava da mesma mulher. Sua Jessie. Gostava do som 
daquelas palavras. O que no lhe agradava era o olhar especulador de Ty.
   - O que eu realmente queria saber, Conner - Ty falou num tom baixo e calmo -,  por que voc no pde me contar a verdade.
   - Quando? Quando voc trouxe Dixie para casa  beira da morte, consumida por uma febre que nada fazia baixar? Ou durante as semanas em que s pensava em descobrir 
o paradeiro do assassino do pai dela? - Conner, que raramente bebia, esvaziou o copo e o colocou com fora sobre a cmoda, furioso por suas atitudes estarem sendo 
questionadas. - Eu no podia lhe contar. Ningum, a no ser nossa me, sabe sobre a misso de Logan.
   - Conner, conte a Ty. Ele tem o direito de saber - Logan insistiu, depositando o copo sobre a mesinha de cabeceira.
   - Sinto-me mal s de pensar no assunto.
   - O que vocs dois esto escondendo de mim?
   Percebendo que Conner no queria mesmo tocar no assunto, Logan se incumbiu de esclarecer o caso.
   - Algum, muito prximo de nosso irmo, est trabalhando a favor dos bandidos. Vi isso de perto. At a mudana peridica dos dias de pagamento e de carregamento 
de minrio de nada adiantou. Eles sempre sabiam a data exata.
   - Voc est me dizendo que um de nossos homens tem cedido as informaes que acabaro por nos arruinar? Quem? - Ty rugiu. - E no tentem me enganar.
   Dixie ficou satisfeita por estar sentada no colo do noivo, ou ele teria saltado da cadeira como um leo, pronto a atacar.
   - Querido, voc no percebe que falar no nome dessa pessoa causa uma mgoa profunda em seus irmos?
   - Espere um instante. Voc acabou de dizer que nossa me  a nica a saber sobre a misso de Logan, Conner. Ento Santo e Sofia no esto a par de nada? Voc 
acredita que ele esteja envolvido? Maldio. No acredito que seja santo!
   - Mantenha a voz baixa. A ltima coisa que precisamos  acordar nossa me. - Conner inspirou fundo, procurando manter a calma. - Ningum disse que desconfiamos 
de Santo. Porm, o homem com quem Rosanna vai se casar, Enrique, ocupa o primeiro lugar entre os suspeitos, tanto na minha lista, quanto na de Logan. Como poderamos 
dizer a Santo e Sofia que suspeitamos do homem a quem amam como um filho? Algum a quem Rafael j chama de irmo? Voc sabe o quanto Santo  orgulhoso. Seria capaz 
de morrer se descobrisse a verdade.  por isso que mantivemos o plano em segredo. Quanto menos as pessoas soubessem, mais chances Logan teria de ser bem-sucedido.
   Logan passou as mos pelos cabelos e suspirou, exausto.
   - Pelo seu olhar, Ty, voc continua furioso. E tem todo o direito de estar. Porm no sabamos onde encontr-lo, irmozinho. Voc queria que Conner mandasse avis-lo 
que eu me juntara aos bandidos? Iria querer pr minha cabea a prmio se a informao casse em mos erradas? Propositadamente, fizemos parecer que Conner, movido 
pela ganncia de controlar o imprio Kincaid, havia me forado a deixar a fazenda, depois de ter se livrado de voc. Garoto, odeio dizer isso, porm voc nunca quis 
partilhar a responsabilidade de administrar nossos bens.
   Entretanto posso ver que o casamento com Dixie o est fazendo mudar de idia. Conner j no carregar o fardo sozinho. Todavia sua raiva deve ser direcionada 
para quem merece: o canalha que est tentando nos destruir.
   - Est bem - Ty concordou depois de alguns minutos. - Vocs no poderiam me avisar. E entendo sobre Santo. A maneira como ele se sente a respeito de nossa me, 
e desse lugar, o faria matar Enrique apesar dos sentimentos da filha.
   - Voc deve saber - Conner interveio -, que nossos problemas alcanaram essas propores gigantesca depois que Rafael nos pediu para dar um emprego a Enrique. 
Logo depois, os assaltos s minas comearam. A maldita questo  que no deixei ningum saber sobre os dias de pagamentos. Como ele poderia descobrir? Como consegue 
avisar aos bandidos?
   - Tudo o que sei  que Monte tinha sempre a informao correta de onde deveramos atacar - Logan explicou. - Algumas vezes o ouvi resmungar que o velho Charlie 
iria se encrencar algum dia. Mas ningum sabia a quem ele estava se referindo. Se Enrique realmente est passando informaes, temos que procurar o cabea por trs 
dos crimes nessas proximidades. Sei que no se trata de Leo Vesta, ou Joe Rawson, os dois nicos fazendeiros da regio com dinheiro suficiente para contratar gente 
como Monte e seu bando. Alguma outra idia de quem, nas redondezas, possa estar querendo nos destruir?
   - Eu votaria em Riverton - Dixie falou sem um segundo de hesitao.
   Conner a fitou, surpreso.
   - Sim. Riverton tambm j alcanou o topo da minha lista.
   - Quem diabos  Riverton? - Logan perguntou a Conner.
   - Charles Riverton. Porm nunca ouvi ningum cham-lo de velho Charlie. Ele chegou logo depois de sua partida, Logan. Nosso novo vizinho da fazenda Circle R conseguiu 
me vencer na disputa de um novo contrato para o fornecimento de carne para as reservas. Tambm est construindo uma casa que  o dobro da nossa e tem comprado muita 
terra. Como foi que voc pensou nele, Dixie? - Conner indagou curioso.
   - Quando ele nos convidou, e a todos os vizinhos, para a fiesta na fazenda, e voc e Ty se recusaram a ir, acompanhei sua me. O homem  um exibido, fanfarro. 
No parava de falar em como havia liderado o movimento para manter a capital do territrio em Tucson. E insultou sua me quando ela comentou que a luta fora perdida, 
uma vez que a capital acabou sendo transferida para Prescott. Ele tambm afirma que ir apoiar John Fremont para ocupar o cargo de governador, embora eu acredite 
que ele mesmo esteja ambicionando o cargo.
   Ty abraou a noiva, orgulhoso.
   - Escolhi a mulher mais inteligente do mundo para minha esposa.
   - Ouam, no posso me demorar aqui, arriscando que Santo e Sofia me descubram. - Logan falou, apreensivo. - Voc suspeita mesmo desse tal de Riverton, Dixie?
   - Minha resposta  sim - ela respondeu, feliz por aquela demonstrao de que Logan realmente a aceitava como parte da famlia. Entretanto, no estou muito convencida 
sobre a participao de Enrique. Estou aqui h dois meses e pude conhec-lo melhor. Ele est sinceramente apaixonado por Rosanna e ela  to devotada aos Kincaid 
quanto a me. No entendo por que o informante no possa ser um dos outros empregados da fazenda.
   - No! - os trs irmos responderam ao mesmo tempo. Conner se encarregou de explicar.
   - A maioria desses homens trabalha na fazenda desde antes de eu nascer. Eu lhes confiaria minha vida. Enrique  o nico recm-chegado.
   - Vejo que perdi meu lugar como a chefe dessa famlia - Macria anunciou, entrando no quarto e fechando a porta atrs de si enquanto quatro pares de olhos, cheios 
de culpa, seguiam cada um de seus movimentos. - Meu filho retorna e no me informa?
   Logan levantou-se e beijou-a no rosto.
   Macria abriu os braos e acolheu o filho no seio, o que mais se parecia com o pai.
   - Madre- ele murmurou apenas. Nunca haviam sido necessrias muitas palavras entre os dois para que se compreendessem.
   - Est feito? Voc veio para ficar? 
   - No.
   - Ento veio nos dizer quem est por trs de tudo?
   - No, madre. Perdi minhas armas, meu cavalo e minhas botas. Voltei para rep-los. - S esperava que nenhum de seus irmos, ou Dixie, fizesse comentrios sobre 
seu ferimento. No queria preocupar a me alm do necessrio.
   Macria fitou os outros filhos.
   - Por que nenhum de vocs veio me acordar, avisando-me de que Logan estava em casa?
   - Eu lhes pedi que no o fizessem, madre. No posso ficar. Partirei antes do amanhecer.
   - No!
   - S. No h outra alternativa.
   - Diga-me, filho, voc j comeu?
   Logan atirou a cabea para trs e riu.
   - Venho para casa avisar aos meus irmos que falhei na empreitada e voc quer me alimentar?!
   - Ento converse com seus irmos enquanto sua cunhada me ajuda a lhe preparar algo na cozinha.
   - Nossa me parece ter envelhecido desde que parti - Logan comentou preocupado, quando os trs ficaram a ss.
   - Ela se preocupa muito quando todos os filhos no esto  sua volta - Conner respondeu. - Uma vez que voc no pretende ficar, acho melhor irmos direto ao assunto. 
No creio que seja uma boa idia juntar-se novamente ao bando de Wheeler. Suponha que tenham descoberto sua identidade e pretendam mat-lo?
   Apesar de o irmo no estar longe da verdade, Logan tinha contas a acertar com o bando e recusava-se a falhar na misso de proteger os negcios da famlia. Tambm 
preocupava-se com Jessie, sozinha com os garotos, exposta a todo tipo de perigo. Sentia falta dela. Jessie era o tipo de mulher que seus irmos apreciariam. Forte 
e suave.
   - Logan? Algo errado? - Conner indagou, notando a expresso distrada do irmo.
   - No, nada. Fale-me mais sobre esse tal de Riverton. De onde ele veio?
   - Ningum sabe ao certo. Apenas que contratou gente do Texas para cuidar do gado. Um belo rebanho, alis. Depois de todas as nossas perdas...
   - Bem que tentei dar uma olhada nos animais - Ty falou, pensativo. - Porm, de maneira polida, mas firme, fui impedido de chegar perto dos pastos. Os empregados 
deixaram claro que o sr. Riverton no gosta de estranhos junto ao gado. Sabe, acabei de me lembrar de uma coisa engraada que Dixie me contou. Vocs se lembram aquele 
velho touro que tivemos, cujo chifre esquerdo se quebrou?
   - Aquele que Dalton tentou laar e quase teve os dedos da mo arrancados? - Logan riu, embora na ocasio no achara nada engraado. - Por que a pergunta? O animal 
fugiu h tempos.
   - Bem, contei a histria a Dixie e ela me disse ter visto o velho touro.
   - Mas o que isso tem a ver com Riverton? O touro costuma aparecer nas redondezas de vez em quando.
   - Tem tudo a ver com Riverton. Foi l onde ela viu o touro.
   - L, onde? Quando? - Conner perguntou, imediatamente atento.
   - No dia da fiesta, ao retornarem, Dixie me disse ter visto o touro no meio do rebanho de Riverton. E se nosso vizinho tem misturado nosso gado ao dele?
   - A nica maneira de termos certeza  descobrir animais com a marca de Rocking K nos pastos de Riverton.
   - Pastos de quem? Dixie quis saber, entrando no quarto com uma bandeja. Macria vinha logo atrs, carregando um pequeno cesto com provises.
   - Estamos falando sobre o gado, gordo e saudvel, de nosso novo vizinho.
   - Conner! No pode ser! - Macria deixou o cesto sobre a cama e parou diante do filho mais velho, o filho que fora obrigado a ser homem antes de ser menino. - 
Conner, voc no ir faltar o respeito a Charles. No em minha casa!
   Me e filho ignoraram os murmrios de espanto dos outros, embora soubessem muito bem o que os tinha causado. Macria, nunca, jamais, lembrava aos filhos que aquelas 
eram suas terras e sua casa em primeiro lugar.
   - Charles? - Apesar de tentar se controlar, Conner no podia tolerar que sua me defendesse o principal suspeito. - Desde quando, madre, aquele homem  Charles 
para voc?
   - Desde que ele me cortejou,  mesma poca de seu pai.
   
   
   CAPTULO XV
   
   - Ao diabo que sim! - Conner explodiu.
   Por um instante um silncio pesado caiu sobre o quarto enquanto Macria, satisfeita por haver deixado claro seu ponto de vista, punha-se a arrumar po e queijo 
sobre uma mesinha sem se mostrar alterada.
   - Conner! - A voz de Logan soou firme e spera.
   - Fique fora disso, irmo!
   - Pea desculpas  nossa me. Agora. - O olhar de descrena que Conner lhe lanou o fez dar um passo  frente, pronto para confront-lo fisicamente. Ty o agarrou 
pelo brao com fora, impedindo-o de mover-se. Logan gritou ao sentir o ombro latejar. 
   - Por Deus, cuidado com o que est fazendo!
   - Mais segredos escondidos de mim? - Macria perguntou, observando o desconforto de Logan, mas sabendo que seus filhos, e mesmo Dixie, lhe contariam apenas o 
que quisessem.
   - Madre - Conner falou gentilmente -, peo-lhe desculpas por haver perdido o controle. Porm voc no pode dizer algo assim sem esperar uma reao de minha parte. 
No consigo acreditar que tenha mantido segredo.
   - No consegue acreditar? Que estranho. Existe algum neste quarto que no tenha um segredo? Um segredo que s ser partilhado quando julgarem haver chegado o 
momento perfeito? - Os olhos escuros e penetrantes estudaram a face de cada um.
   Incapaz de sustentar aquele olhar, Ty abaixou a cabea. At ento, acreditara que ningum sabia sobre sua busca contnua do homem que mandara matar o pai de Dixie.
   Logan, tambm, no pde enfrentar seu olhar. Macria sabia que o filho estava sentindo dor. Fora ferido e esperava lhe esconder o fato? E esse no era o nico 
segredo de Logan. Com certeza existia uma mulher na vida dele. Entretanto, o mais antigo de seus segredos, era o desejo de tomar a frente dos negcios, embora nunca 
houvesse desafiado Conner. Isso, tambm, ningum sabia.
   Quanto a Dixie... O segredo de sua nora seria uma grande alegria para toda a famlia dentro de nove meses. Um acontecimento marcante na vida de qualquer mulher. 
Seu filho ainda no sabia e no tinha inteno de lhe contar. Quanto a Conner, tambm escondia seu sonho. Jamais, em todos aqueles anos em que ocupara o lugar do 
pai, se retrara diante do dever, ou deixara de fazer o que era preciso. Porm estava chegando o tempo em que seu filho mais velho seguiria o caminho pelo qual ansiava 
e ento no seria mais necessrio manter segredos.
   - Acredito que essa questo de segredos esteja resolvida vida agora - Macria falou delicadamente.
   - No, madre.
   - Conner?
   - Quero saber por que voc no me contou. Esquea que sou seu filho e veja-me apenas como a pessoa que cuida dos negcios da famlia. Essa posio me d o direito 
de saber.
   Ela riu, surpreendendo-os.
   - Voc no me perguntou se eu o conhecia. Lembro-me de que no gostou de Charles  primeira vista, quando ele veio nos convidar para a fiesta. Assim como Dixie.
   - Trata-se de um homem, muito atraente, mas existe algo na sua personalidade que me faz sentir desconfortvel - Dixie justificou-se.
   - E no se esqueam de mim. Tampouco eu iria quer-lo por perto.
   - Tambm estou consciente de seus sentimentos, Ty.  por causa disso que ainda no retribu o convite gentil que recebemos e no o convidei para jantar conosco. 
Agora que o assunto foi discutido e vocs esto a par de meus sentimentos, vou me apressar a reparar a indelicadeza...
   - Madre. - A voz de Logan, calma, porm determinada, silenciou a todos. - Estamos falando sobre a possibilidade de que esse homem esteja por trs dos roubos de 
gado, dos assaltos  mina. Portanto, no pode esperar que ns, seus filhos, ignoremos os fatos. Sei que voc est a par de cada centavo que perdemos. Poderia ento, 
reconsiderar, e nos dar tempo de confirmar, ou no, o envolvimento de Riverton nos assaltos.
   - Lgica perfeita, Logan. Mas voc est errado, filho. Todos vocs esto enganados. Charles Riverton no tem nenhuma necessidade de nos roubar, simplesmente porque 
j era um homem muito rico quando me cortejou, anos e anos atrs. Amei o pai de vocs com todo o meu corao e fui feliz ao escolh-lo para marido. Charles agiu 
como um cavalheiro, aceitando meu amor por Justin.
   Se seus irmos tivessem se comportado conforme os eduquei, e no como crianas mimadas, haveriam aceito o convite para a fiesta e teriam entendido, por si mesmos, 
por que Charles andou comprando tantas terras a oeste de nossa propriedade. Ele espera convencer os donos da Estrada de Ferro Pacfico-Sul a trazer a linha frrea 
at as imediaes de Sweetwater. Pensem, meus filhos, no que isso significaria para todos os fazendeiros da regio. Poderamos despachar nosso gado de trem quando 
estivesse gordo, e no fazer o rebanho percorrer vrios quilmetros, com conseqente perda de peso.
   Macria aguardou alguns instantes antes de continuar.
   - Agora, digam-me se um homem to rico, um homem com o mesmo sonho que seu pai acalentou para o desenvolvimento dessa terra, teria necessidade de nos roubar?
   - No sei. Mas pretendo descobrir.
   - Conner! Voc no ouviu uma palavra do que eu disse?
   Logan, mais exausto do que ousava admitir diante da me, aproveitou-se das palavras do irmo para pr um ponto final na discusso.
   - Estou faminto e quando terminar de comer, serei obrigado a partir. Conner pode investigar a situao por aqui. Quanto a mim, farei com que Monte Wheeler fale, 
ou morrerei tentando.
   - No diga isso! - Benzendo-se, Macria lanou um olhar irado ao filho. - Assim trar m sorte para si mesmo. Nunca aprovei sua deciso de se juntar quele bando. 
E peo-lhe que no volte a procur-los.
   - Madre, eu te amo. Porm  melhor deixar essa questo conosco. No creio que esteja analisando nossos problemas com os olhos de Macria Kincaid.
   - E quem, ento, sou eu, a no ser sua me?
   - Perdoe-me por irrit-la outra vez. Mas talvez voc seja uma jovem, lembrando-se das noites do passado, quando um belo caballero lhe fez a corte?
   - Voc me insulta, e  memria de seu pai tambm, quando me julga capaz de colocar em risco tudo aquilo que seu pai levou a vida inteira para construir. Coma, 
ento, enquanto lhe providencio roupas limpas e um par de botas. Quem sabe assim, voc tambm no esquece seu lugar?
   A sada da me fez com que os trs irmos se entreolhassem, surpresos. Dixie cortou algumas fatias de queijo e linguia, arrumou-as num prato e entregou-as a 
Logan.
   Logan agradeceu, porm antes de comer, perguntou a Conner como ele havia se sado na conversa com o xerife.
   - Conforme ns espervamos. Verl Jenison me pediu para apresentar provas.
   - Deveramos ter posto o primeiro plano em prtica. Poderamos ter preparado uma armadilha para capturar Monte e seu bando.
   - Fui contra a idia e ainda sou. Quero o homem por trs dos roubos, o verdadeiro chefe da quadrilha. Quando mais penso no que discutimos essa noite, mais Charles 
Riverton me parece suspeito. A informao que nossa me nos deu, sobre o interesse de Riverton em fazer com que a estrada de ferro passe por aqui  interessante. 
Subornos custam muito caro. Assim como a hacienda que ele est construindo.
   - Pois eu no posso imaginar nossa me se envolvendo e sendo enganada por aquele homem.
   - Ty! - Dixie, que estivera calada at o momento, aproximou-se do noivo. - Como pode dizer uma coisa dessas? Sua me, caso tenha se esquecido, ainda  uma linda 
mulher. Viva h quase dezesseis anos. Meu Deus, era essa a idade dela quando se casou com seu pai. Como pode ser to egosta para negar  sua me qualquer prazer 
que ela possa ter na companhia de Riverton?
   - Vamos, querida...
   - No me venha com essa histria de querida! O que eu disse  verdade... todos vocs sabem disso. - Dixie virou-se para os cunhados. - Talvez Riverton esteja 
mesmo por trs de tudo. Porm vocs no obtero mais nenhuma informao atravs de sua me. Tambm acredito que se mantiverem essa teimosia tipicamente masculina, 
impedindo-a de v-lo, ela dar um jeito de se encontrar com Riverton sempre que quiser.
   - Tudo isso pode ser verdade - Conner falou, com uma calma irritante. - Mas minha me, nossa me,  uma mulher rica. Permitir que Riverton se aproxime dela...
   - No posso crer que o esteja ouvindo dizer isso, Conner! - Dixie fechou os olhos, lutando para manter o controle. Ao tornar a abri-los, percebendo a preocupao 
de Ty, obrigou-se a sorrir.
    - Est bem. Sei que estou gritando. Desculpem-me. Entretanto continuo achando que vocs insultam sua me quando questionam a lealdade dela. Macria nunca faria 
algo capaz de mago-los, ou de prejudicar Rocking K.
   Sentindo que a tenso alcanava nveis perigosos, ela mudou de assunto.
   - Logan, voc disse que dois meninos o acharam. O que aconteceu a eles?
   Enquanto Logan falava sobre Marty e Kenny, Macria permaneceu do lado de fora do quarto, no corredor. Segurando roupas limpas e um par de botas para o filho, 
mal prestava ateno nas suas palavras, os pensamentos voltados para o passado.
   Quando dera a luz ao seu ltimo filho, uma menina, nascida morta, a parteira a avisara de que no voltaria a engravidar jamais. Chorara durante muito tempo pela 
filha que nunca poderia ter. Justin, seu grande amor, a consolara, dizendo que cada um de seus filhos, ao se casar, lhe traria uma filha.
   Aceitara Dixie de braos abertos desde o primeiro momento e a amara com um corao de me. Ao ouvi-la agora, sair em sua defesa, esse sentimento se tornara ainda 
maior. Que tipo de mulheres Conner e Logan trariam para a famlia Kincaid?
   Compreendia os temores de seus filhos, as dvidas que eles haviam levantado. Porm nenhum dos trs entendia a solido de seus dias e noites, o vazio que a consumia 
agora que eram todos homens e j no precisavam de ateno e cuidados constantes.
   No faria nada que pudesse pr em risco o futuro dos Kincaid. Por outro lado, ningum tinha o direito de lhe dar ordens, de lhe dizer o que fazer. O sangue que 
corria em suas veias era um sangue guerreiro, herana de antepassados que saram da Espanha para seguir Diego Velsquez na conquista da ilha de Cuba e depois Corts, 
quando mandado invadir o Mxico.
   A mesma passionalidade que alimentava o esprito de seus filhos, alimentava o seu. Fora parar ali, aos dezesseis anos, seguindo um grande amor. Ao lado do marido, 
construra um lar no meio do nada e aprendera a amar essa terra inspita e bela.
   Contudo, no podia negar que, pela primeira vez, seus trs filhos se uniam contra ela.
   Finalmente Macria entrou no quarto e entregou as roupas e botas a Logan.
   - Madre...
   Ela o tocou de leve nos lbios, para silenci-lo, e o beijou no rosto.
   - V com Deus, meu filho - murmurou apenas, saindo do quarto.
   Dixie tambm veio lhe dizer adeus com um beijo no rosto.
   - Vou me deitar na cama de Ty. Assim, descanse aqui o mximo possvel. Tenha cuidado.
   A ss com os irmos, Logan tirou as roupas de viagem e vestiu-se, depois de se lavar usando o jarro e bacia sobre a cmoda. Preferiria poder tomar um banho demorado, 
porm as horas voavam e restava-lhe pouco tempo. Conner lhe deu um rifle Springfield 45-7O, exatamente como o que lhe tinha sido roubado. Os Springfields haviam 
sido feitos pelo primeiro mestre de armas, Erskine Allin, e eram muito valiosos, considerados verdadeiros tesouros.
   -  seu, Conner. No posso aceit-lo.
   - No meu. Era de nosso pai. Voc vai precisar. S vou lhe dar um aviso. Estrague-o e lhe arranco a cabea, Ok? - Ele tirou algumas moedas do bolso. 
   - Imagino que esteja sem dinheiro tambm. Prometa-me que no correr riscos desnecessrios. No quero perd-lo, Logan.
   - E no me perder. Quero que voc marque um novo dia para o pagamento dos mineiros da Silver Belt. D-me cinco dias para localizar Monte. E espalhe a notcia 
de que estar fazendo um novo carregamento de minrio tambm.
   - O que est planejando?
   Rapidamente, Logan colocou os irmos a par do plano que elaborara.
   - Um plano simples - Conner observou.
   - Esperemos que d resultados. Ei, irmozinho, tenho um encontro que no posso adiar. Tome conta daquela pequena dama.
   - Logan, eu queria...
   - Sim, eu sei. Eu tambm queria estar aqui para danar no dia de seu casamento. Mas no quero que adie a data. Talvez voc dance no dia do meu.
   Antes que os irmos pudessem se recuperar da surpresa que suas ltimas palavras haviam causado, Logan saiu pela janela, assim como entrara.
   
   Em seu quarto, iluminado por dois pequenos castiais, Macria ajoelhou-se no genuflexrio de madeira que trouxera consigo do Mxico. Apertando o tero nas mos, 
ergueu preces a Deus, para que seu filho retornassem em segurana.
   
   Da janela, dominado pela angstia, Conner observava o irmo se afastar, protegido pelas sombras. De repente, um pensamento terrvel lhe ocorreu. Tenso, correu 
at o quarto da me.
   - Riverton lhe fez perguntas sobre Logan? - indagou sem rodeios.
   - Acalme-se.
   - No se preocupe comigo. Ele lhe perguntou sobre Logan? Com certeza deve ter ouvido boatos. Todo mundo ouviu. Voc lhe contou?
   - Voc est indo longe demais! - Macria levantou-se e enfrentou a ira do filho. - No, Charles no me perguntou nada sobre Logan.
   -  isso! Maldio,  isso! Ele sabe. - Conner passou os dedos pelos cabelos escuros, num gesto carregado de nervosismo.
   - Voc no est fazendo sentido. Como Charles poderia saber sobre Logan? Sim, tem havido rumores.
   -  o nico motivo por que Logan foi abandonado pelo bando. Eles sabem que ele  um Kincaid. - Andando de um lado para o outro, Conner exps  me as razes de 
suas suspeitas. 
   - Ele, Charles, no lhe perguntou sobre os rumores que davam como certa a associao de seu filho a um bando de foras-da-lei. No lhe parece estranho?
   - No. Um cavalheiro no me lembraria de algo to vergonhoso.
   - Errado, madre. Ele no perguntou porque j sabia. E porque j havia dado ordens para que Logan fosse morto antes que pudesse descobrir sua ligao com o bando. 
- Conner parou de andar e fitou a me. - Sei que no quer acreditar em mim, contudo,  a nica explicao que faz sentido. E Logan... - Ele parou de falar e saiu 
do quarto depressa:
   - Conner! Conner, volte aqui. - Macria seguiu o filho. - Aonde voc est indo?
   - Atrs de meu irmo, antes que ele seja morto.
   - Que diabos voc est dizendo? - Ty agarrou-o pelo brao, obrigando-o a parar.
   - Logan vai  procura de Monte, avis-lo de que teve informaes sobre nossos planos de pagar os mineiros e fazer um carregamento de minrio na prxima semana.
   - Monte no vai acreditar nisso, depois de todos os assaltos que sofremos.
   - Exatamente. Ento Logan dir que, como todos esperam nosso recuo, resolvemos agir da maneira contrria. Os bandidos no tero tempo de checar a informao com 
Riverton, se ele estiver mesmo por trs de tudo.
   - Odeio lhe dizer isso, Conner, mas o plano que vocs elaboraram tem uma falha. Alis, enorme. Como  que Logan vai explicar a Monte ter conhecimento da data 
e do local onde o pagamento ser efetuado?
   - Perto do lugar onde Logan foi abandonado, h cerca de uns dez, ou quinze, acampamentos de mineiros. Voc sabe como as notcias se espalham. Usque costuma soltar 
as lnguas. Porm se Riverton sabe que Logan  um Kincaid, ento a vida de nosso irmo no vale nada.
   - Irei com voc.
   - No. Algum tem que ficar aqui e manter um olho...
   - Irei com voc. E enquanto ficamos aqui discutindo, Logan est se distanciando cada vez mais de ns.
   Macria implorou para que tivessem cuidado. Mas tudo o que Conner fez foi lhe dizer sobre quantos homens queria de prontido para partir a qualquer momento, caso 
no conseguisse localizar Logan e impedi-lo de colocar o plano em ao.
   Impaciente, Conner aguardou que Ty se despedisse de Dixie com um beijo, sem no entanto acord-la. Haveria o diabo quando Dixie acordasse e no o encontrasse. 
Deixando a noiva aos cuidados da me, Ty correu para selar os cavalos.
   
   
   CAPITULO XVI
   
   - Tentando avist-lo novamente, senhora?
   Jessie virou-se e sorriu para Kenny.
   - Parece que no consigo parar de olhar na direo do horizonte. Descobri que a esperana  a ltima coisa que morre. E  morte lenta. - Descendo da pedra onde 
subira, Jessie aproximou-se do garoto. - Onde est o pequenino?
   - Marty continua l embaixo, perto do riacho. Ainda no conseguiu terminar de limpar o peixe que pescou. - Kenny desviou o olhar por um instante, os ombros magros 
cados. - Faz quase uma semana que Logan partiu. No me lembro de t-lo ouvido prometer quando voltaria.
   - Ele no fez qualquer tipo de promessas.
   -Agora voc est triste novamente. Desculpe-me, no quis mago-la.
   - Voc no me magoou. - Ela o acariciou de leve nos cabelos. - Que tal irmos nos juntar a Marty? Prepararei um gostoso piquenique. O dia est lindo, perfeito 
para um almoo ao ar livre.
   Porm, ao tomar o rumo do chal, Jessie notou que Kenny continuava parado no mesmo lugar. 
   - O que foi? Alguma coisa errada?
   - Marty e eu temos andado conversando, sabe, sobre o que vai acontecer conosco.
   - Acontecer com vocs? Nada ir lhes acontecer. No enquanto eu tiver um sopro de vida. - A maneira como Kenny evitava seu olhar a preocupou, especialmente porque 
o menino sempre fora to franco, to direto, que chegava a ser desconcertante. - Por acaso est me escondendo algo?
   - No. No - ele repetiu. -  como j lhe disse. Marty e eu somos primos e no temos mais nenhum parente.
   - Ento qual  o problema? Presumi que vocs dois iriam continuar morando comigo. Se no  o que desejam, digam-me.
   Kenny ficou em silncio, os olhos fixos no chal onde haviam encontrado um lar nesta ltima semana. Pela primeira vez, em muitos meses, no se sentia totalmente 
responsvel por Marty e por si mesmo. Porm tinha medo que as coisas no continuassem assim. Medos nascidos na escurido da noite e que se recusavam a deix-lo durante 
o dia.
   - As pessoas no vo falar mal, porque voc nos aceitou aqui?
   - Por que deveriam falar mal? Sou uma viva,  verdade, porm uma mulher adulta, perfeitamente capaz de tomar conta de voc e Marty. - Jessie mordeu o lbio inferior, 
sabendo que dissera uma meia-verdade. Enquanto no descobrisse uma maneira de vender o gado, tinha apenas quarenta dlares para sustentar os trs.
   - Mas e se algum aparecer e tentar nos levar embora daqui?
   Naqueles dias de convvio, Jessie notara que Kenny no gostava de contato fsico, mal tolerando abraos. Contudo agora, parecia necessitar de algo mais alm de 
ser reassegurado verbalmente. Assim, parou ao lado do garoto e o puxou para junto de si.
   - Querido, no permitirei que ningum tire voc e Marty de mim. Eu os considero meus. Famlia, Kenny. Ns trs juntos formamos nossa prpria famlia.
   Jessie o abraou com fora, comovendo-se ao ver que o menino retribua o gesto, os braos magros rodeando-a pelo pescoo. E Logan completaria o crculo perfeito, 
ela pensou, tentando no se entregar s emoes. 
   - Vamos, Kenny. Voc e eu temos um piquenique a preparar.
   Vagarosamente, ela seguiu o garoto at o chal, os pensamentos voltados para o homem que no conseguia esquecer. Onde quer que voc esteja, Logan, espero que 
esteja em segurana. E espero que sinta saudade de mim, pelo menos um pouco. O bastante para traz-lo de volta.
   - Jessie?
   - Estou indo, Kenny!
   
   Logan conduziu seu cavalo pela trilha de terra batida, mal prestando ateno na paisagem fantstica, onde predominavam cctos gigantescos. Seu destino no era 
Apache Junction, mas um dos acampamentos de mineiros, em Florence. O lugar onde conhecera Monte Wheeler e os outros.
   Embora soubesse que essa terra seca, de deserto e montanhas, fornecesse esconderijos perfeitos, nada o impediria de achar quem procurava. Afinal, tudo o que sua 
famlia possua estava em jogo.
   E no se esquecera de que pretendia acertar contas com quem quer que houvesse roubado seus pertences e o deixado  morte.
   Apesar de se esforar para manter os pensamentos fixos nos problemas srios que precisava resolver, simplesmente no conseguia tirar Jessie da cabea. Nos momentos 
mais inesperados, lembrava-se do sorriso sereno, da voz terna, dos murmrios suaves sados daquela boca carnuda ao estremecer de paixo em seus braos.
   O homem que tivesse Jessie ao seu lado, seria um homem feliz.
   Uma dor estranha, que nunca conseguira superar desde que a deixara, comeou a crescer. Como ela fora capaz de toc-lo na alma to profundamente, em to pouco 
tempo?
   Mulheres haviam entrado e sado de sua vida sem que se importasse, ou pensasse duas vezes no assunto. Por que Jessie?
   Mesmo lutando para ignor-la, a pergunta permanecia. Talvez a descoberta de que o irmo caula, sempre to independente, estava para se casar, houvesse acentuado 
a sensao de solido.
   No momento, no tinha a menor condio de fazer planos. Mas se pudesse...
   Percebendo que os pensamentos tomavam um rumo perigoso, Logan se obrigou a substitu-los por temas menos ameaadores. Como a conversa que tivera com Conner sobre 
Riverton, por exemplo. Entendia a nsia daquele homem de se apossar das terras onde havia gua. Afinal, quem controlava gua no territrio, controlava os pastos.
   Tratava-se de um territrio apache e se um homem pretendia sobreviver, precisava conhecer a terra ao seu redor. Durante suas andanas, descobrira lugares de incrvel 
beleza e outros to estreis, que era difcil acreditar que houvesse algum tipo de vida ali.
   Assim, a gua representava poder, um bem precioso e de inestimvel valor para todo e qualquer ser vivo na luta pela sobrevivncia.
   Logan desmontou, para alguns breves instantes de descanso, e despejou um pouco da gua morna do cantil no chapu, oferecendo-a ao cavalo.
   O cavalo sempre devia beber primeiro porque, sem ele, um homem podia morrer vagando naquela imensido.
   Nenhuma outra terra trazia a morte to de perto, sempre  espreita, aguardando que se cometesse um erro descuidado. Mas nenhuma outra terra possua tanta magia 
e o poder de lhe tocar o corao.
   Ele conduziu o cavalo at a beira de um precipcio, na esperana de encontrar uma tinaja. Essas piscinas naturais pequeninas costumavam recolher gua da chuva. 
Infelizmente no chovia h dias. Ao ver ao longe, na direo oeste, um bando de abutres sobrevoando determinada rea de maneira insistente, Logan sentiu um frio 
na espinha. Se no fosse por aqueles dois meninos e por Jessie...
   Inclinando-se no cho para vistoriar uma rachadura entre as rochas, roou a mo numa pedra. Era como se tocasse fogo. O calor escaldante do sol penetrava em tudo 
ao redor, criando uma atmosfera asfixiante. Cansado, bebericou a gua do cantil para matar a prpria sede.
   Precisava continuar em frente se quisesse chegar a Florence ao anoitecer. O deserto ganhava vida quando o sol se punha, os predadores saindo de seus esconderijos 
em busca de gua e comida. Era esse um dos motivos pelos quais um homem inteligente no acampava junto a um curso d'gua. Outro motivo resumia-se a deixar que a 
natureza cumprisse o ciclo da vida, com a sobrevivncia do mais forte. Se o cheiro de um homem impedisse que os animais sedentos se aproximassem da gua, o ciclo 
rompia-se.
   Ainda assim, relutava montar, apesar da urgncia que o movia.
   Novamente observou os arredores com ateno. Nada se movia, exceto uma brisa abafada. Colocando o chapu na cabea, guardou o cantil e tomou as rdeas nas mos, 
pronto para montar.
   O cavalo andou para o lado, na direo da rocha. Logan praguejou baixinho, o p esquerdo escorregando do estribo. Quatro guerreiros apaches cruzavam a terra ressecada 
a menos de trinta metros de onde estava. Repentinamente, mesmo havendo matado a sede momentos antes, sentiu a boca ficar seca, como se estivesse cheia de areia. 
Devagar, deslizou a mo pela crina do cavalo, agradecendo-o em silncio. Se houvesse montado e sado dali, teria sido avistado pelos ndios.
   Movendo-se com cautela, Logan retirou o rifle do protetor de couro e se posicionou, preparando-se para atirar, se necessrio.
   Se fosse visto, no tinha dvidas do que lhe aconteceria.
   Com a respirao acelerada, desviou o olhar, mantendo-se imvel. Alguns diziam que um guerreiro apache podia sentir os olhos de um homem branco sobre si.
   No pretendia descobrir se havia verdade nisso ou no.
   Depois de interminveis minutos, os ndios desapareceram no horizonte.
   - Pelos cus - Logan murmurou aliviado, sentindo a tenso abandonar seu corpo. - Ns poderamos ter terminado no acampamento daqueles apaches, cavalo. Voc servindo 
de jantar e eu de diverso.
   O animal balanou as orelhas, como se entendesse.
   - Jessie escolheu um vencedor, quando decidiu compr-lo. No mexeu um msculo quando viu os ndios, no ? Quando tudo isso acabar, pretendo comprar mais animais 
da sua raa, embora no v ser fcil encontr-los.
   Ele ergueu a manta sob a sela, julgando que talvez se tratasse de um cavalo que pertencera ao exrcito. Com um dedo, traou a marca feita com ferro em brasa.
   - Um trs na horizontal, ou um "m" minsculo, ou um "m" espremido, ou um trs espremido - Logan falou pensativo, observando a marca atentamente. - Maldio! Maldio! 
 isso!
   Ajoelhando-se no cho, fez a marca da fazenda Rocking na terra. Se o K maisculo sofresse uma alterao, poderia facilmente se transformar em R. Bastaria fechar 
e arredondar o espao superior da letra. Assim, Rocking se transformaria em Circle R sem o menor problema. Uma manobra inteligente.
   Entretanto, de nada adiantara descobrir o fato. Sem provas, a lei no poderia tocar num fio de cabelo de Riverton. Mesmo com provas, Riverton poderia se manter 
inatingvel se tivesse dinheiro e poder poltico sustentando-o. Porm o instinto lhe dizia que encontrara o canalha por trs dos roubos.
   Riverton no era o tipo que ocupasse as mos colocando sua marca no gado de outros para se apossar do que no lhe pertencia. Tinha dinheiro bastante para contratar 
quem fizesse o servio sujo. E sempre havia a desculpa de no saber o que seus empregados andavam fazendo s suas costas.
   Quem iria enfrent-lo e cham-lo de mentiroso? Sua prpria me o defendera, lembrando aos filhos que se tratava de um sujeito rico, que no precisava de dinheiro, 
ou gado.
   Mas as aparncias podiam ser enganosas. Riverton chegara  regio para tomar posse das novas terras trazendo um enorme rebanho consigo. Quem poderia acus-lo 
de haver roubado os animais no caminho?
   A nica maneira de resolver a questo seria fazer algum confessar quem era o verdadeiro mandante dos crimes.
   Devagar, Logan levantou-se e montou.
   - Cavalo, voc acabou de merecer tantas mas vermelhas quanto for capaz de comer.
   Cinco horas depois, ele entrou em Florence, o rifle estendido sobre a sela, bem  sua frente. A cidade era velha, tinha uns oito anos talvez, e poderia durar 
mais oito. Sem pressa, atravessou a rua principal, observando o movimento nos trs saloons. Felizmente era dia de semana e grande parte dos mineiros continuava no 
trabalho, embora j houvesse anoitecido. Fosse sexta-feira, ou sbado, teria dificuldade em encontrar Monte, ou qualquer um dos outros, no meio de tantos rostos.
   Apeando, amarrou as rdeas num poste de madeira diante do Jager's Muleshoe Saloon e, levando o rifle consigo, entrou.
   O lugar no estava lotado. Retribuindo alguns olhares que o mediam de alto a baixo, aproximou-se do balco, desapontado por no ver os rostos que mais desejava. 
Pediu um usque e se preparou para obter todas as informaes possveis do barman. Infelizmente, as respostas no foram bem as que esperava.
   Segundo o barman, ningum havia visto sinal de Wheeler na cidade, ou do bando que o acompanhava, nessa ltima semana. Logan saiu sem terminar o drinque antes 
que lhe perguntassem por que procurava Monte.
   Tampouco estava tendo muito sucesso na sua busca no segundo saloon, at que um homem solitrio parou-o junto  porta, quando j ia saindo.
   - Um jogo de carteado, senhor?
   - No tenho tempo.
   - Certo. Voc est procurando no lugar errado, se quer encontrar quem tenha dinheiro para gastar.
   -  mesmo? - Embora estivesse ansioso para partir, Logan hesitou. Sabia que esse desconhecido tinha informaes, mas teria que esperar at que o homem estivesse 
pronto para dizer o preo.
   - Belo rifle - o jogador comentou.
   - E estou procurando algum com um igual. - Logan sentou-se e fez sinal para que o barman os servisse, tentando conter a impacincia.
   - Como eu ia lhe dizendo, se um homem tem dinheiro, costuma ir ao Haskel's, onde sempre encontra uma mulher disponvel.
   Imediatamente uma idia lhe veio  mente. Billy Jack no podia ver um rabo-de-saia e tinha dinheiro para gastar.
   - Muito obrigado. - Logan colocou uma moeda de vinte dlares sobre a mesa. - Para cobrir a despesa dos drinques e a informao.
   Deixando o cavalo amarrado no mesmo lugar, desceu a rua at encontrar o local que o jogador mencionara. Sem hesitar, entrou, o rifle erguido, o dedo no gatilho. 
   - Monte tem aparecido por aqui? - indagou, aproximando-se do bar.
   O barman fitou o rifle e ento o rosto do forasteiro. 
   - No queremos problemas.
   - E no tero nenhum, se me der as respostas certas. Se Monte no est aqui, ento um de seus homens est. 
   - Voc  a lei?
   - No.
   No passou despercebida a Logan a maneira como o barman lanava olhares nervosos na direo dos fundos do saloon.
   - Quem est l atrs?
   - Billy Jack. E num humor terrvel.
   Logan ps-se a caminhar para o quartinho.
   - Ei! Espere um momento. Voc no pode ir entrando assim...
   - Quem disse que no? - ele retrucou num tom frio e mortal.
   
   
   CAPTULO XVII
   
   Logan abriu a porta com um pontap e entrou no quarto minsculo. Dois castiais iluminavam as paredes de madeira, a luz tnue no disfarando a sujeira do lugar. 
A mulher gritou e se agachou num canto.
   Billy Jack, vestindo apenas uma ceroula encardida, estava sentado na cama, as costas apoiadas na parede, as pernas abertas. Ele piscou vrias vezes e levou o 
gargalo da garrafa  boca.
   De repente, quase se engasgou com a bebida, pondo-se a sacudir a cabea de um lado para o outro.
   Lentamente, Logan ergueu o rifle para que no houvesse dvidas de que seu alvo era a barriga flcida do mestio.
   - Eu teria enorme prazer se o visse fazer um movimento qualquer, Billy Jack.
   - Voc  um pesadelo, s?
   -  o que desejar, daqui a alguns momentos. - Virando-se para a mulher, falou: - Pegue suas roupas e saia. Meu amigo e eu estaremos ocupados.
   - Ele no me pagou - a mulher se queixou irritada, ajeitando as alas do corpete manchado de suor.
   - Ento leve a cala dele e fique com o que estiver nos bolsos. Porm deixe o cinturo, pois  meu..
   - Tome um drinque, companheiro. Somos amigos, si? Vamos partilhar...
   - No h o que partilhar, Billy Jack. Ainda estou me decidindo se quero mat-lo agora, por ter me abandonado ferido, ou se espero at obter certas respostas.
   - Se me matar, no ter resposta nenhuma. 
   - Mas terei prazer. Um grande prazer.
   To logo a mulher saiu, levando a cala e deixando o cinturo sobre a cadeira, Logan fechou a porta com fora.
   Percebendo que Billy Jack lanava um olhar para o revlver que deixara no cho, sorriu irnico. 
   - Fique  vontade e tente pegar a arma. 
   - O que voc quer?
   - Respostas s minhas perguntas. Entendido? 
   - S. O rifle...
   - Fica exatamente onde est. E voc tambm. Ns dois conhecemos seu apreo pelas damas. Um movimento em falso, e ir desapont-las pelo resto da vida.
   Billy Jack sorveu um longo gole da garrafa e Logan permitiu que o fizesse, sabendo que se tratava de um gesto destinado a mostrar falsa coragem.
   - Agora me diga. Quem deu a ordem para que eu fosse abandonado?
   Por um instante o bandido ficou em silncio, medindo o oponente. Havia enfrentado muitos homens e sabia quando um deles estava disposto a matar, ou no. Todo 
mundo  capaz de matar, quando pressionado o bastante. S no tinha certeza at que ponto Logan podia ser pressionado. No lhe pagavam o suficiente para arriscar 
a vida assim, ou terminar aleijado de tal forma que ele prprio desejaria estar morto.
   - Zach - falou afinal. - No foi bem uma ordem. Ele queria o rifle e voc no estava disposto a fazer uma troca.
   - Ele me deixou  morte porque queria o rifle? - Logan repetiu, fitando o outro fixamente.
   - E eu queria seu cavalo. - Billy Jack deu de ombros, como se se tratasse de uma questo banal. - Voc estava sangrando terrivelmente, hombre. No pensamos que 
pudesse sobreviver.
   - O ferimento era superficial. Nada que ameaasse minha vida.
   - Ento foi bom que tivesse encontrado ajuda.
   - Por acaso eu disse isso? No que tenha importncia. Estou aqui agora e quero saber do paradeiro de Monte.
   - Ele vem e vai.
   Logan deslizou a mo pelo cano da arma devagar, o dedo firme no gatilho.
   - Estou ficando cansado de segurar isto aqui. E um homem acaba se descuidando quando est cansado. Um gatilho to sensvel o deste rifle... Bem, voc entendeu 
a mensagem, no?
   - Monte costuma se encontrar com os outros numa velha cabana que descobriu, nas montanhas.
   - E?
   - Monte est irritado. Ele no tem tido notcias do... - Billy Jack ergueu a garrafa e bebeu o resto do lquido num s gole, considerando a possibilidade de atir-la 
na cabea de Logan. Porm o olhar do outro, glido e determinado, o dissuadiu.
   - Estou esperando - Logan insistiu, sabendo o que passava pela cabea do bandido.
   - E minha vida que voc est pedindo para eu arriscar.
   -  sua vida que chegar ao fim, se voc no terminar as explicaes.
   - O chefe, hombre. Monte no tem tido notcias do chefe e est preocupado, com medo de no ter mais trabalho. Zach e Tallyman esto irritados com a histria. 
Monte os mandou aguardar.
   - Enquanto ia se encontrar com o chefe?
   - S. E tudo o que eu sei. Juro pela alma da minha me...
   - Voc poderia jurar por tudo o que existe nesse mundo que eu ainda teria que me decidir se acredito na sua palavra, ou no.
   - Voc est com a arma. Eu lhe digo a verdade. Para provar que ainda sou seu amigo, vou confessar que seu cavalo est l fora, no curral do saloon. Irei com voc. 
Irei lhe mostrar onde fica a cabana. - Billy Jack comeou a se levantar.
   - Parado. - Logan precisava pensar depressa. No podia deixar o bandido ali, solto. Amarr-lo lhe daria, quando muito, uma hora de vantagem, se tivesse sorte. 
Tampouco queria mat-lo. Portanto s lhe restava lev-lo consigo. Com uma arma nas costas, o mestio teria cuidado para no irrit-lo.
   - Calce suas botas, mas  tudo. 
   - Voc est brincando, s?
   - Pareo um homem com vontade brincar? Vamos embora. 
   - No pode fazer isso comigo. Irei mat-lo antes...
   - J lhe avisei. Se quer viver, faa o que estou mandando. Billy Jack calou as botas e levantou-se, os olhos brilhando de dio ao entrarem no saloon.
   Logan, trazendo o cinturo no ombro, parou diante da mulher que expulsara do quarto.
   - Voc pegou dinheiro suficiente nos bolsos da cala?
   - Sim.
   - timo. Ento, pelo dinheiro que a venda das armas dele ir render, v l atrs e traga o cavalo que est no curral. Deixe-o na porta do saloon e lhe darei mais 
vinte dlares.
   A oferta era muito maior do que a mulher conseguiria juntar numa semana, assim no teve dvidas de que seria atendido.
   Empurrando Billy Jack para fora do saloon, lutou contra a vontade de perguntar por que Zach andara procurando-o pelas redondezas. Se falasse demais, deixaria 
transparecer j estar de posse de certas informaes. Billy Jack poderia ser perspicaz o suficiente para concluir onde Logan havia estado e por nada deste mundo 
poria Jessie em perigo. Entretanto, quanto mais pensava no assunto, maior a necessidade de saber se Zach voltara a rondar a pequena fazenda.
   Como se seus pensamentos, de alguma maneira, ganhassem forma, o mestio lhe lanou um olhar por sobre o ombro.
   - Voc no disse onde esteve esse tempo todo. Zach andou  sua procura e no conseguiu localiz-lo. Quanto a mim, imaginei que houvesse virado comida de abutre.
   - Pois imaginou errado.
   - Isso me intriga. Voc aparece aqui, bem distante do lugar onde o deixamos. E tem outro cavalo. Pergunto a mim mesmo: de onde surgiu esse cavalo? De onde surgiu 
esse belo rifle? Um homem deve ter muito dinheiro para comprar essas coisas.
   Logan nada respondeu.
   - Ento pensou muito nesses detalhes, amigo. E me lembro da senorita.
   A prostituta apareceu trazendo o cavalo de Logan, o que Billy Jack roubara, e tornou a entrar no saloon.
   - Ajoelhe-se - Logan ordenou ao mestio.
   - Amigo...
   - Corte essa histria de amigo. Eu preferiria que o diabo me chamasse assim. Faa o que mandei e ponha as mos na cabea. Agora incline-se para frente e segure 
o poste com a mo esquerda. Ponha o brao direito para trs.
   Movimentos e velocidade tinham que ser perfeitamente sincronizados. Logan sabia que teria poucos segundos para amarrar as mos de Billy Jack atrs das costas 
com a bandana, antes que o mestio tentasse se safar.
   A tenso estava alcanando um nvel insuportvel e Logan sentia o autocontrole se esvair. O dio dentro do peito era tamanho, que temia j no ser possvel evitar 
uma exploso. Homens honestos haviam perdido a vida tentando proteger o dinheiro do pagamento e tudo por causa das provocaes de Billy Jack.
   Porm o momento mais terrvel fora quando o mestio mencionara a senorita. Ento as coisas passaram a fazer sentido. Naquele dia em que Jessie havia ido a Apache 
Junction para lhe comprar um cavalo, algo acontecera, algo que ela se recusara a lhe contar.
   E sabia muito bem que Billy Jack no podia ver um rabo-de-saia.
   - Criatura desprezvel! - Logan bateu to forte com a coronha do rifle nas costas do bandido, que ele gritou de dor e se curvou, ofegante.
   - Fale-me sobre a senorita. E enquanto estiver falando, comece a andar. Vamos.
   Quando Billy Jack conseguiu se levantar, Logan j havia montado no prprio cavalo, enquanto levava o que Jessie lhe comprara pelas rdeas e tomava o caminho pelo 
qual viera, ignorando os protestos do mestio de que estava na trilha errada.
   Oh, Deus, se algo acontecesse a Jessie e aos garotos por sua causa, jamais poderia perdoar-se.
   Todavia, indiretamente, fora Jessie quem o levara aos bandidos, mencionando a cabana abandonada no meio das montanhas. Tinha que ser a mesma na qual o bando aguardava 
o regresso de Monte.
   - Voc precisa de mim! - Billy Jack gritou, quando chegaram a um desfiladeiro. - Vou lhe mostrar o caminho.
   Logan o ignorou e seguiu em frente. No era essa a punio que queria dar a Billy Jack, porm alguma coisa o impedia de mat-lo. Assim, continuou cavalgando, 
enquanto os sons dos predadores enchiam a noite.
   E quando a lua ia alta, lanando seus raios sobre a vegetao esparsa, Logan, desdenhando o perigo de chamar a ateno, comeou a atirar na direo dos ps sujos 
do bandido, incitando-o a correr.
   - Eu morrerei!
   -  essa a idia.
   - Voc no pode me deixar aqui, no meio do nada, sem gua. Sem uma arma. Pelo menos desamarre as minhas mos.
   - Tenho um cartucho cheio de balas e posso ficar descuidado com a mira. No meu modo de pensar, estou lhe dando uma chance de lutar, o que  muito mais do que 
voc jamais deu a um homem.
   - E aquela mulher, s? Eu no a toquei. Monte imped... - Billy Jack parou no meio da frase. - Zach. Ele foi atrs dela.
   As mos de Logan tremiam ao recarregar a arma. Sua Jessie. Sua doce e vivaz Jessie havia sido aterrorizada por esse animal.
   - Ouvi contar de homens que voc deixou feridos no deserto para que formigas o comessem vivo. Uma maneira horrvel de algum morrer. Mas voc no  um homem, 
certo? Um homem de verdade nunca gosta de ferir criaturas indefesas. - Apesar da fria que o sacudia, Logan conseguiu manter a voz calma e controlada, resistindo 
 nsia de destruir aquele verme. Quando tornou a erguer o olhar, Billy Jack tinha desaparecido dentro da escurido.
   
   Duas horas depois de Logan haver sado de Florence, Ty e Conner entraram na cidade. Vencendo a exausto, os dois se separaram numa tentativa de obter informaes 
mais rapidamente.
   Ty foi at o saloon de Jager, onde um jogador levan- tou-se da mesa e o abordou.
   - Voc se parece com um homem que me pagou muito bem em troca de algumas palavras.
   - Meu irmo. Ento ele esteve aqui?
   - No muito tempo atrs. Estava  procura de algum e o mandei olhar no Haskel's, logo na sada da cidade. Tem uma mulher l, o que interessou seu irmo.
   Ty colocou duas moedas sobre o balco.
   - Obrigado. A bebida  por minha conta.
   Depois saiu em busca de Conner.
   - Falta apenas um saloon onde procurarmos - Conner o informou.
   -  onde Logan est. Um jogador me disse que nosso irmo ficou interessado ao saber que havia prostituta l. Mas conheo Logan e sei que no tem o menor interesse 
na mulher. Com certeza um dos homens de Monte deve estar l. O que voc sugere que faamos?
   - D-me um minuto para pensar. No quero fazer nada capaz de colocar a vida de nosso irmo em risco.
   - Viemos atrs dele justamente para impedir que isso acontea. Temos que agir j.
   - Se algum houvesse sido morto aqui, as pessoas s estariam falando no assunto. Um de ns tem que entrar no Haskel's e fazer perguntas enquanto o outro aguarda 
do lado de fora, vigiando as proximidades.
   Conner observou Ty caminhar para o saloon, impressionado com a mudana operada no irmo. Tanto o andar, como a expresso de seu rosto, era a de um predador, a 
de um homem duro e inflexvel. Coitado de quem cruzasse seu caminho.
   Frustrava-o ser aquele a esperar do lado de fora. Tenso, sacou a arma, pronto para entrar no saloon atirando, se fosse o caso.
   Os minutos se arrastaram, sem que houvesse sinal de alarme. O que diabos estaria Ty fazendo? E o mais importante, estaria Logan l dentro?
   Quando estava a ponto de ceder  tenso e entrar, Ty saiu.
   - Nosso irmo esteve aqui, sim. Partiu levando um mestio chamado Billy Jack. De acordo com a mulher, eles seguiram na direo oeste.
   - Oeste? Por que Logan...
   - No sei, Conner. Isso foi tudo o que ela pde me informar. Isto e o fato de que Logan obrigou o mestio a andar, com as mos amarradas nas costas e vestindo 
apenas a ceroula, alm das botas.
   - Essas informaes no nos ajudam muito.
   - Logan est vivo e no  nenhum tolo. No sairia por a, s cegas. Meu palpite  que sabe, exatamente, para onde vai. Levar esse tal de Billy Jack consigo foi 
apenas uma medida de precauo.
   - Talvez ento devamos ficar aqui e aguardar. Depois partiremos para Silver Belt. Tenho uma idia de como nos preparar para o prximo assalto.
   - Voc pode ficar e aguardar. Quanto a mim, pretendo cumprir a promessa feita a um amigo. No estamos longe de Apache Junction. Posso ir at l e voltar no mesmo 
dia. Preciso tentar encontrar a irm de Greg. Nunca quebrei uma promessa antes.
   - Tampouco irei esperar, Ty. Venha, vamos acampar aqui por perto. Partiremos ao amanhecer. No sou muito bom em esperar.
   - Nenhum de ns  - Ty concordou, caminhando ao lado do irmo at o local nde haviam deixado os cavalos.
   Em silncio, cavalgaram vrios minutos, embora o pensamento de ambos fosse o mesmo.
   Onde estaria Logan?
   
   
   CAPITULO XVIII
   
   Jessie, dominada por uma inquietao que s fazia crescer, saiu do chal para dentro da noite, tendo o cuidado de no despertar os meninos adormecidos.
   Enrolada num xale, sentou-se no banco de madeira, os ps nus escondidos sob a barra da camisola.
   Durante todo o dia, seus pensamentos haviam estado fixos em Logan, o que no era de se estranhar. Entretanto, uma tenso insidiosa recusava-se a abandon-la. 
Ansiava ter algum com quem falar, dividir sua angstia. Esforara-se para acreditar que seu desejo de ver Logan, de ouvi-lo, de toc-lo e beij-lo diminuiria com 
o passar dos dias...
   Mas essa noite aceitara os prprios sentimentos. Sem subterfgios.
   Logan lhe pedira um voto de confiana.
   Pois havia lhe dado isso e muito mais. Havia lhe entregado o corao.
   Todas as dvidas e suspeitas que pudera alimentar sobre aquele quase estranho empalideciam diante de sua nsia de t-lo.
   Diz um velho ditado que "a razo pe e a paixo dispe." Entretanto, apesar de seus esforos para neg-lo, os sentimentos em sua alma iam alm da paixo.
   Mesmo assim, temia cham-los pelo verdadeiro nome.
   Enfrentar a realidade a fazia sentir-se ridcula por alimentar emoes to fortes em relao a um homem que mal conhecia.
   No, no era verdade. Conhecia Logan. Ao lado dele sentia-se bonita, forte e jovem...
   Lembrava-se de ouvi-lo sussurrar palavras ardentes na ltima noite que haviam tido juntos. Lembrava-se de ouvi-lo falar o quanto amava seu sorriso, quando tudo 
o que queria escut-lo dizer era que a amava.
   Pronto, dissera a palavra mgica, ainda que em silncio. Amor. Como era possvel passar a amar algum to de repente e to profundamente? Sua natureza prtica 
encontrava dificuldades para lidar com o fato.
   Porm, recordava-se de que os pais tinham se casado poucas semanas depois de se conhecerem, levados por uma paixo avassaladora.
   E o que acontecera aos seus sonhos de encontrar um amor assim?
   Com certeza haviam sido enterrados com a juventude perdida e o desencanto de ter se casado com o homem errado.
   Levantando-se, Jessie comeou a andar de um lado para o outro, inquieta. De que adiantava aceitar a verdadeira natureza de seus sentimentos por Logan, se no 
sabia onde encontr-lo? Tambm era bastante possvel que esse amor no fosse recproco.
   De repente, Adorabelle relinchou. Jessie ficou imvel, subitamente alerta. No se tratava de um comportamento comum  gua, relinchar no meio da noite. A no 
ser que houvesse um outro animal por perto. Por um instante, sentiu-se dominada pela louca esperana de que seus sonhos se tornariam realidade. Mas temia que tudo 
no passasse de iluso.
   - Jessie? - chamou uma voz, de dentro da escurido.
   E ela no ousou negar o desejo de seu corao. Virando-se, ps-se a correr para o cavaleiro solitrio, indiferente s pedras que lhe feriam os ps nus, indiferente 
a qualquer perigo que pudesse cerc-la. Importava apenas se encontrar com o amado que a noite lhe trouxera.
   Ao ouvi-lo sussurrar seu nome, todas as dvidas desvaneceram. Sabia que se Logan viesse ao seu encontro cem vezes, cem vezes o receberia de braos abertos dentro 
da escurido, porque apenas assim se sentia viva.
   Ele a tomou nos braos poderosos, os lbios vidos esmagando os seus enquanto a colocava sobre as coxas. O peso extra fez o cavalo andar para o lado, porm bastou 
uma presso dos joelhos do dono para que o animal sossegasse.
   Sentindo-a estremecer, Logan exultou. No era somente um beijo que Jessie lhe dava, mas sim uma entrega generosa de si mesma, uma resposta sem reservas ao seu 
ardor.
   Porm um beijo no era bastante. Jamais seria bastante.
   Com dificuldade, Logan interrompeu o beijo voraz antes que a inquietao de ambos fizesse o cavalo jog-los no cho.
   Ento a apertou junto ao peito, enterrando os dedos nos cabelos macios e sedosos.
   - Ah, querida, juro que me sinto como se tivesse acabado de encontrar a metade de mim que faltava.
   Emocionada demais para falar, ela simplesmente o abraou com fora, enlaando-o pelo pescoo como se temesse v-lo desaparecer no ar.
   - Preciso coloc-la no cho. Oh, Deus, isso  uma loucura! Eu no deveria ter vindo aqui, agora.
   - Pensei que estivesse sonhando...
   - Eu estava ficando louco de saudade. Louco de medo que voc no me quisesse mais, que no pudesse me perdoar por eu ter partido da maneira como o fiz. - Ele 
a tocou de leve no rosto, quase com reverncia. 
   - E, principalmente, no conseguia acreditar que voc pudesse se sentir como eu me sinto.
   - Sonhei com voc, Logan. Rezei para que voltasse para mim.
   - Era isso o que estava fazendo aqui fora, no meio da noite? - ele brincou, sorrindo feliz enquanto a colo- a cava no cho e depois desmontava.
   O luar iluminou a fivela prateada do cinturo de Logan. Lembrava-se de ter visto aquela fivela, ou uma semelhante, num homem chamado Billy Jack, na loja de Silas. 
Mas no queria falar sobre isso.
   - O cavalo com as rdeas amarradas na sua sela  o que lhe comprei, no ?
   - Sim. Um timo animal. Ficaria satisfeito em ter mais alguns...
   - E esse outro?  o seu, no ? Aquele que lhe roubaram?
   Havia uma certa tenso na voz feminina e tampouco lhe passou despercebida a distncia que Jessie colocara entre ambos.
   - O cavalo  meu. Est sob meus cuidados desde que nasceu. E no costumo abrir do que me pertence com facilidade, a menos que seja por vontade prpria.
   Do curral, Adorabelle relinchou. Logan deu um tapa na anca de seu cavalo.
   - V l, rapaz. D um pouco de ateno  dama.
   - Adorabelle  muito velha...
   - Ele  castrado. No conheo nenhum animal que no procure a companhia da prpria espcie.
   - Talvez movido pela urgncia do acasalamento. Depois o macho, em geral, desaparece.
   - Ento acredita que eu tenha voltado por causa disso?
   - No. Eu no quis... - Jessie calou-se, apertando o xale sobre os seios.
   - Talvez seja o efeito do luar, mas acho que voc est enrubescendo.
   - No coro nunca.
   - To rosada quanto uma flor do deserto...
   - Fique exatamente onde est, Logan. No permitirei que me distraia. Recuso-me a permiti-lo. Se voc conseguiu seu cavalo de volta,  porque encontrou os homens 
que o deixaram  morte.
   - Um deles. - Logan inspirou fundo, os punhos cerrados. - No tenha medo de mim, Jessie. Eu no suportaria a idia de amedront-la. Nunca seria capaz de feri-la. 
E tambm no matei o homem. Embora quisesse muito faz-lo...
   - No lhe perguntei.
   - Bem, isso  a nica coisa que voc no me perguntou.
   - No  verdade. No lhe perguntei onde esteve. - Ou vrias outras coisas. Logan sentira sua falta? Ficaria ao seu lado para sempre?
   - Jessie? - Ele deu um passo  frente, os olhos fixos no rosto que parecia desafi-lo. Porm no a tocou. Tinha receio de que se a tocasse, no conseguiria parar 
at possu-la por inteiro. 
   - Quero que saiba que voc pode me perguntar o que quiser.
   Ela estudou o rosto amado, notando o cansao estampado em cada um dos traos viris. 
   - Qualquer coisa?
   - Qualquer coisa que a esteja mantendo distante de mim. 
   - Quem  voc, Logan?
   Havia verdades e tambm "a" verdade.
   - Sou o homem que voltou em busca da outra metade de si mesmo. Da metade que realmente importa, aquela cheia de esperana e amor.
   - Logan...
   - No. Voc me perguntou e estou respondendo. Sou o homem que ainda precisa lhe pedir um voto de confiana por algum tempo mais. Ento, apenas ento, terminarei 
de responder  sua pergunta.
   - Entendo - ela murmurou, desviando o olhar. 
   - Tenho a impresso de que est faltando alguma coisa. Algumas palavras sobre...
   - Jessie...
   - No. Estou entendendo.
   - Est mesmo? Voc, realmente, compreende?
   O apelo contido naquelas palavras a fez fit-lo outra vez. Era impossvel negar-se a ouvir a voz do prprio corao.
   - Voc deve ter algum poder especial. Ou talvez a teimosia de uma mula. No estou fugindo, estou?
   Atordoado pelo receio de perd-la, ele levou algum tempo at se dar conta do que acabara de ouvir. Ento sorriu, feliz e aliviado.
   - Minha doce e petulante Jessie, talvez voc possa desejar ter fugido quando ainda tinha uma chance.
   - Tenho me arrependido de certas coisas em minha vida, Logan, porm nunca dos momentos passados ao seu lado.
   Ele a tomou nos braos, beijando-a cheio de paixo.
   De dentro do chal, Marty exigia que Kenny lhe contasse o que estava vendo atravs da janela.
   - O que ele est fazendo? Vamos, Kenny, diga logo. Conte-me tudo.
   - Fale baixo. Quer que os dois nos ouam? Esto se beijando. Que mais poderiam fazer a no ser essa chatice? - Saindo de perto da janela, Kenny puxou o primo 
para o outro cmodo, de onde seus murmrios no podiam ser escutados. - Quando Logan chegou assim to tarde da noite, pensei que teramos alguma diverso. E tudo 
o que faz  beij-la!
   - Talvez ele tenha nos trazido um presente. Voc acha que sim?
   - No sei quanto a ns, mas Jessie est agindo como se tivesse acabado de ganhar um. Talvez no ficassem to animados se soubessem o que fizemos.
   - Eu lhe disse que deveramos ter contado  Jessie. Ela no vai gostar quando descobrir aqueles homens l em cima. Ns deveramos ter contado, Kenny. Deveramos...
   - J sei. Vamos nos vestir. A gente arruma as camas como se ainda estivssemos dormindo. Se virmos os homens na cabana, voltamos e buscamos Logan. Ele saber 
o que fazer.
   - Vamos ser apanhados.
   - Voc pode ficar, se quiser. - Kenny trocou-se depressa, provocando o primo, que continuava imvel. - Beb. 
   - No sou no.
   -  sim.
   Finalmente Marty se decidiu.
   - Espere por mim. Jessie vai ficar brava comigo quando descobrir que voc no est aqui.
   - Tem certeza do que est fazendo, Kenny? Jessie...
   - Se est com tanto medo, fique aqui. - Apesar da bravata, Kenny apanhou a arma que pertencera ao pai e uma caixa de balas.
   De mos dadas, as crianas saram para a noite.
   Enquanto isso, deitados sobre um monte de feno no celeiro, Logan tentava conversar com Jessie sobre um assunto que o preocupava.
   - Naquele dia que voc foi a Apache Junction, por que no me contou o que aconteceu na loja? Sei que Billy Jack estava l. Sei que Zach e Monte estavam l tambm. 
Se eu tivesse sabido antes, jamais teria permitido que voc se expusesse.
   - Deixe-me lhe mostrar o que tenho sonhado fazer desde a noite que voc partiu - ela murmurou, cobrindo-o de beijos.
   - Por que no me contou? - Logan tornou a insistir, quando, enfim, pararam para respirar. - Com certeza devia desconfiar que eu tinha alguma relao com o bando. 
Foi preciso muita coragem para enfrent-los.
   - No foi uma questo de coragem. Eu estava apavorada. Porm no me machucaram, apenas me assustaram. - Ao lembrar-se de Billy Jack tocando-a, ela estremeceu, 
enojada. No mesmo instante, Logan a abraou com mais fora. - No se preocupe, estou bem. S no pude lhe contar... Eu me sentia... Eu queria, no, eu precisava, 
esquecer.
   - O usque...
   - Falsa coragem, no tardei a descobrir.
   - Maldio! Voc no devia ter passado por tudo isso. S no entendo por que ningum os fez parar.
   - Silas? No. Os homens estavam gastando dinheiro enquanto eu sou uma freguesa de poucas posses. A ndia foi paga para... Bem, no posso julgar os outros. E David...
   - David? Aquele homem que a estava cortejando? Ele estava l? Ele...
   Arrependida de haver ido to longe nas suas explicaes, Jessie se ajoelhou para fit-lo de frente.
   - Quero que preste ateno no que vou lhe dizer:. Sou uma mulher independente. No pedi ajuda a David naquele dia porque sabia que os homens iriam machuc-lo. 
Est acabado agora. No quero falar sobre isso.
   Sem nada responder, Logan apenas a fez deitar-se sobre seu corpo.
   - Confortvel?
   - Na verdade...
   - Voc est adorando estar no comando - ele respondeu rindo. 
   - Quero lhe fazer mais uma pergunta.
   - Apenas mais uma, certo? 
   - S mais uma?
   - Sim. Quero saber por que voc no me disse nada. E no me fale que foi para me proteger, pois j sei essa parte.
   Jessie deitou a cabea sobre o peito largo, ouvindo as batidas ritmadas do corao. Quisera que ele no houvesse lhe perguntado, quisera poder ficar assim para 
sempre, em segurana nos braos do homem amado, certa de que nunca mais seriam obrigados a se separar.
   Os segundos se transformaram em interminveis minutos. Logan foi se tornando inquieto, temeroso de que algo terrvel acontecera a Jessie e que a magoava ainda 
mais, obrigando-a a tocar no assunto. 
   - Jessie...
   - Logan... No sei se conseguirei explicar a voc. Mas eu me sentia indefesa naquele dia. Incapaz de faz-los parar. Incapaz de os punir. E me senti to suja. 
Suja e envergonhada - ela terminou num murmrio, engolindo as lgrimas.
   Ao perceber a tenso crescer no corpo masculino, soube o que Logan pretendia fazer, mesmo sem que ele lhe dissesse uma nica palavra.
   - Eu lhe disse a verdade. Agora quero que me prometa no...
   - No me pea isso. Voc  minha. E no permitirei que, jamais, venha a temer algum. Voc precisa entender que j no est mais s. Agora me d um beijo, querida.
   - O que aconteceu no faz diferena para voc, faz?
   - Como pode me perguntar uma coisa dessas? Respeito-a agora mais do que nunca. Voc  a coisa mais importante da minha vida. Bem, no posso me esquecer daqueles 
dois garotos.
   - Quero muito fazer amor com voc agora - ela sussurrou, feliz que a escurido lhe permitisse ser to ousada. 
   - Os meninos?
   - Dormindo, depois do dia movimentado que...
   - Depois, querida. Depois voc pode me falar sobre eles. - Logan acompanhou o contorno da boca delicada com a ponta da lngua.
   - Promete que no partir sem me acordar?
   - No me pea isso. Nunca me pea para lhe dizer adeus.
   Ento Logan a beijou com paixo, at estarem ambos trmulos e ofegantes nos braos um do outro. Vencendo a timidez, Jessie murmurou como gostaria de ser tocada, 
tornando-se ousada quando ele exigiu que ela lhe mostrasse.
   Levados pelo desejo selvagem, se uniram de corpo e alma, gritando seu prazer para o infinito.
   Odiava ter que deix-la, mas sabia no ter outra escolha. Vendo-a adormecida, levantou-se devagar, querendo poder lev-la para dentro do chal, porm o receio 
de acordar as crianas o impediu. Cobrindo-a com a manta, jurou a si mesmo voltar para busc-la.
   
   
   CAPTULO XIX
   
   Jessie acordou lentamente e ento sentou-se. Sabia estar s. Por um instante permaneceu imvel, as mos agarradas  manta ainda impregnada com o cheiro do amor.
   Entretanto, apesar de uma certa melancolia, manteve a promessa que fizera a si mesma. Nada de arrependimentos esta manh. Apertando o xale junto aos ombros, para 
proteger-se da brisa fria, levantou-se e saiu do celeiro, os olhos fixos no cu. A aurora consumia os ltimos vestgios da noite, envolvendo tudo ao redor com sua 
luz tnue e penetrante. De repente, o sol nasceu.
   Sabendo que os garotos poderiam estar acordando tambm, passou os dedos pelos cabelos e os prendeu numa nica trana, evitando pensar no que acontecera horas 
antes. Recusava-se a chorar, ou a imaginar o que lhe traria o futuro.
   Depressa, correu at o chal, suspirando aliviada ao certificar-se de que os meninos ainda dormiam. Sem fazer o menor barulho, entrou no quarto e fechou a cortina 
que separava os dois cmodos antes de lavar-se, experimentando uma sensao estranha de urgncia, algo que no podia definir. Vestiu-se rapidamente e tornou a abrir 
a cortina. Estranho que Marty continuasse a dormir, a manta tapando-lhe a cabea. O menininho sempre amanhecia descoberto, pois se remexia muito durante a noite.
   Ser que ele acordara e a ouvira com Logan? Jessie fechou os olhos, sentindo-se enrubescer, rezando para que isso no tivesse acontecido. E se tivesse...
   Sua inexperincia em lidar com crianas e suas perguntas incessantes s vezes a apavorava. Porm nunca fora o tipo de fugir s obrigaes, embora no considerasse 
Kenny e Marty como tal. Os dois lhe tinham dado tanto nesses ltimos dias. Tambm acreditava ter lhes dado algo em troca, algo de que tanto necessitavam. Amor e 
algum com quem pudessem contar em todos os momentos.
   - Muito bem, seus dorminhocos - ela falou carinhosa, inclinando-se sobre as formas imveis. - Hora de acordar.
   Ao puxar a manta de onde deveria estar Kenny, encontrou apenas o travesseiro e um monte de roupas. Se Kenny no estava em casa, tampouco Marty estaria.
   Alguns segundos se passaram antes que conseguisse vencer o pnico e pensasse com clareza.
   Havia prometido aos meninos lev-los ao antigo acampamento para que trouxessem tudo aquilo que Adorabelle fosse capaz de carregar. Fora Kenny quem dera a idia 
e se apressara a concordar, achando que lhes faria bem ter objetos familiares na nova casa.
   Mas Kenny no iria sem ela. Alis, prometera-lhe nunca sair sem antes avis-la.
   O que os fizera deixar o chal, meu Deus? E quando? Atordoada pela culpa, Jessie deixou-se cair numa cadeira.
   Haveriam os meninos acordado e a chamado, sem conseguirem encontr-la? Ser que Marty fora atormentando por um de seus pesadelos outra vez? Com certeza o teria 
ouvido.
   Mas teria mesmo? Perdida de amor nos braos de Logan, teria mesmo ouvido qualquer outra coisa que no fossem murmrios apaixonados?
   - Teria. Juro que teria - Jessie falou, agarrando uma arma e o chapu antes de correr para o curral.
   A viso do cavalo marrom, que comprara para Logan, encheu-a de alvio. Adorabelle no era o tipo de animal de que precisava agora. Com gestos rpidos, o arreou 
e se preparou para montar, surpresa ao notar que Logan deixara o rifle para trs, preso  sela. Alis, tratava-se de uma bela arma, com detalhes em prata trabalhada.
   De repente, o som de vozes masculinas rompeu a imensa quietude, fazendo-a prender a respirao. Imediatamente, ergueu o rifle, mantendo-se ainda na sombra proporcionada 
pela cerca.
   - Estou lhe dizendo. As duas tm que ser a mesma pessoa. No posso acreditar que ele no tenha me dito nada.
   - Talvez ele no quisesse que soubssemos - Conner retrucou reparando nos arredores e na simplicidade do chal. - No exatamente um modelo de prosperidade, no 
?
   - Lembre-se do que eu lhe disse. Greg...
   - Parados onde esto. - Saindo de trs do animal, Jessie deu um passo  frente e apontou o rifle na direo dos intrusos. - Digam logo a que vieram. E sejam rpidos. 
Estou com pressa.
   Jessie rezou para no deixar transparecer o medo que a consumia enquanto avaliava os desconhecidos. Apesar de cobertos de poeira, o que indicava uma longa jornada, 
no tinha dvidas de estar diante de homens duros e determinados. O mais jovem dava a impresso de examin-la com igual intensidade.
   - Falem! - ordenou. O que faria se ambos estivessem atrs de Logan? Num gesto automtico, pousou o dedo sobre o gatilho.
   - Calma. No se afobe. - Ty jogou o chapu para trs. Essa mulher no podia ser a tmida Jessie da qual se lembrava. Aquela Jessie no saberia nem sequer segurar 
um rifle. Entretanto o corpo exuberante era o mesmo do da irm de Greg e tambm os longos cabelos. As peas do quebra-cabea se encaixavam. Tinham que se encaixar, 
ou arrastara Conner consigo a troco de nada.
   - Voc no se lembra de mim? - Ty perguntou, tendo o cuidado de manter as mos  vista.
   - E deveria? - Havia algo naquele sorriso petulante que a fazia pensar em...
   - Ty Kincaid. Eu a encontrei quando estive na casa de seu irmo. Voc  Jessie, certo? Irm de Greg.
   - Ty? O que voc est fazendo aqui? Alguma coisa aconteceu ao meu irmo? - Ela comeou a tremer e se esforou para no ceder ao pnico.
   - Greg e famlia estavam timos quando sa de l.
   Jessie fitou o outro homem, alarmada. Se Ty no fora procur-la por causa de Greg, ento suas suspeitas tinham fundamento. Os dois estavam atrs de Logan.
   - No tenho tempo para conversar agora. Voc e seu amigo sintam-se em casa. Preciso encontrar meus meninos.
   - Meninos? Greg nunca me disse que voc havia tido filhos.
   - Meu irmo perdeu o contato comigo desde que me casei.
   - Voc no pode culp-lo inteiramente - Ty defendeu o amigo. - Greg se preocupa com seu bem-estar. Sei que ele no gostava muito do homem com quem voc se casou, 
porm detestava a idia de ter a nica irm morando to longe. - Ento essa mulher mentira para Logan, dizendo-se viva. Ou ento seu irmo no se importava de estar 
envolvido com a esposa de outro homem. Impossvel. Logan sempre tivera carter.
   - Greg j no tem com o que se preocupar. Harry est morto. E os meninos no so exatamente meus. Por favor, Ty,  uma histria comprida e complicada. Quando 
acordei, os garotos haviam sumido. Preciso encontr-los.
   - Jessie, acredite-me, meninos adoram levantar cedo e sumir, em especial quando tm tarefas a cumprir. - Embora no demonstrasse, Ty sentia-se aliviado por se 
tratar de uma viva, no de uma mentirosa. Mas vendo-a to aflita, encarregou-se de terminar de selar o cavalo marrom.
   Nenhum dos dois reparou que Conner havia desmontado tambm e que agora observava o rifle que Jessie deixara apoiado na cerca.
   - Ty? Voc notou o rifle?
   Imediatamente Jessie assumiu uma postura desafiadora, temendo que estivessem atrs de Logan.
   - O que tem o meu rifle, senhor?
   - Sou irmo de Ty. - A voz de Conner soava baixa e controlada. - Esse rifle que voc diz ser seu, pertence...
   - No! - Ela no queria ouvir que Logan o tinha roubado. Agarrando a arma com fora, jogou-a sobre a cerca para Conner, sentindo os nervos to tensos, que j 
no era capaz de raciocinar. - Pronto, agora voc tem o rifle.
   - Voc no est entendendo, Jessie. - Ty tentou, em vo, conter um sorriso diante da expresso furiosa de Conner. Raras vezes vira o irmo to confuso e desconcertado.
   Apesar de estar  beira de perder a pacincia, Conner procurou explicar novamente.
   - Acho que minha pergunta foi mal interpretada, Jessie. Tudo bem se eu a chamar assim?
   - Sim. Mas apresse-se.
   - Dei esse rifle ao meu irmo. E no  o tipo de coisa da qual ele iria se desfazer. - Apesar de seus esforos, as ltimas palavras foram ditas com raiva. Passara 
a noite inteira cavalgando, preocupando-se com Logan, com o envolvimento da me com Riverton e com uma centena de outros pequenos problemas. Agoria-se obrigado a 
enfrentar uma mulher que o fitava como se no passasse de um mentiroso.
   - Vamos, Conner...
   - Se voc sabe o que  bom, irmozinho, fique de boca fechada.
   - Voc est querendo me dizer - Jessie perguntou a Conner -, que o rifle pertence ao seu irmo?
   - Foi o que eu disse. - Melhor resolver logo a questo, ou aquela mulher iria testemunhar o que pouca gente j vira: Conner Kincaid perdendo por completo a calma.
   Jessie virou-se para Ty, receando dizer em voz alta as suspeitas que comeavam a tomar forma. Se fosse verdade...
   - Ty, quem  seu irmo?
   O sorriso dele desapareceu. A situao exigia seriedad
   - Meu irmo  o homem que dois meninos encontraram e trouxeram para uma viva cuidar.
   - O nome dele? - A voz de Jessie no passava dum murmrio, a garganta to seca que mal podia engolir- Diga-me.
   - O nome dele  Logan - Conner respondeu antes do irmo, observando-a atentamente e julgando cada um de suas reaes. -  bvio que ele esteve aqui, assi como 
 bvio j ter partido.
   - Oh, Deus, pensei que ele fosse um fora-da-lei Jessie murmurou, quase que apenas para si mesma.
   - Ele ... Oua, assim como sua histria, esta tambm  comprida e complicada. Voc sabe para onde ele foi?
   - No, Conner. Ele... - Confusa, Jessie esfregou as tmporas. - No sei quando ele partiu. Talvez durante a noite... Por favor, tenho que achar os meninos. Eles 
nunca fariam isso. Kenny no quebraria uma promessa feita a mim.
   - Tem mesmo certeza de que Logan no lhe disse nada sobre para onde planejava ir?
   - Foi o que eu disse, no foi? - Percebendo o pnico e a tenso na prpria voz, Jessie inspirou fundo. - D-me um momento, por favor. Sei que ele encontrou um 
dos homens que o abandonou ferido e inconsciente. Porm no o matou. Mas recuperou o cavalo. O cavalo que haviam lhe roubado. Oh, Deus, Logan foi atrs dos outros, 
no foi? E pode estar com problemas, no ?
   - No sabemos. Conner acredita que Logan foi abandonado  morte porque os bandidos tinham descoberto sua verdadeira identidade. - Vendo a expresso atnita de 
Jessie, Ty tentou acalm-la. - Como meu irmo lhe disse,  uma histria comprida e complicada. Prometi a Greg vir v-la e verificar se tudo estava bem. Temos que 
nos encontrar com Logan dentro de alguns dias. Quando ele esteve em casa...
   - Casa? - Ela olhou de um para o outro sem saber o que pensar. - Tem razo. A histria  complicada demais para que eu possa entend-la agora. Preciso achar os 
garotos. Tenho uma idia de onde possam estar. Sintam-se  vontade para ficar aqui e aguardar.
   Ty e Conner trocaram algumas palavras rpidas enquanto a observavam montar. Ento anunciaram que pretendiam acompanh-la.
   - Caso os meninos no estejam onde voc imagina, Jessie. A propsito, Conner  um excelente rastreador.
   Jessie tomou o caminho das montanhas e os irmos Kincaid a seguiram logo atrs.
   
   Uma fumaa fina e cinzenta finalmente guiou Logan at a cabana. Escondido atrs de uma pedra enorme, notou trs cavalos no curral. Um dos homens estava ausente. 
Provavelmente Monte.
   Durante todo o trajeto at ali, pensara muito em Jessie e nos planos que havia feito com Conner.
   J no queria esperar para emboscar o bando no meio de um assalto. Queria justia agora. Porm sabia que seu tipo de justia teria que aguardar at que todas 
suas suspeitas fossem confirmadas e tivesse o nome do homem por trs dos roubos. Conner no concordaria que fosse de outra maneira.
   Trs contra um no era exatamente a melhor aposta a favor de um homem, entretanto j enfrentara situaes semelhantes...
   De sbito, Tallyman apareceu na soleira da porta, coando a barriga. Depois de se espreguiar e bocejar, desapareceu num canto, atrs da cabana.
   A oportunidade de enfrentar apenas dois, inicialmente, no podia ser desperdiada. Logan moveu-se depressa e se aproximou da cabana.
   Os gritos foram to inesperados, que a princpio no conseguia entender o que estava ouvindo. No era possvel que os gritos de Kenny, mandando Marty correr, 
estivessem sendo interceptados por um berro de Tallyman.
   Um tiro ecoou no ar. Logan sentiu o sangue gelar nas veias. Sem se importar em manter-se escondido, correu para trs da cabana, temendo o que iria encontrar.
   A cena diante de seus olhos se assemelhava a um pesadelo. Kenny, depois de levar uma bofetada de Tallyman, estava cado no cho, vendo o bandido segurar o primo 
pela gola da camisa e levant-lo no ar.
   Percebendo que no podia atirar, pois arriscava-se a atingir uma das crianas, Logan gritou para que Kenny sasse do caminho, agora que Tallyman se virara para 
enfrent-lo, tendo largado o garotinho. Tallyman era pelo menos uns vinte quilos mais pesado do que Logan, porm no tinha essa raiva fervendo dentro de si. E Logan 
sabia que precisava domin-lo depressa, antes que os outros dois bandidos aparecessem.
   
   Frustrada por no encontrar os dois meninos no antigo acampamento, Jessie resolveu ir at o pequeno vale, onde mantinha o gado. Entretanto no havia sinal dos 
garotos.
   Foi Ty quem os fez parar quando o eco quase sumido de um tiro encheu o ar. Os dois irmos trocaram um olhar preocupado, embora tentassem acalm-la.
   - Parece que as crianas foram caar.
   Jessie nada respondeu. Seu instinto dizia-lhe para encontrar os meninos. J. De repente, lembrou-se de Logan lhe ter feito perguntas sobre a cabana abandonada. 
Ser que as crianas a tinham descoberto tambm?
   - Ty, voc me disse que veio me ver porque estava a caminho de uma de suas minas, no ?
   - Sim. Contei-lhe que temos sido sistematicamente assaltados.
   - Por acaso a mina seria ao norte daqui?
   O tom da voz de Jessie e o brilho febril do olhar o alarmou.
   - Sim.
   - Tem uma cabana abandonada ao norte de onde estamos. Acabei de me lembrar que Logan fez perguntas a respeito. No, no por causa daqueles homens... por causa 
dos meninos. H meses no vou at l. E se... - Jessie calou-se e fechou os olhos. Oh, Deus, que eu esteja errada, rezou em silncio. Por favor, deixe-me estar cometendo 
um terrvel engano.
   - Jessie? - Conner a chamou. - Alguma coisa errada?
   - Sem mais perguntas. Apenas me sigam. E se vocs sabem alguma orao, digam-na agora. Rezem para cheguemos a tempo.
   
   
   CAPTULO XX
   
   Marty estava apavorado. Mais apavorado do que na noite em que ajudara Kenny a enterrar os pais. No queria chorar. Kenny iria caoar dele se chorasse. Porm Kenny 
no estava ali para v-lo.
   Havia corrido quando Logan mandara, mas no conseguira chegar muito longe. Logan estava lutando com o homem que os tinha pego, gritando para que Kenny fugisse 
dali tambm. S que Kenny preferira tentar pegar a arma.
   De nada adiantara. Dois outros homens saram correndo da cabana. Um deles bateu em Kenny e seu primo no se levantou mais. Depois esmurraram Logan.
   Estavam todos dentro da cabana agora e ele no sabia o que fazer. Se fosse para casa avisar Jessie, os bandidos podiam ir embora levando Logan e Kenny consigo. 
Ento no saberia onde ach-los.
   Precisava ser corajoso e pensar no que Kenny faria.
   
   Dentro da cabana, Kenny no se sentia muito corajoso. Cada msculo doa por causa de seus esforos para impedir que aqueles homens continuassem batendo em Logan. 
Pelo menos estava consciente. Logan permanecia desacordado. Um dos bandidos fora se sentar perto da porta aberta. A nica sada. O que se chamava Tallyman sentara-se 
junto  mesa, tentando fazer parar o sangue que escorria da boca.
   Nenhum dos trs dava a impresso de considerar Logan uma grande ameaa agora, pois aps lhe tirarem a arma, no haviam se dado ao trabalho de o amarrar, deixando-o 
jogado junto  parede de madeira.
   Mais para se sentir reassegurado, Kenny moveu-se para perto de Logan e tomou a mo inerte entre as suas. Ento abaixou a cabea para esconder a surpresa quando 
Logan lhe apertou os dedos.
   Porm isso no foi nada comparado ao choque de sentir algum o cutucar nas costas, atravs de um buraco na parede. Marty! S podia ser o primo. Como lhe informar 
que Logan estava bem?
   - O que vamos fazer com esses dois? - Tallyman perguntou.
   - Deveramos t-lo matado quando eu quis - Zach respondeu cheio de dio.
   - E melhor esperarmos Monte - Blackleg os avisou, de perto da porta. - Ainda no consigo entender por que Logan foi atrs de voc. Ou de onde surgiram os garotos.
   - Aquele ali - Zach apontou para Kenny -,  o garoto da fazenda. Lembro-me de que ele me disse no ter visto nenhum forasteiro. Seu pequeno...
   - Chega, Zach.  apenas uma criana. - Blackleg bebericou o caf, os olhos fixos na rea prxima  cabana. -  melhor um de vocs ir atrs do cavalo.
   - V voc, se est to preocupado - Zach devolveu. - Enquanto estiver l fora, trate de achar o outro moleque.
   Kenny tentou assobiar para avisar Marty, porm os lbios estavam to secos, que no foi capaz de emitir som algum. Oh, Deus, se o homem sasse, Marty seria pego 
na certa.
   - Ei, senhor - ele chamou. - Deixe-me acompanh-lo. Voc vai passar o dia inteiro tentando encontrar meu irmo. Minha me vai me dar uma surra por termos nos 
metido numa encrenca.
   - Voc no vai ter mais com o que se preocupar, garoto - Zach o avisou.
   - Pare por a, Zach. No vou matar nenhuma criana.
   - Voc est me dizendo o que fazer, Blackleg?
   - Estou lhe dizendo que no vou matar criana nenhuma. Vamos, garoto, venha comigo.
   Zach sacou a arma.
   - Fique exatamente onde est, moleque. Quanto a voc, Blackleg, v encontrar o cavalo de Lucky.
   Sacudindo a cabea de um lado para o outro, Blackleg saiu da cabana.
   Kenny se encostou na parede, rezando para Marty tivesse ouvido toda a conversa e corrido para longe dali como o diabo. Quando vrios minutos se passaram sem que 
escutasse gritos, comeou a acreditar que o primo estivesse a salvo.
   
   Foi Conner quem avistou o cavaleiro solitrio, subindo a montanha.
   - Mantenham os cavalos quietos - ele ordenou, fitando Jessie. Queria poder reassegur-la de que as crianas estavam bem, em segurana, porm a cada minuto que 
passava mais se convencia do contrrio.
   - Logan? - Ty perguntou, aproximando-se do irmo. - Longe demais para saber. - Mais nenhum tiro.
   - No deveria, entretanto isso me preocupa.
   Os dois olharam para Jessie, imvel na sela, os olhos fechados, as mos cruzadas sobre o colo.
   - Que mulher! - Conner murmurou, mais para si do que para o irmo.
   
   Logan ignorou a dor intensa que ameaava atordo-lo. No havia tempo para isso. Precisava dar um jeito de tirar Kenny dali.
   Apertar a mo do garoto foi a maneira de avis-lo.
   Gemendo alto, ajoelhou-se, como se quisesse levantar-se. Zach agiu exatamente como esperara, preparando-se para chut-lo nas costas.
   Porm estava pronto para enfrent-lo. Segurando o p estendido do bandido, torceu-o com fora, gritando para que Kenny fugisse.
   O garoto, em vez de obedec-lo, ergueu-se e se jogou contra Tallyman, antes que ele pudesse atacar Logan tambm, atingindo-o na canela. Se no estivesse to apavorado, 
teria rido diante da expresso do rosto do homem. Ao v-lo curvar-se de dor, agarrou um pedao de pau que descobrira no cho e lhe bateu na cabea, nocauteando-o.
   Enquanto isso, Logan e Zach lutavam pela posse da arma do bandido. Logan no sabia de onde aquela fora toda havia surgido. Talvez do desespero. To logo se apossou 
do revlver, apertou o gatilho.
   - Seu desgraado. Voc atirou em mim! - Zach explodiu.
   Logan no se deu ao trabalho de responder. Deixando o outro sangrar, conseguiu se arrastar at a parede e parou, ofegante, cada msculo do corpo doendo terrivelmente, 
a arma firme na mo.
   - Saia daqui - ordenou a Kenny. 
   - Mas...
   - Mexa-se. V agora.
   - Mas ainda tem um bandido...
   Como se suas palavras o tivessem conjurado, Blackleg entrou no chal. Ao ver os dois corpos cados no cho, virou-se para Logan.
   - Como conseguiu fazer isso?
   - Se voc for... inteligente, no tentar sacar a arma.
   - Eu disse a eles que no mataria crianas. Abaixe a arma. No tive nada a ver com o fato de o bando o ter abandonado. Tampouco lhe roubei algo. Voc no tem 
nenhum motivo para atirar em mim, Lucky.
   - No. - Porm Logan no explicou estar negando apenas o nome pelo qual se dera a conhecer. Sabia que precisava neutralizar Blackleg. No podia deix-lo escapar.
   - Onde est Marty? O que voc fez com ele? - Kenny perguntou ao bandido.
   - Mandei-o sair daqui, Kenny.
   - Voc est ferido, Logan. No posso abandon-lo. E se tiver mais desses homens l fora? Quem ir ajud-lo, se eu for embora?
   - Logan? - Blackleg repetiu, confuso.
   - V achar algo com que amarr-lo - Logan instruiu o garoto, fazendo sinal para que Blackleg desse um passo  frente.
   Em questo de minutos, Kenny havia arranjado um cobertor e o estava cortando em tiras. Ao terminar, amarrou primeiro as mos de Tallyman atrs das costas e depois 
os ps, evitando olhar para Zach, que continuava gemendo e sangrando.
   Apontando a arma para Blackleg, Logan o fez deitar-se de bruos enquanto o menino se encarregava de amarr-lo tambm.
   - Agora saia daqui, Kenny.
   - Mas...
   - No. Estou orgulhoso de voc. To orgulhoso que no posso nem sequer encontrar palavras para lhe agradecer. V atrs de Marty e volte para a casa de Jessie.
   Percebendo que o menino insistia em no obedec-lo, Logan fechou os olhos por um instante, tentando se armar de pacincia.
   - Oua. Voc quase foi morto, Kenny. Acha que eu poderia voltar a encarar Jessie se algo lhe acontecesse, ou a Marty? V. Preciso saber que ambos esto em segurana.
   Kenny virou-se e i saindo quando Monte Wheeler bloqueou a passagem.
   - No se mexa! - Logan gritou.
   Porm Monte j havia agarrado o garoto e o segurava diante do corpo, como um escudo, enquanto lhe encostava o revlver na tmpora esquerda.
   - Vou lhe dar trs segundos para largar a arma e comear a falar antes que eu atire.
   Logan obedeceu, temendo pela vida de Kenny como nunca temera coisa alguma at ento.
   - Solte o menino. Isto  entre voc e eu, Monte.
   - Ouvi o garoto cham-lo de Logan. Voc  um Kincaid. - No se tratava de uma pergunta, e sim de uma afirmao.
   -  verdade. Mas voc j sabia disso, no ? - Se Monte conhecia sua verdadeira identidade, era porque algum lhe contara. Ento suas suspeitas tinham fundamento... 
- Por isso voc me deixou  morte. E se sabe quem sou, tambm sabe que no existe um lugar nessa terra onde poder se esconder se me matar. Meus irmos o caaro 
por toda parte at encontr-lo.
   - Muita conversa fiada para um homem a ponto de morrer. V para o canto da parede. No vou ficar aqui com minhas costas desprotegidas.
   - Com medo, Monte? Algum anda seguindo-o? Algum que o tenha visto encontrar-se com Riverton? - Valeu a pena ter lanado a isca, porque o bandido mal pde disfarar 
a expresso de surpresa, embora no dissesse nada. 
   - Pensou que ns no sabamos?
   - Eu lhe disse para se afastar, ou matarei o garoto.
   - Claro, claro. Voc est com a arma. - Logan sentia-se perfeitamente calmo e controlado agora. No sabia como, mas mataria esse canalha para vingar o pavor que 
Kenny devia estar experimentando.
   Ele se moveu devagar, evitando os corpos no cho, notando que Kenny colocava todo seu peso sobre o brao de Monte, como se estivesse  beira de desmaiar.
   Isso mesmo, garoto, Logan pensou satisfeito. Obrigue-o a larg-lo, faa-o acreditar que voc j no representa nenhuma ameaa.
   Controlando a urgncia de agir, Logan no esboou a menor reao quando Monte depositou o corpo do menino no cho. Imediatamente comeou a falar, para desviar 
a ateno do bandido.
   - Ns descobrimos todos os passos da operao. Desde o roubo do gado, at a maneira como vocs alteraram nossas marcas nos animais. O dinheiro dos assaltos  
mina servia para pagar as terras que Riverton ia adquirindo...
   - Quem lhe contou tudo isso? Ningum sabia. Sou o nico com quem Riverton mantinha contato.
   Logan sorriu.
   No mesmo instante Monte percebeu o erro que acabara de cometer.
   - Eu devia t-lo matado! Voc me armou uma cilada!
   Logan se jogou no cho e apanhou a arma. Monte atirou, sem no entanto conseguir acert-lo.
   - No adianta saber dessas informaes. Voc  um homem morto.
   Kenny aproveitou-se da confuso para se arrastar porta afora e comear a correr.
   Monte tornou a atirar. Logan reagiu, a segunda bala arrancando o revlver da mo do bandido, fazendo-o gritar de dor e segurar o pulso direito, dando um passo 
instintivo para trs. Porm um tiro simultneo o empurrou de volta para dentro da cabana. Monte vacilou e caiu no cho, de onde no mais se levantou.
   Por um instante o silncio foi absoluto.
   Impossvel. Monte estava morto. O nico homem capaz de ligar Riverton aos roubos estava morto. E no podia culpar Kenny por haver atirado.
   Entretanto no foi a voz do garoto que chamou seu nome.
   Mas a de Conner.
   - Suspenda o fogo - Logan gritou. - Estou saindo, Conner.
   Pronto. Estava acabado.
   No momento em que colocou os ps fora da cabana, os dois meninos se lanaram sobre ele, abraando-o como se no pretendessem solt-lo jamais. Logan os apertou 
junto ao peito, porm seu olhar estava fixo na mulher que corria ao seu encontro.
   - Jessie!
   - Oh, meu Deus, o que fizeram com voc? - ela murmurou, atirando-se em seus braos.
   - Est tudo bem, querida. Est tudo bem.
   - No. No. Pensei que o tivessem matado. As crianas... Oh, meu amor, eu quis morrer tambm. - Jessie explodiu em lgrimas, soluos incontrolveis sacudindo-a 
violentamente.
   Conner os deixou e entrou na cabana. Ty segurou os garotos pela mo e os levou para junto de uma rvore, fazendo-os sentar  sombra. Queria dar ao irmo um pouco 
de privacidade.
   Todavia, no faria diferena se estivessem no meio de uma multido. Logan tinha olhos apenas para Jessie. Cheio de ternura, acalentou-a, at acalm-la. Ento 
beijou-a de leve nos lbios.
   - Nunca mais quero v-la chorar. - Como o fluxo de lgrimas continuasse, brincou: - Ah, querida, o que vou fazer com uma mulher que se recusa a me obedecer?
   - No sei.
   Ele tornou a beij-la.
   - Lembra-se de ontem  noite? Voc perguntou quem eu era. Agora posso lhe dar todas as respostas. Sou Logan Kincaid, um dos donos da fazenda Rocking K e o homem 
que quer se casar com voc. Venha para casa comigo, querida.
   Novamente os lbios de ambos se encontraram, ansiosos para apagar toda a angstia passada.
   - Meus irmos...
   - J nos conhecemos. Os meninos...
   - So nossos. Quanto a isso no h dvida. Voc os quer, no?
   - No creio que essa pergunta deva ser feita a mim. Quero que seja uma escolha deles.
   Abraando-a pela cintura, Logan caminhou at o pequeno queno grupo formado pelos irmos e pelos garotos.
   - Jessie aceitou...
   - Casar-se com voc. Faz sentido. Depois de todos aqueles beijos. Agora ela vai parar de chorar e...
   - Kenny! - Jessie protestou.
   - Voc no quer que Logan saiba como sentiu saudade dele?
   - Ele j sabe.
   - Antes que eu lhes faa uma pergunta importante, Kenny e Marty, quero lhes agradecer.
   - Est vendo? Est vendo? Eu lhe disse, Kenny. Eu lhe disse que Logan no ia nos dar uma surra.
   - Por terem desobedecido, deveriam levar umas boas palmadas, sim. Imaginem o quanto Jessie ficou preocupada. Por outro lado, estou orgulhoso de vocs. Seus pais 
devem estar vendo-os, l do cu, felizes por saberem que meninos valorosos ambos so. No h um homem nessa terra que no se orgulharia em cham-los de filhos.
   Marty abraou-se a Logan, porm Kenny continuou imvel, observando-o.
   - Alguma coisa o preocupa, Kenny?
   - Sim. Parece que voc vai levar Jessie embora daqui.
   - No apenas ela. E essa a pergunta importante que desejo lhes fazer. Queremos que vocs dois venham para casa conosco, que sejam parte de nossa famlia.
   - Est falando srio? Voc vai nos aceitar na sua casa?
   - No apenas isso. Quero que faam parte de nossa amlia. Que sejam...
   - Marty e eu aceitamos seu oferecimento. - Kenny estendeu a mo. - Mas voc no est agindo assim apenas por que o ajudei?
   - No - Logan respondeu, apertando a mo do garoto. 
   - Voc  um menino com a coragem de um homem e sempre me orgulharei de t-lo como amigo.
   Conner pigarreou, chamando a ateno de Logan.
   - Ty voltar para casa com vocs, enquanto ponho ordem nessa confuso aqui. Imagino que serei obrigado a lev-los para o xerife.
   - Monte confirmou que Riverton  quem dava as ordens. Entretanto, estando Monte morto, resta apenas minha palavra.
   - E ainda no sabemos quem passava as informaes a Riverton - Ty ponderou.
   Em poucas palavras, Logan explicou aos irmos sobre a alterao das marcas no gado.
   - Vocs j devem imaginar que Riverton negar qualquer relao com os crimes. Dir que no tinha conhecimento de nada. - Conner fez uma pausa e inspirou fundo. 
Aquela no era a hora, nem o lugar, de falar aos irmos sobre seus planos para o futuro, agora que ambos pretendiam permanecer na fazenda em definitivo. Porm no 
era possvel adiar mais. - E algo que eu sempre quis fazer e no podia at que vocs decidissem assumir o lugar que por direito lhes pertence  frente dos negcios.
   - Mas o xerife, Conner? - Ty no conseguia acreditar no que acabara de ouvir.
   - Acredito na lei. Estive estudando muito, me preparando. E sei que se pretendemos transformar esse territrio num lugar civilizado, onde um homem seja capaz 
de criar sua famlia e manter o que  seu, ento a lei ter de vigorar, ter que ser respeitada.
   Logan e Ty trocaram um olhar pensativo. Estavam acostumados a ver o irmo como o protetor, como a pessoa  frente dos negcios, no como um homem disposto a partilhar 
seus sonhos.
   Ento os trs se abraaram, rindo para aliviar a seriedade da situao.
   - Que tal ter um cunhado xerife?
   - Logan, por favor. Deixe-me me acostumar com a idia de t-lo para marido primeiro.
   - Voc vai ter uma estrela no peito? - Marty perguntou, puxando a manga da camisa de Conner. 
   - Posso ter uma tambm?
   - Voc vai usar o distintivo de delegado, est bem? - Conner pegou-o no colo. 
   - Porm antes precisarei vencer a eleio. Portanto, vamos para casa.
   - Oh, puxa! Kenny, voc ouviu isso? Ouviu? Vou ser um de-le-ga-do!
   - Primeiro vamos para casa. E quando voc estiver usando aquele distintivo, lhe mostrarei como apanhar e esfolar um bicho nocivo chamado Riverton.
   - Parece que teremos mais problemas  frente - Kenny falou satisfeito, tomando a mo de Logan entre as suas. 
   - Imagino que voc ir precisar de mim.
   - Sem dvida, filho. Jessie? - Logan a puxou para perto. - Voc vai ouvir certos rumores a meu respeito. Para tornar a coisa real, juntei-me aos bandidos e...
   Ela o silenciou, tocando-o de leve nos lbios com a ponta dos dedos.
   - Amo o homem em quem confiei, seja o fazendeiro ou o fora-da-lei.
   - Simples assim?
   - O amor, como descobri recentemente, em geral o .
   Depois que Jessie montou, Ty lhe entregou Marty, enquanto Kenny se acomodava na garupa de Logan.
   - Vo em frente. Eu ajudarei Conner. Encontramo-nos mais tarde, na casa de Jessie.
   Logan inclinou-se na sela, os olhos fixos em Ty.
   - Diga a Conner que voc encontrou quem mandou matar o pai de Dixie. As notcias se espalham. Diga que o pistoleiro contratado para fazer o servio foi morto 
em Ajo. Precisamos dar a Conner a chance de ir atrs do prprio destino, sem se preocupar com a fazenda. Quanto a mim, penso apenas em aposentar minha arma e viver 
em paz ao lado de minha Jessie. Sei que voc teve seus problemas com Conner e ambos sabemos que ele pode ser duro. Mas seja justo com nosso irmo e divida comigo 
a administrao dos negcios.
   Quando Ty ia dizer algo, Logan apenas sorriu e se afastou depressa, ansioso para alcanar Jessie e deixar aquela trilha de morte atrs de si.
   - Como  que voc ainda no disse a Jessie que a ama?
   A pergunta de Kenny pegou-o de surpresa. Nada escapava ao menino.
   - Sabe, filho, voc vai se tornar um grande homem. Jessie! - Logan gritou... Nosso filho Kenny acabou de me lembrar que eu me esqueci de dizer que a amo!
   - No posso ouvi-lo - ela devolveu rindo e acariciando a cabecinha de Marty.
   - Eu disse que te amo! - Logan tornou a gritar.
   - Sabe de uma coisa, fora-da-lei? Eu tambm te amo!
   
   FIM
   
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